• O euriquismo e a pátria dos charutos
    12 de janeiro de 2018
    Categoria: Futebol e Nacional

    Foto: André Mourão/Agência O Dia.

    Uma cadeira de couro. Mesa de madeira maciça, detalhes bem esculpidos, peça caríssima. Alguns documentos empoeirados e um copo com um uísque sem gelo. No centro da sala, ouve-se o riscar do fósforo, o folclórico senhor leva o charuto cubano a boca, acende. Traga. E solta a poeira para cima como um rei tirano que vê seu império ruir. Sob seus óculos, rescisões contratuais de jogadores, contas do clube vencidas, salários de funcionários atrasados. Ele olha todos os papéis e traga o charuto mais uma vez. Solta a fumaça. Fumaça essa que se desenha rumo a um brasão do Vasco acima da janela atrás da mesa de Eurico. Tal fumaça cobre o escudo do Cruzmaltino e embaça a visão de quem procura ver o símbolo de um dos maiores clubes de sempre.

    Somos a pátria dos charutos. Todos os clubes têm em sua história, gloriosa ou não, a figura de algum dirigente folclórico. Algum velhote mal-encarado, de ações obscuras e declarações polêmicas. Vicente Matheus, no Corinthians, Mustafá no Palmeiras, Odílio no Santos, enfim, a lista é enorme. A visão de um “homem forte” foi construída basicamente junto com a história do futebol nacional. Os esquemas, as lavagens de dinheiro, e muitas outras atitudes jamais reveladas circundam a cortina de deslumbramento do esporte bretão.

    “Mas faz parte, pô, a graça do futebol é essa informalidade…”.

    Será? Cabe mesmo dizer que a beleza do futebol está nessas obscuridades? O charuto que nunca se apaga também não apaga e nem paga as milhares de dívidas que os clubes brasileiros estão afundados. Nunca uma janela de começo de temporada foi tão pouco movimentada. Poucos são os clubes que conseguem demonstrar saúde financeira para se reforçar. E os que conseguem, logo levantam dúvidas sobre a legalidade dos investimentos. E o cheiro da fumaça vai preenchendo as narinas de todos os torcedores, que acompanham de longe, grandes histórias desmoronarem.

    Acima do cunho lógico de tais figuras nocivas, vem o cunho subjetivo. A convenção exclusivamente brasileira de cultivar a malandragem assumida, de reverenciar os senhores de suspensório que não tem medo de fustigar com faca afiada os rivais. Isso ganha o brasileiro médio, de fato. É como se tivesse a representação do torcedor nos altos cargos do clube. Mas infelizmente isso não é interessante, e vai na contramão da latente proposta de profissionalização do esporte.

    Ano após ano alguns dos senhores dos charutos vão perdendo sua majestade, mas não sem antes deixar marcas profundas e prejudiciais aos clubes. Vasco, como se fosse um estabelecimento em falência, tem sua sede saqueada, sem luz. O velho de suspensório mancha o brasão do alvinegro carioca, o queima. E mesmo saqueado, tendo seu brio um pouco apagado, o Vasco (e qualquer outro clube que sofre do chamado “Euriquismo”) resiste com algo que nenhuma fumaça esconde. Sua história, seus títulos, seus ídolos. E que a chuva que cai em todo Sudeste apague qualquer charuto que um certo senhor de suspensório tente acender.

    Postado por Igor Varejano 17 anos. Do interior de São Paulo. Vivo em ódio por amar o Palmeiras e o Liverpool. Futebol é o que move a humanidade.Bom, pelo menos a minha.