• O craque invisível
    15 de julho de 2017
    Categoria: Futebol e Internacional

    Foto: MAGI HAROUN/REX/SHUTTERSTOCK

     

    É inegável que o Tottenham é um dos times europeus mais empolgantes de se assistir nos últimos tempos. E quando tentamos listar os motivos que fazem os Spurs serem tão agradáveis de se ver jogar, recorre imediatamente à nossa memória o bom trabalho do treinador argentino Mauricio Pochettino e o nome de alguns jovens talentosos do Tottenham, como os meio campistas Christian Eriksen, Dele Alli, e o atacante Harry Kane.

    Tudo bem, não se preocupe, não vou dizer que você está errado por achar que este trio representa os melhores jogadores do time, até porque os números mostram que os três realmente são os grandes nomes do esquadrão londrino. Mas venho aqui para falar de um jogador que raramente é lembrado, apesar de ser uma parte importantíssima dessa engrenagem. Trata-se de Mousa Dembelé.

    Jogando na equipe há cinco temporadas, o meio campista belga, prestes a completar 30 anos, é figurinha carimbada no onze inicial do time da capital inglesa, não à toa ele está muito próximo de completar 200 jogos pelo clube. Nesse período, marcou dez gols e distribuiu 11 assistências, nada muito impressionante, mas se pararmos para pensar que causar impacto no funcionamento da equipe vai muito além disso, podemos ver que ele é uma peça de suma importância no funcionamento dos Spurs.

    O jogador desembarcou no White Hart Lane em 2012.

    Apesar de atuar recuado e possuir algumas características defensivas, Dembelé tem uma média de quase três dribles por jogo, sendo o sexto neste quesito entre os que disputaram mais de 20 partidas na última edição da liga inglesa. O grande choque vem ao analisar o seu aproveitamento, que é o mais eficiente de toda a Premier League entre os que tentaram pelo menos 40 dribles, com incríveis 85% de sucesso. É, sem dúvida, um dos jogadores mais eficientes na proteção de bola do mundo.

    Não é só fintando os oponentes que Dembelé destoa dos demais. Sua capacidade para tocar a bola é algo fenomenal. Dono de um passe preciso, o meia belga acumulou 93% de acerto nos passes curtos na última temporada. Atuando um pouco mais para a esquerda, ao lado do cão de guarda Wanyama e atrás de Alli e Eriksen, sua presença é vital para que a bola chegue com qualidade aos homens de frente. Falando em qualidade, os homens de frente do Tottenham tem de sobra. Foram 86 gols na Premier League – não só foi o melhor ataque, como foi a equipe com mais finalizações a gol no campeonato.

    Mas aí você pode me falar “Ah, mas o Marcio Araújo também tem boa porcentagem de acerto de passes e isso não significa que ele é bom”. De fato, é importante analisar de forma mais profunda os números que vemos, uma vez que um jogador pode ter alta porcentagem porque só dá passe simples para o lado e para trás, sem dar muitos passes contundentes ou com risco de interceptação do adversário. Então, vamos lá.

    Mousa Dembelé é o segundo jogador dos Spurs com mais passes verticais, ficando atrás apenas do dinamarquês Christian Eriksen, Passes estes que viajaram em média 17 metros na última edição da Premier League. Para um jogador que atua centralizado é uma boa média, visto que não é necessário fazer muitos lançamentos. Apenas para efeito de comparação, os passes de Paul Pogba, do United, também viajaram em média 17 metros na última edição do campeonato inglês.

    Um dos pilares do time.

    Em chances criadas, o belga soma 25 em 2016/17, um número aceitável para alguém de sua posição, uma vez que a obrigação de criar chances de gol é dos meias e não necessariamente dos volantes. Mas para que os meias criem oportunidades de gol, é importante que a bola venha até eles com qualidade. E é nesse ponto que Dembelé se torna um ponto fora da curva. Sua condição ímpar passando a bola é um trunfo que facilita, e muito, o trabalho dos meias do Tottenham. No final das contas, quem sai na foto e leva os créditos quase sempre é Harry Kane, artilheiro da última edição da Premier League, enquanto Dembelé segue ali, invisível, executando sua função com grande maestria. Se ele fica bravo por raramente levar os créditos eu não sei, mas ele continua operando de forma cirúrgica no meio campo do Spurs e sendo fundamental para o sucesso da equipe.

    É evidente que os jogadores que mais chamam a atenção são aqueles que fazem gols, dão dribles desconcertantes e que resolvem nos grandes momentos de decisão, mas é extremamente importante saber analisar o que leva uma equipe a atingir a excelência dentro de campo. A análise tem de ir além do trabalho feito pelo treinador. É preciso entender como as peças se encaixam e trabalham juntas dentro da partida, fazendo com que a engrenagem funcione o mais próximo possível da perfeição, levando a resultados satisfatórios.

    Ouça nosso podcast sobre o mercado do Top 6 inglês!

    Postado por Pedro Amadeu 20 anos, estudante de engenharia, apaixonado por futebol. Nas horas vagas, pesquisa e escreve sobre futebol, contribuindo para o Blog 4-3-3.