• O coração brasileiro tem uma paixão estrangeira
    9 de agosto de 2017

    Foto: Pixabay

     

    O futebol, mais do que nunca, é vivido e acompanhado por aqueles que o amam. Ano após ano. Quando essa até então estranha prática esportiva surgiu, na segunda metade do século XIX, apenas os mais abastados praticavam o football, especialmente nos colégios britânicos. Com o passar dos anos o esporte foi se tornando o que é hoje uma de suas principais características: a diversidade. Começaram a praticar os negros, apesar do racismo e toda questão social envolvida, e os operários das indústrias que, como é sabido, foi a classe trabalhadora que fundou diversos clubes pelo mundo.

    A maneira de acompanhar uma paixão movida por chutes, passes e pontapés também evoluiu drasticamente. As notícias sobre os gols perdidos pelo atacante caneludo do time do coração chegavam, nos primórdios do esporte e da comunicação, através do rádio e do jornal impresso. Décadas se passaram e hoje o torcedor acompanha o dia a dia do seu clube através de jornais online, apps, grupos de WhatsApp e, por menos frequente que cada vez mais seja, pela televisão.

    Após ter como marco um processo de integração social, cultural, político e também esportivo chamado globalização, a ideia da ausência de barreiras e fronteiras na cabeça do cidadão-torcedor se tornou cada vez mais forte. Aumentou então o número de brasileiros que se declaram torcedores de um time estrangeiro.

    Recentemente, em meados de 2015, o IBOPE (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística) revelou em pesquisa que 69% dos brasileiros entre 16 e 29 anos torcem para algum clube europeu. Claro que os métodos, abrangência e variáveis da pesquisa podem ser questionados, assim como qualquer outra, mas o fato de haver um número tão significativo e uma temática tão ampla, acabam trazendo algumas reflexões à tona.

    Confesso que quando li a pesquisa na época não dei a importância devida na qual o fato merecia. Talvez por não conhecer algum amigo que realmente torcesse por um clube europeu, ou até mesmo por não saber dimensionar o que isso significava.

    Minha percepção começou a mudar quando minha irmã, até então se dizendo torcedora de um clube brasileiro, começou a acompanhar religiosamente os jogos de um clube europeu e a consumir notícias desse time de forma voraz. Com o tempo acabou mudando sua torcida. O momento de seu clube brasileiro não era dos melhores há pelo menos dois anos, mas nada de rebaixamentos ou goleadas humilhantes. Não era apenas por isso o motivo da mudança.

    Esse pode ser um caso à parte, talvez uma causa singular de ausência de amor verdadeiro ao clube brasileiro de anos, ou pelo novo europeu. Só o tempo dirá.

    A questão é: por que essas mudanças são cada vez mais frequentes?

    A comunidade brasileira do Arsenal já conseguiu até um banner fixo no Emirates Stadium. Foto: Reprodução/Twitter

    Alguns fatores parecem pertinentes na discussão. Um deles é permitido pela facilidade que o torcedor tem para ver seu time estrangeiro toda semana na TV, o que não ocorria antes. Os maiores e mais caros jogadores do mundo elevaram o nível dos torneios europeus, mesmo os nacionais, fazendo com que diversos canais de televisão se digladiem para conseguir os direitos de transmissão e assegurar telespectadores e o lucro embutido.

    O produto futebol, por mais estranho que seja chamar um esporte de produto, é tratado de forma ímpar pelos clubes europeus, aumentando o alcance que possui a marca esportiva, ou até mesmo na estrutura competitiva na qual o time está inserido, como o calendário de disputa das competições.

    Os jogadores que estão começando, então, já sonham com os gigantes Real Madrid, Barcelona, Bayern de Munique ou Juventus. A vitrine, mais do que nunca, está no velho continente. O torcedor, por sua vez, clama por mais uma temporada do jovem craque em seu clube brasileiro, por uma não saída precoce para a Europa. Ele entende, mesmo que inconscientemente, uma Europa como meta de seu atleta, mesmo que essa compreensão lhe peça depois para jogar moedas no gramado.

    Já os atletas consagrados têm os nomes declamados nos botequins mundo afora, dos extremos da Linha do Equador ou do Meridiano de Greenwich. A nata do futebol mundial está na Europa, é difícil não ter uma quedinha pelo time que seu atleta predileto defende, argumentam alguns fãs.

    Foto: arsenalbrasil.com.br

    Mesmo na desvantagem do eurocentrismo histórico, da tecnologia, do valor comercial da moeda, da linguagem e da técnica futebolística, a duras penas os clubes brasileiros parecem estar enxergando os problemas no tratar do futebol e na perda de torcedores fiéis, e começam a criar alternativas e medidas que estão ao seu alcance no momento. Ainda há um longo caminho.

    É claro que a questão não é apenas a maneira de tratar o esporte, mas sim esse passo irreversível sobre o Atlântico que a tecnologia permite ao torcedor dar. O momento não é de julgar se há paixão verdadeira ao torcer por um clube que não seja brasileiro ou se é algo “moralmente” aceito pelos amantes do futebol. A hora é de compreender que o mundo está em constante mudança e o futebol também.

    Postado por Rudiney Freitas Estudante de Jornalismo apaixonado por esportes, em especial pela mais imperfeita perfeição criada pelo homem, o futebol. Procura entendê-lo também como fenômeno social e nega até a morte que tudo “é só um jogo”. Twitter: @rud1ney