O colombiano que dribla o imediatismo a serviço do Santos
18 de abril de 2019
Categoria: 4-3-3

Zagueiro quase foi “queimado”, mas se firmou na zaga santista.

A afobação, a ansiedade e a cultura resultadista certamente são componentes que contribuem para dificultar ainda mais o trabalho de técnicos, dirigentes e jogadores no futebol brasileiro. As análises da crítica esportiva muitas vezes são calçadas em percepções apenas momentâneas, quando o racional fica totalmente de lado e o emocional entra em cena, o que fatalmente contribui para levar às arquibancadas um sentimento cada vez mais imediatista. Não se dá tempo para nada, a vitória precisa vir pra ontem.

A primeira derrota do Santos em 2019 foi acachapante. A superioridade em posse de bola, número de finalizações e passes trocados pouco puderam conter o ímpeto do eficaz Ituano, na quinta rodada (vejamos, quinta rodada) do Campeonato Paulista, em Itu. O placar de 5 a 1 foi construído primordialmente no primeiro tempo, quando os mandantes saíram para o intervalo vencendo por 4 a 1.

Em dois desses quatro gols o zagueiro recém-contratado Felipe Aguilar contribuiu decisivamente com falhas. Saída de bola lenta, passes errados e cobertura falha no até então terceiro do jogo do gringo sendo apenas o segundo como titular deixaram uma pulga atrás da orelha de muito santistas. A goleada chegou a colocar em cheque por parte da torcida e da imprensa o estilo Sampaoli de jogar e os 15 milhões de reais pagos pelo peixe na contratação do defensor colombiano de 1,90 de altura bastante querido no Atlético Nacional.

Desde então o tempo e, sobretudo, o talento de Aguilar trataram de mostrar ao torcedor santista que a pressa e o imediatismo não podem atrapalhar um trabalho que ainda está no início e fatalmente terá falhas até que se estabeleça, enraizado na forma do time atuar.

A partir do revés em Itu, ele emendou uma sequência grande de partidas como titular e atuando os 90 minutos capaz de acabar com qualquer desconfiança. ‘Casou’ com o estilo de jogo do técnico Jorge Sampaoli, ajudando muito na saída de bola. É calmo e sempre busca a opção de passe mais acessível. Tem um bom lançamento, bom passe longo e, vez ou outra, também dá bico pra frente – afinal, é ofício do zagueiro jogar a bola pro mato também, não?

Mas são nos fundamentos defensivos que Felipe deu a volta por cima. Dono de uma leitura de jogo muito qualificada, se antecipa em várias tramas adversárias ainda dentro da linha alta que o Santos aplica (por vezes atuando em um 2-3-5 com posicionamento dos zagueiros na linha de meio do campo). É raro vê-lo perder uma disputa aérea. Rebate bolas ao ataque quando necessário e põe no chão com tranquilidade os lançamentos, rebatidas e investidas em que a defesa santista é posta à prova. Seja com Lucas Veríssimo, Gustavo Henrique ou Luiz Felipe ao seu lado, não oscilou desde a fatídica goleada mencionada acima, tornou-se um dos jogadores mais regulares do elenco no ano e ganhou o apelido carinhoso da torcida de ‘Aguiloko’. Hoje é o melhor zagueiro em atuação com a camisa alvinegra.

Exceção feita à derrota perante o Ituano, o Santos somou mais outros quatro resultados negativos no ano. Em todos eles, Aguilar não esteve envolvido diretamente no placar: 0 a 1 frente ao Novorizontino em gol originado após falha de marcação de Victor Ferraz; goleada de 4 a 0 diante do Botafogo com time reserva e Aguillar no banco; derrota de 2 a 1 para o Corinthians em falha primordial de Luiz Felipe; e derrota para o Atlético-GO por 1 a0 sem o defensor estar relacionado.

Contra o Corinthians, um dos grandes adversários da temporada, partida muito segura.

Ressaltando as estatísticas: 11 vitórias, cinco empates e apenas três derrotas com Felipe em campo. Em 11 dos 19 jogos o Santos saiu sem tomar gol. Na noite da última quarta-feira, diante do Vasco, mais uma atuação sublime em antecipações e botes certos. Foi assim nas partidas contra Atlético-GO (volta da Copa do Brasil) e Corinthians (volta da semifinal do Paulistão), para citarmos embates mais recentes. Imagino que para ser tão querido como era no Atlético Nacional e ter chegado à Seleção da Colômbia o nível de atuações, se não igual, beirava o demonstrado atualmente. Não foi campeão da Libertadores em 2016 e melhor passador do Campeonato Colombiano do ano passado por acaso.

Santistas e não santistas precisam entender que a ânsia em superestimar ou subestimar os profissionais do futebol em início de trabalho não é o melhor caminho a trilhar. Aguilar é um exemplo claro disso. Tal como sua altura imensa, vem sendo gigante para deixar a crítica mais abafada jogo após jogo. Esperamos que o saldo final do ano e de sua passagem seja positivo, e que o tropeço inicial no caminho sirva de lição aos ansiosos que teimam em não dar tempo ao tempo.

Postado por Bruno Ferreira Santos Paulistano, 22 anos, jornalista em formação. Tem Santos no nome e no coração. Pivô de futsal nas "horas vagas". Ama jogadas ensaiadas e fintas de corpo.