O Atlético de Madrid e a inteligência de mercado
4 de outubro de 2019
Categoria: 4-3-3 e Futebol e Internacional
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Existem contratações que são pautadas meramente em nome, em idade e em feitos, sem levar em conta necessariamente o que a equipe precisa, ou o que o jogador pode agregar no momento. Ver o Barcelona com Antoine Griezmann deslocado na ponta esquerda é uma grande amostra disso. Entretanto, o antigo clube dele, o Atleti, tem dado uma aula no mercado de transferências.

Depois de uma eliminação frustrante frente a Juventus, onde o time ficou totalmente encaixotado, sem conseguir saída do campo de defesa, ficou claro que algumas mudanças tinham de ser feitas tanto no elenco quanto na forma de jogar. A prioridade ainda é se defender, mas a forma de atacar é diferente. A ordem é simples, retomar e se compactar por um dos lados. Desde o winger do lado oposto, três restantes do meio campo mais alguns dos laterais trocam passes sempre tentando progredir, mas não vira nenhum problema se isso não for bem sucedido, porque nem de longe é a ideia central. Isso porque do lado inverso ao que se inicia a jogada o objetivo é um dos laterais disparar e gerar amplitude. Simeone atrai a jogada para um lado e com isso vem a inversão para gerar espaço e o time decidir propriamente aonde vai atacar. Um ou dois jogadores, normalmente João Felix ou um dos wingers, se aproxima para se associar, mas a ideia é definir o quanto antes. O Atlético não tem medo de infiltrar com dois, três, quatro na área e cruzar rapidamente. Não é difícil de entender, se Lodi ou Trippier receberem esse tipo de inversão em boas condições, provavelmente terão espaço e tempo para cruzar corretamente, inclusive esperando a entrada de mais jogadores na área.

Ainda voltando ao recorte da eliminação contra a Juventus em Turim alguns meses atrás, Arias e Juanfran não conseguiram produzir nada ofensivamente e tiveram dificuldades enormes com a marcação pressão. As tentativas ficaram muito concentradas pelo meio e a presença de um trio de zaga e não uma dupla fez com que o ataque colchonero fosse totalmente anulado pela defesa bianconera. O Atlético nunca teve medo de jogar um futebol muito direto, por vezes apelar para a bola longa e a existência de uma dupla de ataque era um extremo incômodo para as defesas adversárias. Raramente se tinha uma sobra no setor, os recuos de Griezmann para a entrelinha geravam uma indefinição no defensor, de sair para acompanhar o francês e quebrar a linha de defesa, ou espera-lo receber entrelinhas e vir conduzindo com liberdade. Não que a escalação de 3 zagueiros fosse uma solução super genial. A ausência de Filipe Luís também pode ter sido primordial para o time sofrer tanto com a pressão pós-perda da Juventus, mas a extrema dificuldade do Atlético em lidar com aquela situação fez o time repensar a forma de atacar, e isso passava pelo mercado.

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O Atlético precisava se reinventar.

Não sei em que determinado momento Simeone planejou as mudanças no seu modelo de jogo, mas certamente em conjunto com a diretoria escolheu a dedo cada jogador que contratou. Se Griezmann queria sair, buscou quase pelo mesmo valor, um novo segundo atacante com números excepcionais aos seus 19 anos de idade. João Félix é craque, embora muitos tenham receio quanto ao pouco tempo de destaque em uma liga tida como secundária, não tenho dúvidas de que se tornará um jogador melhor que o francês. João tem ótimo senso de desmarque e ataque de espaço, se ainda não tem o mesmo físico do francês, compensa com mais visão de jogo e recurso para drible.

Se a ideia é ter um avanço constante dos laterais, como os homens que geram amplitude, eram preciso jogadores de enorme resistência física. Com 34 anos não era seguro submeter a uma intensidade ainda maior a que eram acostumados nomes como Juanfran e Filipe Luís, que jogariam disparando e voltando com enorme velocidade toda hora. Até por não ser característica desses jogadores. O próprio Filipe já comentou várias vezes que prefere atacar por dentro e não chega tanto a linha de fundo. Nesse contexto Lodi é bem mais jovem, passa ao ataque com mais velocidade e chega com bem mais frequência na linha, mas ainda mantendo boa capacidade de jogar se associando mais pelo meio se for preciso. Trippier vinha em baixa, mas tinha características extremamente favoráveis ao que Simeone procurava como cruzamentos precisos, lançamentos e bola parada.

Por sinal o lançamento ou inversão se torna uma qualidade muito necessária aos meio campistas do Atlético. Herrera chegou a custo zero e tinha no Porto um ótimo índice de acerto nesse tipo de passe. Firme em disputas aéreas que podem fazer diferença na bola parada, como foi na primeira partida dessa edição de UCL. Outro meio campista que chegou, com a contrapartida da venda de Rodri foi Marcos Llorente. Subaproveitado no Real chega como boa solução ao elenco, também com respaldo de um ótimo índice de acerto nos passes longos, ainda que a ótima fase de Thomas Partey venha minando seu espaço. Com uma clara predileção por volantes lançadores que possam executar essas inversões aos laterais com qualidade, o Atlético sinaliza que pode vir buscar Bruno Guimarães no final do ano. O volante do Athletico Paranaense é possivelmente o melhor jogador do Brasil nesse quesito. Todos os citados são nomes acostumados a jogar em alta intensidade, a marcar, exercer coberturas e fechar linhas de passe. Todos têm mais de 1,80m de altura. Nenhum deles são meros bons passadores, o combate e a entrega são necessários no time de Cholo Simeone.

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Bruno Guimarães pode agregar ao estilo de jogo do Simeone.

Por fim o Atleti ainda buscou mais dois zagueiros, visto que Godin e Hernandez deixaram a equipe. Para a vaga de Godin buscou Felipe, um nome com boa experiência no cenário europeu, extremamente firme nas disputas aéreas e seguindo a métrica da maioria dos reforços, com bons índices nos passes longos. Outro reforço, um defensor mais leve, com mais velocidade, capaz de cobrir também a lateral esquerda Mario Hermoso é um nome com certa similaridade as características de Lucas Hernández. Versatilidade por sinal é palavra de ordem dentro do Atletico, visto que o elenco não é numericamente extenso. O clube não tem o orçamento de Real e Barcelona, não tem a disponibilidade de pagar salários estrondosos, o que ressalta a escolha da substituição de alguns nomes experientes ou já muito badalados. Por boas ofertas não abdica de vender um ou outro atleta, mas a substituição tem de ser extremamente precisa e pensada dentro de um contexto tático e não apenas encontrar um bom jogador para substituir aquele que saiu, ou contratar aquela estrela ou jogador que está em alta para depois encontrar lugar para jogar.

Postado por Osório Lopes Universitário, torcedor da seleção argentina, viciado em poker, Rock and roll e futebol.