Notas de repúdio não adiantam mais
24 de setembro de 2019

 

É inaceitável que em 2019 ainda tenhamos que criticar uma atitude que já deveria ter sido extinta. Mas o racismo segue implícito e explícito no esporte bretão, o mesmo racismo que antes era institucional, hoje encontra sua maneira de permanecer no mundo moderno. Em ambientes como um estádio de futebol, torcedores se sentem em um “mundo paralelo”, onde podem libertar seus mais nojentos sentimentos, a muleta da emoção extrema se tornou o carro chefe, o humor, auxiliar.

Em época de novo código disciplinar da FIFA dando direito ao juiz de encerrar a partida em casos de racismo e intolerância em geral, episódios de preconceito racial explodem pela Europa, sobretudo na Itália. Kessié, Dalbert e Lukaku, todos no mesmo mês e na mesma divisão, fato incrivelmente surpreendente e grotesco. Com agravantes tão estúpidos que quase nem acreditamos ser verdade, como a torcida da própria Inter de Milão (no caso do Lukaku) justificando os cantos racistas do adversário. Ou um jornalista esportivo da TV italiana comentando que para parar o atacante belga, é preciso dar “10 bananas” pra ele (o joranlista foi demitido).

A febre de novidades repugnantes acompanha os tempos de intolerância que vivemos. O futebol, como reflexo da sociedade, reflete também o preconceito inerente no contexto atual, que fere de maneira covarde uma minoria carente de incentivo e, acima de tudo, resistência. Hoje contamos com frentes antiracistas ainda frágeis no esporte e muitas vezes apenas individual, sem conexões. Como Sterling, Eto’o e Koulibaly, alguns dos “rostos de destaque” que lutam contra o precoceito racial no esporte. Isso é pouco frente a federações e clubes que explicitamente jogam panos quentes em casos assim, para diminuir o impacto do racismo sobre eles. O tribunal italiano, inclusive, declarou não puniria ninguém no caso Lukaku, pois “não considerou como discriminatório”, uma atitude não tão diferente do habitual se tratando de Itália, mas igualmente ridícula.

Há uma extrema necessidade de coalizão contra o racismo no futebol, há necessidade de união entre os pretos com maior poderío de voz da modalidade. É preciso fazer o que Pelé teria a facilidade de fazer, mas não o faz, até hoje. Uma grande associação, com jogadores negros de renome, tanto aposentados como em atividade, uma entidade com força e influência o suficiente para exercer pressão sobre federações e clubes. Grande o suficiente pra usar o seu lobby esportivo como uma ferramenta de mudança. Notas de repúdio deixaram de fazer efeito, aquela resposta padrão condenando atos e seguindo para a próxima pergunta, não mudará nada.

Não pode existir mais espaço pra essa naturalização do preconceito, não ser racista deixou de ser o suficiente, é preciso ser antiracista. A normalização da intolerância vem sendo mascarada por “brincadeiras” e “opiniões”, quando um negro é vítima desse tipo de situação, todo o futebol é ferido. O esporte visto como tão democratico e inclusivo, de público popular e tremendamente apaixonado, sofre no olhar de Moise Kean.

Emblemático.

A revolta precisa sair da vitrine, o combate é urgente e precisa ser já. Que seja com cláusulas contratuais que permitam a um jogador negro o rompimento unilateral do contrato em casos de racismo, ou com sistemas que detectem rosto a rosto os racistas e os levem a responder por isso. A responsabilização está atrasada no relógio da evolução, ela precisa chegar, agora.

Apesar da Itália ter sido usada como exemplo no texto, a crítica abrange todos os países. Desde a Rússia com o recente caso do Malcom, até o Brasil, com gremistas xingando Yony Gonzalez de macaco, meses atrás. Chega de lamentações, é preciso resistir e combater. Como os grandes chefes brancos seguem complacentes, se reserva aos jogadores -fonte de todo o dinheiro movimentado nessa indústria imensa- a posição na linha de frente do front. Notas de repúdio não vão calar a boca dos racistas, mas Pogba, Eto’o, Sterling, Neymar, Koulibaly, Matuidi, Marcelo e outros diversos astros negros, juntos e alinhados, podem forçar essa mordaça goela abaixo de pessoas sem humanidade.

Postado por Renan Castro 23 anos, administrador, torcedor do Flamengo, natural de Nova Iguaçu - RJ, fã de aviação e dono de três quadros: Vestindo o Futebol, Ícones Alternativos e Memória FC.