Muito longe de casa: a realidade do futebol serra-leonense
10 de outubro de 2018
Categoria: Futebol e Seleções

 

Pouco mais de 7 milhões de pessoas dividem um espaço de 71 mil metros quadrados (metade do estado do Ceará) nessa que é uma das nações mais pobres do mundo: Serra Leoa – um país africano entranhado entre o Oceano Atlântico, a Libéria e a Guiné.

Com uma expectativa de vida de apenas 51 anos de idade, e um IDH de 0,420 (6° pior do mundo), o país é independente do Reino Unido desde 1961. De lá para cá, passou pelo unipartidarismo, por uma reforma constitucional, por uma ditadura e por uma Guerra Civil (tudo isso em apenas 20 anos como república, institucionalizada em 1971), que durou de 1991 até 2002, ocasionando em mais de 50 mil mortos e milhões de refugiados, resultando no famoso livro autobiográfico A Long Way Gone: Memoirs of a Boy Soldier (Muito Longe de Casa: Memórias de um Menino-Soldado, no Brasil) de Ishamel Beah, sobre uma criança soldado na Guerra Civil.

Em meio a esse cenário apocalíptico, o esporte cresce nas comunidades e áreas pobres, indo na contramão da corrupção, da falta de água, da baixa escolaridade, de deslizamentos de terra e das altíssimas taxas de mineração, contaminação do solo, mortalidade infantil, mutilação genital feminina e o vírus Ebola, que tanto assolam o país – torcidas adversárias chegaram a ridicularizar os jogadores da seleção por conta da doença. E o principal esporte, assim como em grande parte do mundo, é o futebol.

Como no Brasil, jovens de Serra Leoa sonham com uma vida melhor por meio do futebol.

A Premier League Serra-Leonesa iria retomar seu campeonato neste ano, após quatro anos de hiato causados especialmente por uma razão: corrupção. A SLFA (Sierra Leone Football Association) fez história em 2013 ao ter Isha Johansen como a primeira presidente mulher de uma associação de futebol africana, e apenas a segunda do mundo. Entretanto, a corrupção, que já era latente, se tornou uma marca da instituição, resultando na suspensão da SLFA pela FIFA, maior entidade do futebol mundial, no dia 5 de outubro de 2018.

Com a suspensão, a Seleção de Serra Leoa, que nunca jogou uma Copa do Mundo e disputou duas Copas da Nações Africanas (em 1994 e em 1996), nunca passando da 1ª fase, está inapta a participar de qualquer competição oficial, bem como perde todos os direitos de um membro da FIFA – isso poucos dias antes de um importante jogo contra Gana, válido pelas eliminatórias para a Copa Africana de Nações do ano que vem.

Tal fato ocorreu como uma intervenção na SLFA, a fim de que “eles possam retomar o controle da Associação, tanto na administração e instalações, quanto na mídia e na prestação de contas”, como disse o documento oficial da FIFA. Johansen afirma ser inocente, negando as acusações de desvio de verba e abuso dos cofres públicos desde o ano passado e alertando que há fatores políticos por trás das denúncias. O que se sabe com certeza é que ela e seu staff estão impedidos de exercer seus cargos até uma prova de legitimidade de seu governo.

Quem sofre com isso é o povo e os torcedores serra-leoneses. O campeonato, suspenso desde 2014 por desorganização, falta de investimento e corrupção, vê suas principais joias da base migrarem para centros comerciais melhores, como o europeu, o asiático e o norte-americano. A mídia se resume em mostrar a performance das seleções sub-20, 17 e 15, e o desempenho de jogadores locais por outros campeonatos mundo afora, como a MLS, a EFL Championship e a Super Liga Grega. Times históricos como Mighty Blackpool e East End Lions, maiores times do país e rivais ferrenhos da cidade de Freetown (capital do país, com mais de um milhão de habitantes), se encontram às moscas. O futebol, uma das poucas alegrias desse povo sofrido, se encontra morto.

Futebol, um dos poucos motivos de festa para o povo de Serra Leoa, morre aos poucos. Foto: ISSOUF SANOGO/AFP/Getty Images

Como consequência, os maiores jogadores serra-leoneses têm de frequentemente doar quantias que parecem irrisórias quando comparadas com outras associações como a CBF, mas que mantêm os clubes em funcionamento (aqui estamos falando de no máximo $500, aprox. 1,4 milhões de leones, moeda nacional). Kallon, ex-Internazionale e Monaco, Strasser, ex-Milan, e Conteh, ex-Atalanta, Palermo e Chievo Verona, são alguns dos exemplos. O futebol brasileiro também já teve nomes do país africano: Koroma fez parte do elenco, mas não jogou com a camisa do Botafogo; Brewah atuou em partidas-treino pelo Flamengo, fez testes no Glorioso e jogou duas partidas oficiais pelo Fortaleza.

A verdade é: não se sabe o que será do futebol serra-leonense. A SLFA está afundada em dívidas, processos judiciais e más administrações, tudo acumulado por infindáveis casos de corrupção tanto na própria Associação quanto nos clubes. A mídia e os torcedores estão longe dos estádios e dos jogos profissionais. Os jogadores se jogam em outros mercados, buscando visibilidade, estabilidade e independência financeira de um país rico culturalmente, mas que está a Deus-dará.

Mais do que nunca, o significado da bandeira tricolor deve ser hasteado na maior altura possível: o verde dos recursos naturais, hoje em dia tão desgastados pela mineração arcaica; o branco da unidade do povo e da justiça, que tanto faltam aos governantes; e o azul da esperança de que a capital Freetown ofereça paz, que se encontra perdida em território leonense.

Serra Leoa existe, persiste e resiste àqueles que apenas lhe causam dano e dor. Resta saber por quanto tempo isso durará.

Postado por Pablo Heringer Brandão Capixaba de nascimento, mineiro de coração. Simpatizante de inúmeros clubes, torcedor ferrenho do Atlético-MG e das seleções holandesa, uruguaia e serra-leonense. Amante de escudos, rivalidades e histórias que circundam toda e qualquer partida de futebol.