MODÃO CAIPIRA #68 – O presidente caipira
29 de março de 2019
Categoria: 4-3-3 e Modão Caipira

 

Imaginem se a Federação Paulista tivesse um presidente que lutasse com unhas e dentes pelos times do interior. Imaginem também se o presidente “criasse” mais dois torneios para oferecer calendário e mais chances de título para esses times. Também pensem como seria bom ter um presidente que tomasse medidas para valorizar o futebol estadual e para que os estádios voltassem a lotar. Se eu disser que essa figura já existiu, você acredita? Pois é, ele se chamava Alfredo Metidieri e foi presidente da FPF entre 1976 e 1978.

Metidieri nasceu há 100 anos, no dia 8 de março de 1919, em Votorantim, que na época ainda era um distrito de Sorocaba, e faleceu em 17 de agosto de 2015. Foi uma pessoa bastante influente na cidade conhecida como Manchester Paulista, sendo fundador de uma grande indústria de tecelagem e auxiliou no processo de  industrialização da cidade.

Sua trajetória dentro do futebol começou quando entrou para a política do São Bento, como conselheiro do clube, em 1956. Em 1964, assumiu a presidência do Azulão, e entre idas e vindas passou mais de sete anos no cargo máximo da diretoria do clube sorocabano. Como conselheiro, foram mais de 35 anos. Em 1976, com o apoio dos treze clubes menos representativos da série principal do estadual, conseguiu ser eleito presidente da Federação Paulista de Futebol. Na época, praticamente só os grandes tinham espaço na política do futebol de São Paulo, mas os interioranos se “rebelaram” e se uniram para conseguir eleger um presidente que os representasse.

Durante o seu mandato, ocorreu o maior título de um time do interior paulista na história do futebol: o Guarani venceu o Campeonato Brasileiro de 1978, sendo até hoje o único time interiorano do país a conquistar o mais importante título nacional. Além do Guarani, vários outros times se fortaleceram nacionalmente nessa época, com destaque para a Ponte Preta, o XV de Piracicaba, o Botafogo de Ribeirão e o América de Rio Preto. Nos três anos de seu mandato, o Paulistão teve média de público de 13069 torcedores – para efeito de comparação, a média de pagantes do campeonato de 2019 é de 7701 pagantes.

Já em 1976, Metidieri “inventou” uma nova fórmula para o Campeonato Paulista, que permitia que os pequenos tivessem mais força para lutar por posições melhores na competição, coisa que era bastante dificultada nos regulamentos dos anos anteriores. Além disso, os times que eram eliminados precocemente continuavam disputando partidas preliminares às que possuíam importância, com participação no borderô dos jogos. Essa foi uma medida para manter os clubes com calendário por mais tempo, e com dinheiro entrando por mais tempo também. Como prova que os interioranos teriam mais chances de brigar por título, logo no primeiro ano desta fórmula, o XV de Piracicaba conseguiu o vice campeonato, o Guarani foi o terceiro e o Botafogo o quarto – e ainda teve Sócrates como artilheiro do torneio.

Metidieri (direita) sendo entrevistado por Armando de Barros (Foto: Blog Que Fim Levou)

No ano seguinte, o Botafogo se sagrou campeão do primeiro turno e terminou o campeonato como terceiro colocado no geral. E mais uma vez, um clube do interior foi vice-campeão. Dessa vez, foi a Ponte Preta, que acabou derrotada pelo Corinthians na famosa quebra de tabu de 23 anos sem títulos do alvinegro da capital.

Alfredo também foi muito importante na abertura de portas para outros representantes da política do interior paulista na FPF. O mais importante deles foi Eduardo Farah, ex-dirigente do Guarani e que posteriormente foi presidente da Federação entre 1988 e 2003.

Em 1978 porém, não conseguiu a reeleição, principalmente por conta de questões/desentendimentos políticos com seu adversário Nabi Abi Chedid. A partir de então se afastou de cargos, inclusive dando declarações fortes para a Revista Placar, dizendo que teve prejuízos na época de presidente, por ter se dedicado 100% à função e abandonado seus negócios. Também deu a seguinte entrevista em 1986: “Os torcedores querem que eu volte, mas para ganhar uma eleição no sistema atual é preciso um investimento de 7 ou 8 milhões de cruzados, e isso é coisa de político, coisa que não sou”.

O “Homem Forte” do São Bento por vários anos e grande representante dos clubes menores sempre foi muito respeitado por todos e recebeu muitas homenagens ainda em vida, principalmente por parte do clube sorocabano. Certamente foi um dos maiores responsáveis pela força do interior paulista, e com sua morte em 2015 um pedacinho do futebol caipira também se foi. Nada mais justo, portanto, que façamos esta pequena homenagem ao eterno Alfredo Metidieri.

Colaboração: Luiz Carlos Éden

Postado por Leonardo Tudela Del Mastre Natural de Sorocaba-SP, amante do futebol do interior paulista e torcedor de São Bento e Corinthians. Além do amor pelo interior, viciado no futebol como um todo. Formado em Processos Gerenciais pelo IFRS.