MEMÓRIA FC #33 – 1984, o ano em que o Boca Juniors quase desapareceu
22 de agosto de 2018
Categoria: 4-3-3 e Memória FC
El Gáfico

Acostumados a ver um Boca Juniors imponente, inabalável e ganhador nos dias de hoje, a maioria das pessoas não imaginaria o terror que foi o ano de 1984 para o clube argentino. Mesmo nunca tendo caído para a segunda divisão, o torcedor xeneize -mais velho- já passou por muitas fases complicadíssimas, ao ponto de sentir medo do seu clube do coração falir.

O longínquo ano começava de uma maneira promissora, na pré-temporada o time que contava com nomes como Gareca e Ruggeri desfilou em campo. Duas vitórias com autoridade sobre o River Plate (3×0 e 2×0), inclusive dentro do monumental. De quebra, 3×0 no Independiente e 4×2 no Racing. Os jornais argentinos se deliciavam com o jogo da equipe e cotavam o Boca como um dos mais fortes candidatos a títulos no ano.

No El Nacional (o equivalente ao Apertura), os xeneizes caíram em um grupo relativamente fácil, e foi aí que a ficha começou a cair. Com NOB, Ferro Carril Oeste (de General Pico, não confundir com o tradicional) e Talleres completando o grupo, a equipe de Buenos Aires teve dificuldades em fazer os resultados que precisava, e acabou ficando na terceira posição, e eliminada precocemente.

Até aí, parecia apenas um ano atípico, embora já bem ruim.

No Metropolitano (equivalente ao Clausura), o Boca Juniors começou com uma incrível série negativa de sete jogos sem vencer, até trocar de treinador (o brasileiro Dino Sani assumiu) e bater o Union. Na décima quinta rodada o problema central estourou de vez. O clube já passava por problemas financeiros desde o começo do ano, com um ano conturbado de eleições, ninguém ainda tinha a exata noção do quão afundado o clube estava financeiramente.

Após a vitória frente o Vélez fora de casa, os jogadores cobraram o famoso “bicho” que a diretoria havia prometido. Como a gestão já vinha enfrentando problemas para pagar até mesmo os salários dos jogadores, o compromisso acordado não conseguiu ser honrado. Sendo assim, os atletas do time principal simplesmente se recusaram a entrar em campo contra o Atlanta. Embora a diretoria tenha se esforçado para mudar o posicionamento dos jogadores, a postura se manteve. Desta maneira, o Boca foi a campo contra o Atlanta com a equipe de juniores.

O Atlanta entrou no gramado com seu uniforme todo azul, sendo este o único disponível para o jogo. O fato obrigou a equipe da capital a trocar sua camisa, e como o kit reserva não estava a disposição, foi usada a camisa branca de treinamento do clube. O problema é que aquela vestimenta não possuía numeração, na pressa da realização da partida, foram improvisados números escritos a canetinha. Sim, a canetinha. Com o passar do primeiro tempo, as camisas “reservas” do Boca começaram a apagar o número escrito pouco tempo atrás, devido ao suor dos atletas. As fotos deste acontecimento são bizarras de uma maneira colossal.

Após o primeiro tempo, o juiz da partida autorizou o Boca a voltar com seu uniforme padrão, o time da casa perdeu por 2 a 1.

Os jogadores envolvidos no boicote foram punidos por má conduta disciplinar, a confusão foi tanta, que o clube argentino pediu o adiamento do jogo contra o Huracán, a AFA acatou e a partida foi marcada para 11 dias após o previsto, dando assim, tempo para que o clube administrasse sua crise interna.

Para piorar, o presidente Corigliano pediu uma licença de 60 dias ao conselho do clube, pedido esse que foi entendido praticamente como uma renúncia. O vice-presidente Orgambide também estava de licença. O cargo foi oferecido para Horacio Blanco, mas este recusou por problemas pessoais e indicou Cándido Jorge Vidales para a posição. Ele assume o posto em 18 de julho daquele ano.

Nesta época surgiu a campanha “1000 por 1000 para salva a Boca”. O projeto contava que 1000 torcedores do clube doariam a quantia mínima de mil dólares para ajudar a saúde financeira da equipe, a situação estava desesperadora. Posteriormente, foi imposto um tipo de “tarifa extraordinária” a todos os sócios do Bocas Juniors, que tiveram que pagar 2.000 pesos argentinos, cada um deles. Bizarro.

Calma, fica pior.

No dia 24 de agosto chega a notícia de que o La Bombonera poderia ser penhorado. Mateo Giri, presidente do Wanderes-URU entrou na justiça contra o clube xeneize após a equipe de Buenos Aires não pagar uma dívida referente a taxa de transferência do Krasouski, que perdurava desde 1981 (!). O Boca também sofreu outro processo, por uma inadimplência de -no total- 85 mil dólares, em razão de uma ordem de crédito integral. As notícias que circulavam por jornais de todos os continentes era a de que o clube poderia de fato, fechar as portas de vez.

O estádio acabou sendo interditado as 11 da manhã do dia 5 de setembro, e não foi por conta dos processos e risco de penhora, não. O La Bombonera passava por uma reforma projetada pelo engenheiro Juan Maria Cardone. Entretanto, as obras foram interrompidas e Juan deixou a empreitada. A estrutura do estádio estava levemente comprometida e segundo o diretor geral da polícia municipal da época, Edmundo Sammartino, havia possibilidade da construção ruir.

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O futebol perderia muito sem esse templo em atividade.

Dentro de campo, nada melhorava. Mesmo com a suspenção da punição disciplinar (imposta pelo presidente interino), os jogadores continuavam sem salários em dia e insatisfeitos com o clube. Os astros do plantel, Ruggeri e Gareca eram duramente criticados pela torcida e neste meio tempo, 16 jogadores do clube enviaram um telegrama para a diretoria declarando-se em “liberdade de ação”, amparados pelo artigo 15 do CFAA. Novamente, o Boca se via sem elenco para jogo, acabou atuando contra o NOB com os garotos da base mais uma vez, mais uma derrota. Em novembro, Corigliano renuncia oficialmente, caos.

E foi então que o governo de Raúl Alfonsín, em 29 de novembro de 1984, anuncia a intervenção no Boca Juniors. O interventor escolhido foi Federico Polak, que anuncia que “todos os jogadores restantes são transferíveis” e que lutará para que o La Bombonera fosse reaberto. A partir deste ponto, uma série de medidas administrativas e financeiras foram tomadas para que o clube voltasse a ser minimamente estável. Embora Ruggeri e Gareca tenham se recusado a ficar para o ano de 1985 (e fecharem com o maior rival, River Plate), o Boca via nesse ato, sua última chibatada do calvário que foi o ano de 84.

O ano foi tão macabro, que os vexames em campo ficaram em segundo plano em meio a catarse dos bastidores, mas isso não apaga as vergonhas que aquele time passou dentro do gramado. Foram quatro trocas de técnicos, goleadas sofridas para: Argentino Juniors (3×0 e 5×1), Union (3×0), River Plate (4×1) e Velez Sarsfield (3×0). Terminando o metropolitano na vergonhosa décima sexta posição (com direito a uma sequência de sete derrotas seguidas (!)) e de quebra, levando a maior goleada de toda a sua história, frente ao Barcelona. Convidado para o torneio Joan Gamper, o Boca foi surrado por um histórico 9×1 no Camp Nou.

Um ano para se esquecer.

Em 4 de janeiro de 85, Antonio Alegre (candidato fortemente apoiado nos bastidores por um grupo político do clube que era conhecido como “Los Notables”), assume a presidência, encerrando assim a intervenção do governo do clube xeneize e iniciando um novo ciclo frente a um dos maiores clubes do continente.

Nem sempre foram flores.

Postado por Renan Castro 23 anos, administrador, torcedor do Flamengo, natural de Nova Iguaçu - RJ, fã de aviação e dono de três quadros: Vestindo o Futebol, Ícones Alternativos e Memória FC.