Memória FC #32 – O DNA uruguaio em um clube paulista
5 de agosto de 2018
Categoria: 4-3-3 e Memória FC
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O Brasil possui uma relação de sensações intensas com o futebol do Uruguai: a famigerada garra charrua é por nós temida e admirada, o Maracanazo permanece como uma das maiores feridas não só de uma geração de fãs de futebol, mas de toda uma nação. Isso sem falar, é claro, no fato de que o pequeno país do extremo sul da América já foi território verde e amarelo durante parte de nossos anos imperiais, na época, com o nome de Cisplatina.

Mas há um clube no Brasil que desde seus princípios recorreu a raça e técnica dos orientales para alcançar suas glórias, que foi por diferentes gerações um lugar de aconchego para talentosos (alguns nem tanto) jogadores uruguaios: o São Paulo. Ou San Pablo, como costumam chamar por aquelas bandas do Rio da Prata.

O tricolor paulista é o clube fora do Uruguai que mais teve uruguaios em sua história: 17. E o estreante já estava logo no primeiro ano de vida do clube, em 1930, o meia Ermilio Armiñana, que só passou 1 ano no clube de Morumbi. A ele se seguiram nos anos 30 o atacante Apparicio Veja (1934-1935), o meia-direita Daniel Gutiérrez (1936) e o volante Graciano Acosta (1937-1938). Logo no ano de 1940 veio o primeiro técnico uruguaio do clube, Ramon Platero, que comandaria o clube só naquele ano. Junto com ele veio o zagueiro Herculano Romulo Squarza, e um ano depois o volante Ramón, ambos ficariam no clube até 1942. Somente 9 anos depois se veria outro uruguaio vestindo a camisa são-paulina: Eusébio Urruzmendi, que duraria pouco mais de uma semana no clube.

Mas os jogadores que marcariam para sempre os são-paulinos e fortaleceriam de vez os laços entre São Paulo e Uruguai só vieram 19 anos depois: em 1970, o Morumbi, após 13 anos de obras finalmente ficava pronto. Os cofres tricolores finalmente se aliviavam e fazer contratações de alto nível era possível e necessário para o clube sair de uma enorme fila de títulos.  Vieram então o lateral direito Pablo Forlán (pai de Diego Forlán) e o meia Pedro Rocha, ambos campeões nacionais, da Libertadores e do Mundial Interclubes (em cima do Real Madrid) com o Peñarol.

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Pedro Rocha e o Rei.

Forlán veio antes, em maio daquele ano, e teria prometido ao presidente Henri Aidar que traria o fim da fila. Cumpriu a promessa, sendo ao lado do canhotinha Gérson e do atacante Toninho Guerreiro, um dos destaques do São Paulo na conquista do Campeonato Paulista que deu fim aquela seca. O jogador permaneceria até 1975 no clube do Morumbi, quando já era reserva e pouco jogava. Ainda assim, teria seu nome gravado com letra de ouro no livro de honra do clube, e um jogo de despedida frente ao Flamengo pelo Campeonato Brasileiro. Anos depois, Pablo ainda comandaria as categorias de base do SPFC e seria o último treinador do profissional antes da era Telê no clube paulista.

Seu compatriota Pedro Rocha chegava com ainda mais cartaz em setembro daquele ano, já havia jogado 3 Copas do Mundo pela celeste, tendo inclusive chegado lesionado ao clube após uma contusão logo no jogo de abertura da última delas, em 70. Demorou bastante tempo até se adaptar, primeiro pela contusão logo no primeiro ano e depois por ter que dividir o protagonismo no São Paulo com Gérson, com quem seria campeão paulista em 71. No ano seguinte, sem o tricampeão, deslanchou de vez e alcançou a artilharia (dividida com Dadá Maravilha do Atlético) do campeonato brasileiro de 1972. Sendo até hoje o único estrangeiro a conseguir o feito no Brasileirão. Em 74 jogaria a Copa do Mundo como jogador são-paulino, e guiaria o clube à sua primeira final de Libertadores. Entretanto, o conjunto paulista não foi páreo a um Independiente já quatro vezes campeão da América e no meio de sua caminhada rumo ao tetra consecutivo.

Pedro sairia do São Paulo em 1978 rumo ao Coritiba, já tendo conquistado outro paulista (1975) e participado de uma pequena parte da campanha que culminaria no primeiro título brasileiro do Soberano. É o maior artilheiro estrangeiro do São Paulo com 119 gols e o terceiro com mais jogos, 393. Falecido em 2013, já foi citado por um tal de Pelé como um dos melhores jogadores que já viu jogar. Pouca moral, hein?

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Um dos maiores ídolos da história do tricolor paulista.

Com a iminente saída de Pedro Rocha, a diretoria do São Paulo foi às buscas de um substituto no mesmo país de onde trouxera o artilheiro, claro, o Uruguai. Mas ao invés do Peñarol, foi em busca de um jovem destaque do arquirrival dos carboneros, o Nacional, seu nome era Darío Pereyra. O jogador chegou conquistando o campeonato brasileiro de 77, jogado no início de 78 (coisas da CBF…), mas teria uma sequência difícil, não conseguindo se firmar no time titular como meia-esquerda e nem como volante devido a muitas lesões. Até que em 1980 o técnico Carlos Alberto Silva o recuou para a zaga, onde se firmaria de vez no time titular e no coração dos são-paulinos. Formando com Oscar a dupla de defesa que é considerada por muitos a melhor da história do clube tricolor. Além dos 4 títulos paulistas, conquistou em 86 o segundo título brasileiro do Majestoso, sendo o único remanescente do primeiro. 1986 também foi o ano que disputou sua única Copa do Mundo pelo Uruguai. Saiu do time dois anos depois, para o Flamengo, e teve uma passagem como técnico em 1997. É o segundo estrangeiro com mais jogos pelo tricolor, com 453 partidas.

Durante a era de Darío, o defensor Furtenbach passou um ano pelo São Paulo (1985-1986) sem grande destaque. O mesmo aconteceria com os que viriam a seguir, que não passariam de meses com a camisa dos paulistas: Carrasco (1990), o hoje técnico Aguirre também em 90 e Matosas (1993).

O uruguaio que honraria as passagens de seus compatriotas Forlán, Pedro e Darío só viria 10 anos depois de Matosas: Diego Lugano. Assim como Pedro e Darío, demorou um tempo até se firmar, muito por conta do treinador do São Paulo à época, Oswaldo de Oliveira, que não havia pedido a sua contratação (Lugano chegou ao clube com a pecha de “homem do presidente” pela sua contratação ter derivado da vontade do então presidente são-paulino, Marcelo Portugal Gouvêa). Mas com a saída de Oswaldo, passou a ganhar espaço e a se firmar no 11 titular, até chegar ao ápice no ano de 2005, sendo campeão paulista, da Libertadores e do Mundo com grandes atuações.

Se transferiu para o futebol turco em 2006, logo após a final da Libertadores perdida para o Internacional, e voltou 10 anos depois, em 2016. Onde em menos de 1 ano se aposentou como um dos maiores ídolos recentes da história do São Paulo – junto a Hernanes, Muricy Ramalho e, é claro, o mito Rogério Ceni – graças à sua garra, vontade e entrega dentro de campo.

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Com garra e entrega, Lugano conquistou a torcida rapidamente.

Depois da primeira passagem de Lugano, um companheiro seu de seleção passaria pelo SP: Álvaro Pereira, onde muitas vezes mostrou vontade exagerada e pouco futebol. Gonzalo Carneiro é o único uruguaio do plantel atual do hexacampeão brasileiro, mas não parece que chegará ao patamar de alguns de seus predecessores pelo clube.

De qualquer maneira, o uruguaio de maior renome atualmente no clube atua no banco: Diego Aguirre. Já tendo uma passagem apagada como jogador pelo tricolor paulista, o técnico (autor do gol espírita que decidiu a mais emocionante final da Libertadores na história) é quem a torcida mais espera que assim como seus compatriotas Pablo Forlán e Pedro Rocha, ajude o São Paulo a sair da fila e reencontrar o caminho das glórias.

Postado por Matheus Wesley Estudante de jornalismo, fã do futebol onde se parlla e onde se habla. Ama táticas e a história desse incrível esporte chamado futebol. Considera Zinedine Zidane a síntese do "jogo bonito" e acha os desarmes de Cannavaro, Baresi e Maldini tão bonitos quanto qualquer gol por aí. Twitter: @Matheus11Wesley