MEMÓRIA FC #30 – A triste história de Jean-Pierre Adams, o “atleta adormecido”
10 de abril de 2018
Categoria: Memória FC

 

Vai parecer o roteiro de um filme ganhador do Oscar, mas é um dos casos mais impressionantes de toda a história do esporte.

Nascido no ano de 1948 em Dakar, Senegal, Jean-Pierre Adams teve uma infância bastante complicada. Foi adotado por um casal francês e a partir da sua adolescência, passou a viver na França. Embora tenha sido um dos únicos negros nas escolas de classe média da época, Jean se destacava bastante em diversas modalidades esportivas, porém, nunca escondeu seu gosto por futebol.

Gostava tanto do esporte bretão que resolveu largar os estudos apenas para se dedicar na sua formação como jogador, com o objetivo de se tornar profissional, enquanto isso, trabalhava em uma fábrica na capital francesa. Por pouco seu sonho não terminou precocemente, após um terrível acidente automobilístico que tirou a vida do seu melhor amigo, mas que, por um milagre, deu a Adams apenas alguns cortes.

Jean só conseguiu se tornar profissional aos 22 anos, em 1970. Após impressionar nos campeonatos amadores e cumprir o serviço militar obrigatório, assinou com o Nimes, um pequeno clube que hoje disputa a segunda divisão nacional e, na época, já não tinha uma grande expressão no país. Adams, que costumava jogar mais a frente, foi recuado e se tornou zagueiro central, o famoso líbero.

O jogador teve anos espetaculares com o modesto elenco do Nimes, chamando a atenção de clubes maiores e até mesmo da seleção francesa. Em 1972, já fazia sua estreia com os Le Bleus, ali era o início de um estágio memorável na trajetória do zagueiro, a perfeita dupla que viria a fazer com outra lenda do país, Marius Tresor.

Jean chegou à seleção francesa.

Nesta altura, Jean-Pierre já era um dos ícones da comunidade negra francesa e com sua esposa Bernadette, formava um dos pouquíssimos casais “mistos” da época no país, o zagueiro era de fato, uma celebridade com uma moderada relevância na França.

Apenas um ano depois, como já era esperado – até mesmo com um pouco de atraso -, Adams ruma ao Nice (na época um dos clubes mais fortes do país), que após uma tentativa frustrada de contratar o nosso astro Jairzinho, investe no líbero do Nimes. Agora com seu novo clube, Jean chegou a eliminar o Barcelona na Copa da Uefa com um sonoro 3×0, caindo para o Colônia na fase seguinte da competição.

Apesar de estar sempre frequentando a parte de cima da tabela, o Nice não conseguiu vencer nenhum título de expressão enquanto Adams atuava por lá, mesmo que o zagueiro fosse impecável na sua função, clubes como o Saint Etienne ditavam o ritmo da Ligue 1. Em 1979 e após mais de 100 partidas pelo Nice, o jogador ruma para o emergente PSG, que -como hoje- ansiava por voos maiores.

Depois de dois anos atuando em Paris, sua carreira, já na descendente por conta das inúmeras lesões, parecia quase acabada após o zagueiro aceitar ir jogar no modesto Mullhouse, um clube de escalão inferior na época antes de se aposentar. É bem verdade que as inúmeras lesões no joelho e no calcanhar minaram a longevidade do exímio defensor, que com 34 anos, já se preparava para pendurar as chuteiras, pretendendo se tornar treinador. O agora ex zagueiro já realizava alguns cursos de formação para sua nova profissão.

E então…

Uma lesão no tendão de aquiles volta a incomodar Adams, que parte para o hospital de Lyon afim de resolver de uma vez o problema que assolava sua carreira e, por consequência, sua vida pessoal. Os médicos então resolvem que seria necessário uma intervenção cirúrgica, Jean prontamente se dispõe a fazer o procedimento o quanto antes.

No dia 17 de março de 1982 ele se deitava na maca para a cirurgia. Após uma aplicação mal calculada da anestesia e o início do procedimento sem as verificações necessárias, Adams sofre um grave problema bronco-respiratório e entra em coma.

O anestesista confundiu as doses (a droga que era utilizada já era considerada problemática em alguns casos) em meio a diversos pacientes que atendia, a cirurgia foi iniciada sem as garantias de segurança, conduzida por um estagiário. O médico e o anestesista foram multados alguns anos depois, entretanto, a condição de Jean se mantém inalterada desde então. Em 1988, o hospital declarou o caso como perdido e sua esposa, Bernadette, o levou para casa, onde o mantém até os dias de hoje, mesmo que o ex-jogador tenha passado as últimas décadas dormindo.

Embora tenha recebido ajuda de diversos clubes em que Jean passou e até mesmo de algumas federações, Bernadette vive em um estado financeiro complicado. Tresór (aquele da dupla marcante que citei lá em cima) visita o amigo com certa frequência. Ocasionalmente, são feitas algumas partidas beneficentes para angariar fundos em prol de ajudar com os mantimentos de Jean-Pierre. Bernadette chama sua casa de “A casa do bonito atleta adormecido”.

Jean-Pierre e Bernadette estão casados há 47 anos. Ele está em coma profundo há 36.

A eutanásia não é sequer cogitada pela esposa do ex-zagueiro. Mesmo que, segundo especialistas, Adams já esteja com seu cérebro seriamente danificado, sua amada mantém as esperanças de que um dia, seu marido possa abrir os olhos novamente. Eles possuem dois filhos e hoje, já são avôs.

Postado por Renan Castro 23 anos, administrador, torcedor do Flamengo, natural de Nova Iguaçu - RJ, fã de aviação e dono de três quadros: Vestindo o Futebol, Ícones Alternativos e Memória FC.