• MEMÓRIA FC #29: Béla Guttmann mudou o futebol brasileiro e amaldiçoou o Benfica
    13 de março de 2018
    Categoria: Memória FC

    O feiticeiro húngaro

    “Os técnicos são como um domador: domina os animais em sua jaula, onde faz seu show, desde que lide com sua energia hipnótica, e o primeiro sinal de medo surge em seus olhos, ele está perdido”, assim Béla Guttmann define o que um técnico de futebol tem de ser – e ele foi.

    Nascido na Áustria-Hungría, mais especificamente em Budapeste, no ano de 1899, Béla era de uma família de dançarinos. Isto fez com que ele se formasse como instrutor de dança clássica aos dezesseis anos. Mas o futebol era o que realmente o fascinava. Jogara como zagueiro durante dois anos pelo Törekvés, mas com quase vinte se transferiu ao MTK FC, um clube visto como representante de judeus em uma terra que o antissemitismo não era novidade para ninguém.

    Guttmann durante toda sua carreira foi uma pessoa de personalidade forte. No MTK, venceu o sexto das dez conquistas consecutiva do time no campeonato nacional que fora interrompida pela primeira Grande Guerra. Mas na temporada seguinte, com a volta de um ex-jogador da equipe, foi sacado do time titular e decidiu ir embora, temendo uma perseguição contra judeus no regime de Miklós Horthy.

    Chegou ao Hakoah Wien em 1922, o principal clube judeu em Viena, completando sua renda com uma academia de dança. Lá, o futebol se profissionalizou apenas em 1925. O jogador venceu o campeonato inaugural da Áustria, antes de sair do clube. Em uma viagem nos EUA, o Hakoah venceu onze dos treze jogos, chamando a atenção dos americanos. Logo, os clubes americanos, que eram muito mais prósperos, convenceram metade do time austríaco para atuar nos times de Nova Iorque.

    “Eu fiz buracos nos olhos de Abraham Lincoln na minha última nota de cinco dólares. Achei que assim ela não encontraria o caminho da porta de saída”, disse Béla Guttmann, após o Crash da Bolsa de Valores em 1929, que o levou a sua loja de bebidas à ruina.

    Depois de ganhar a US Cup em 1929, o húngaro voltou ao Hakoah em 1932. Permaneceu por dois anos no clube, tornando-se treinador. Convidado pelo famoso treinador húngaro Hugo Meisl a treinar o Enschede (Atual FC Twente).

    Na Holanda, mostrou-se novamente possuidor de uma personalidade forte. Ao pegar o time na briga contra o rebaixamento, pediu à diretoria que, caso vencesse o campeonato, gostaria de receber um bônus enorme. Houve um acordo, já que achavam algo praticamente impossível. Porém, Béla surpreendeu, levando o time à briga pelo título. Para felicidade de um executivo do clube, o time não foi campeão, haja vista que o bônus quebraria o Enschede.

    Depois de dois anos na Holanda, Guttmann decidi ir embora. Ele raramente durava tanto tempo. “A terceira temporada é fatal”, dizia o treinador, já que acreditava que a desmotivação depois de três temporadas por parte dos seus jogadores o levaria ao medo citado na frase do início do texto.

    Depois disso, Béla Guttmann ficou fora do futebol. Em sua biografia, Guttmann pula os anos em que fugiu das perseguições da Segunda Guerra Mundial, dizendo que “[…] incontáveis livros foram escritos sobre os anos de luta entre a vida e a morte. Portanto, seria supérfluo incomodar os leitores com esses detalhes”.

    Com o fim da guerra em 1945, ele voltou à Hungria. Depois de trabalhar no Vasas, foi para a Romênia. Quando o diretor do time romeno tentou interferir nas escolhas de jogadores, Béla decidiu ir embora dizendo “O.k, você dirige o clube então, já que parece ter conhecimento básico”.

    Béla Guttmann substituiu o pai de Púskas na temporada seguinte. Comandando um dos maiores jogadores da história do futebol, o treinador sabia que o atacante húngaro também tinha uma personalidade forte. Problemas seriam inevitáveis. E aconteceu quando Guttmann tirou um zagueiro de campo – na época, não era possível a troca de jogadores durante o jogo. O defensor não obedecia às regras, e não jogava do “jeito certo”. Puskas não gostou – Béla passou os 45 minutos depois da saída do zagueiro na arquibancada lendo um jornal -, pois o time ficou com a menos no segundo tempo, terminando o jogo com uma derrota por 4 a 0. O treinador nunca mais voltou.

    Depois disso, Guttmann rodou por diversas equipes. Vicenza e Milan, da Itália, Apoel, do Chipre, e Boca Juniors, da Argentina, foram alguns dos clubes em que o treinador passou. Após sair do Milan mesmo sendo líder da competição, colocou uma clausula em seus contratos: não poderia ser demitido com o time na liderança.

    Durante uma turnê comandando o seu ex-time da Hungria reconciliado com Puskas, o treinador acaba se transferindo ao São Paulo. Aqui, ganhou o Campeonato paulista de 1957. Além disso, Guttmann teve um raro momento: ele libera um jogador de suas regras e táticas. O jogador em questão era o Canhoteiro, um jogador comparado a Garrincha. Mas o fato é que Guttmann foi o último húngaro a chegar e mudar o futebol brasileiro.

    Béla ao lado de Bauer e outros jogadores do São Paulo

    Sai do Brasil um ano depois, indo para Portugal. Lá, venceu a liga com o Porto antes de ir para o Benfica. No time de Lisboa, teve o seu maior sucesso. Em 1961, venceu a competição europeia equivalente à atual Liga dos Campeões contra um Barcelona de Evaristo de Macedo.

    Na semana seguinte da final, Guttmann coloca em campo Eusébio, o Pantera Negra, pela primeira vez. O jogador jogava no Moçambique quando Carlos Bauer, ex-comandado do húngaro no time brasileiro, o viu. O Sporting já tinha um contato com o jogador. Mas Béla conseguiu o convencer e levou o jovem que se tornaria um dos maiores atacantes da história do futebol.

    Eusébio e Guttmann foram as estrelas dos melhores anos do Benfica

    No Torneio de Paris – equivalente ao Mundial de Clubes – daquele ano, o Benfica perdia por 3 a 0 para o Santos, que marcou dois. No intervalo, Béla coloca Eusébio na partida. O Pantera Negra foi fenomenal contra Pelé, que marcou duas vezes. Marcou três dos seis gols do time. O jogo acabou 6 a 3 para o Benfica.

    O húngaro não se contentou com apenas um titulo continental na carreira. Na temporada seguinte, venceu novamente o torneio europeu, mas agora enfrentando o Real Madrid de Di Estéfano e Púskas. Resultado: 6 a 3. Púskas marcou três no primeiro tempo, mas a estrela foi Eusébio, que jogou muito bem, marcando duas vezes.

    Ao pedir uma quantia em dinheiro como forma de bônus e acabar não recebendo, Béla Guttmann acaba optando por sair do clube depois de um tempo.

    Guttmann voltou para a América do Sul, ao Peñarol. Lá, levou o time à final da Libertadores, mas saiu antes da decisão para comandar a seleção austríaca. Portanto, ele pode ser considerado o único técnico a vencer as duas maiores competições continentais.

    Depois de comandar a seleção, Béla Guttmann passou pelo Servette, da Suíça, Panathinaikos, da Grécia, Porto e Benfica novamente. No último, a passagem pelo ex-clube não foi como antes. Na verdade, nem Guttmann nem o time português foi o mesmo do inicio da década de 1960. Algumas pessoas acreditam que ele tenha lançado uma maldição ao Benfica. Disse que nem em cem anos, se não pagassem o que Béla gostaria, o time conquistaria um torneio europeu. O Benfica colocou uma estátua no estádio como forma de “quebrar” a “maldição”. Apesar de ser meio absurdo, vale ressaltar que o time perdeu cinco finais de torneios europeus de lá para cá.

    Como viveu na mesma época do célebre Gustav Sebes, muitos consideram que ambos fazem parte da geração de ouro de treinadores da Hungria, apesar de serem muito diferentes. Guttmann foi o terceiro a chegar no país – Medgyessy e Kürschner já haviam feito história anteriormente. Ele trouxe ao Brasil a mentalidade tática que Vicente Feola usou para vencer a Copa de 58, o 4-2-4.

    Béla Guttmann morreu em 1983. Sua vida no futebol foi de sucesso. Os brasileiros agradecem pelo o que fez pelo esporte no Brasil. Além de ter sido importantíssimo no nosso país, foi também o último treinador a fazer da Europa Central um exemplo de futebol bem jogado – ou, como ele diria, jogado do “jeito certo”.

    Postado por Rafael Brayan Torcedor do Corinthians e adepto do jogo inglês, sou apaixonado pelo futebol bem jogado. A única coisa que pode ser comparado a assistir um bom jogo é uma conversa sobre este esporte com bola.