MEMORIA FC #02 – Triunfo em campo inimigo
18 de abril de 2015
Categoria: 4-3-3 e Memória FC

 

O ano é 1938, mais precisamente manhã do dia 12 de março de 1938, para quem não sabe foi o dia em que Adolf Hitler deu início ao seu plano e a Alemanha nazista anexou o território pertencente a Áustria ao seu império.  Em abril do mesmo ano o governo inventa uma pesquisa popular onde 97% da população (muito pressionada) aceita a união entre os dois países. O evento ficou conhecido como Anschluss, era o começo da segunda guerra mundial.

Assim como seu território, os clubes da Áustria também foram anexados aos campeonatos da Alemanha nazista, o campeonato Austríaco acabou extinto e os times foram inclusos nas ligas alemãs vigentes na época. Porém, tanto em torneios de pontos corridos como em torneios por eliminação, os clubes da Áustria precisavam jogar entre si, era uma forma de “peneirar” os times para que só passassem para a fase posterior os melhores e aí sim, enfrentar os clubes do país controlado por Hitler.

Na copa da Alemanha de 1938 (atual DBF Pokal, na época chamada de Tschammer Pokal)  já perceberam que não seria fácil vencer os austríacos como pensavam. O Rapid Viena que é o maior clube da capital da Áustria até hoje acabou chegando na final do torneio após bater o Nuremberg nas semifinais por 2×0. O jogo era contra o FSV Frankfurt no lendário estádio olímpico de Berlim. Com um público de 40 mil pessoas, o Frankfurt acabou abrindo o placar e tentando segurar a vitória magra, porém não foi páreo para o Rapid Viena, que virou o jogo nos últimos minutos, calando o estádio e os adeptos do oponente. Era o primeiro título austríaco em solo alemão.

O Rapid estava em seus anos de ouro e já tinha 11 títulos nacionais desde quando o campeonato começou a ser disputado na Áustria em 1911/12, inclusive, era o time que liderava antes da invasão alemã em solo austríaco, para o azar dos alemães, o pior ainda estava por vir.

O prenúncio veio já na temporada seguinte. Outro clube austríaco, dessa vez o Admira Viena chegou na final da Viktoria Cup que era o principal campeonato nacional disputado na época, porém foi goleado de forma totalmente arrasadora pelo Schalke 04, o jogo terminou 9×0 (sim, nove a zero) pro time alemão. Na temporada seguinte, o Schalke 04 confirmou o bi campeonato e se consolidou como a principal força alemã no final de década de 30 e no início da década de 40.

Entretanto na temporada de 1940/41 tudo mudaria. Após passar facilmente na fase regional, o Rapid Viena começou o campeonato nacional no grupo 4 e massacrou seus adversários com direito a duas goleadas fantásticas no Neckarau por 7×0 e 8×1. No meio dessa boa fase um jogador se destacava entre os aplausos, seu nome era Franz Binder, que já havia anotado nada mais nada menos que 27 gols na fase regional e vinha sendo um dos pilares do time austríaco, mostrando-se um artilheiro nato e oportunista, hoje em dia é um dos maiores, senão o maior ídolo da história do Rapid.

A campanha no grupo 4 foi mais que suficiente para fazer com que o Viena progredisse no campeonato, na semifinal enfrentou o forte time do Dresden que viria a ser bicampeão alemão ainda naquela década, venceu por 2×1 e se classificou para a final da Viktoria cup, contra, adivinhem, o Schalke 04.

Enfim no dia 22 de junho de 1941 Berlim ficou pequena para assistir o grande confronto esperado por todos a muito tempo. Era o time da situação, a menina dos olhos do nazismo, os azul reais da Alemanha, contra um dos melhores esquadrões que um clube austríaco já montou na história, o time de Franz Binder. Era a hora de Rapid Viena x Schalke 04 pra 95 mil pessoas no estádio olímpico de Berlim. Curiosamente no mesmo dia, o exercito nazista invadia a União Soviética de Josep Stalin, e começava a manobra que daria fim a todo o plano nazista para o mundo, pois seriam derrotados pelas baixas temperaturas soviéticas dentre outros pormenores.

A partida começou com o Schalke a mil por hora, fizeram 1×0 com Heinz Hinz aos 5 minutos e aos 8 Hermann Eppenhoff ampliava, o hexa dos alemães ficava cada vez mais perto (Já havia sido campeão em 34,35,37,39,40). Tudo dava errado para o Rapid, que já havia perdido um pênalti. Começou o segundo tempo e logo aos 13 minutos Heinz Hinz marcou o segundo dele e o terceiro do Schalke no jogo, praticamente fechando o caixão. A reação era praticamente impossível e o estádio já estava em festa. Porém, no minuto 17 Georg Schors descontou para o time de Viena e um minuto após, brilhou a estrela de Franz Binder que marcou o segundo gol do time austríaco e botou fogo no jogo.

Aos 20 minutos, outro pênalti pro Rapid Viena, Binder não desperdiçou desta vez, era o empate austríaco e uma onda de desconfiança pairava sobre o estádio, nem o torcedor azul real mais pessimista do mundo poderia imaginar o que estava por vir…

Faltando menos de 15 minutos para o fim, acontece o impossível, mais uma vez Franz Binder balançando as redes alemães, se consagrando com o hat trick mais importante da história do clube. Era a virada, 4 para os visitantes, 3 para o nazismo. Era a história sendo escrita.

Esta seria a única vez que um clube não-alemão seria campeão do principal torneio do país. Era a Áustria derrubando o nazismo dentro das quatro linhas, uma vitória comemorada até hoje pela torcida. O First Viena chegou a ganhar uma Tschamer Pokal em 1943 e chegou a ser vice campeão da Viktoria cup em  41-42, perdendo justamente para o Schalke. Após o termino da segunda guerra mundial os países recuperaram sua soberania e as coisas voltaram ao normal na composição dos torneios.

Elenco que fez história pelo clube austríaco

Os torcedores do Rapid Viena ainda comemoram este curioso título, saúdam o “rapidgeist”, espírito rapid, que realizou o impossível em 1941. Não importa qual seja a partida, quando a marca de 15 minutos para o fim do jogo aparece no relógio, todos os torcedores se levantam e começam a aplaudir o time, em alusão ao esquadrão que por um ano, foi o maior clube de futebol da Alemanha nazista.

Postado por Renan Castro 23 anos, administrador, torcedor do Flamengo, natural de Nova Iguaçu - RJ, fã de aviação e dono de três quadros: Vestindo o Futebol, Ícones Alternativos e Memória FC.