• Madre mía, que golazo!
    17 de junho de 2017
    Categoria: Futebol e Internacional

     

    Qualquer um que assista La Liga hoje sabe sem dificuldade que Real Madrid e Barcelona já começam o campeonato mais garantidos na Champions do que a Rússia na Copa do Mundo de 2018. Por mais que o Atleti bravamente se enfie no meio da briga pelo título (e até consiga, como em 2014), é tão improvável que um dos dois gigantes fique fora do top 4 que, afora a briga pelo título, o que se vê é uma briga de “quem vai ficar com a quarta vaga”? De fato, a última vez que um dos dois ficou abaixo da terceira posição foi o Real dos Galáticos, que após ganhar o título de inverno na temporada 2003-2004, despencou ladeira abaixo, perdendo o título para o Valencia. Um ano antes, o Barcelona tinha feito ainda pior, ficando em sexto e não participando da Champions League que viria a ser faturada pelo Porto de seu futuro inimigo Mourinho.

    No entanto, se hoje essa cena causa estranheza, na virada do século era relativamente comum ver um dos dois (raramente ambos) maiores clubes da Espanha em apuros para carimbar sua passagem para o torneio continental. La Liga tinha menos diferença em investimentos e times fortes como Valencia e o Deportivo de Irureta eram ameaças reais, o Villarreal chegado da segunda divisão já começava a mostrar suas garras e até times que hoje se contentam com um lugar na elite – como Celta, Alavés, Betis, Mallorca, Real Sociedad, Real Zaragoza – viviam suas melhores épocas, fazendo campanhas de topo da tabela.

    O Real Madrid acusou o golpe primeiro. Em 99-2000 e 97-98 fez temporadas irregulares no campeonato nacional e teria ficado de fora das Champions Leagues subsequentes caso não tivessem vencido-as em ambos os anos. Mesmo as vitórias continentais não foram suficientes para esconder os erros gerenciais e problemas financeiros do então presidente Lorenzo Sanz e Florentino Pérez assumiu o clube, prometendo trazer o craque Luís Figo do rival Barcelona. E, com efeito (e muito dinheiro) Pérez cumpriu sua promessa. Fez uma troca que qualquer dirigente madrilenho sonha em repetir: um craque para seu lado, uma crise pesada para o lado do rival. Era o início de uma época das trevas no Camp Nou.

    A saída do português foi muito sentido em Barcelona.

    Os 36 meses decorridos entre a saída de Figo (em Julho de 2000) e a chegada de um certo bruxo brasileiro em Julho de 2003 foram miseráveis para o Barcelona. O dinheiro ganho com o português foi mal gasto, o time era mal treinado e mal pensado, não ganhou absolutamente nenhum título e não ultrapassou um quarto lugar no campeonato Espanhol. Com efeito, o presidente Joan Gaspart acabou se demitindo antes do fim do mandato devido aos resultados paupérrimos. Na época, o time era uma colcha de retalhos. Entre jogadores de nível mais baixo que nunca deveriam ter sido contratados (Dutruel, Bonano, Christanval, Gerard López, Dani García, Francesco Coco, Fábio Rochemback, Geovanni, Oleguer, Fernando Navarro), jovens promessas que só viriam a dar certo mais tarde (Valdés, Puyol, Xavi, Thiago Motta e até Iniesta), jogadores talentosos mas que acabaram sendo flops (Overmars, Simão Sabrosa, Petit, Zenden, Mendieta, Riquelme, Saviola, Sorín, Pepe Reina e o finado Robert Enke)  ou veteranos que já haviam passado do melhor momento (Reiziger, Frank de Boer, Abelardo, Sergi, Cocu, de la Peña, Patrik Andersson e os futuro treinadores Pep Guardiola e Luis Enrique), apenas uma luz brilhou por lá durante aqueles anos: o brasileiro Rivaldo, personagem da história de hoje. Ou melhor, de 16 anos atrás.

    17 de Junho de 2001. Jogo final da temporada 2000-2001. O Real Madrid era campeoníssimo há algumas rodadas, o SuperDepor de Irureta já havia se consolidado em segundo, e Luis Aragonés tinha montado um excelente Mallorca que conquistou a terceira posição. Após a primeira temporada das trevas do Barcelona pós-Figo, restava ao clube tentar salvar um mínimo de dignidade conquistando a quarta colocação e a vaga para a Champions League. Parecia fácil (e era), até o time perder para o rebaixado Oviedo em casa e depois empatar com o Valladolid fora. O Valencia tomou a quarta posição dos catalães e viria ao Camp Nou para defendê-la na 38ª rodada. O time de Cúper – um timaço contendo muitos dos que viriam a ser campeões em 2004, como Aimar, Baraja, Ayala, Cañizares, os eternos Angulo e Albelda, Fábio Aurélio, Pellegrino, Vicente – estava três pontos na frente, e no confronto direto, 1×0 para os valencianos no Mestalla. Com um saldo de gols superior, bastava ao Barcelona superar o rival em casa para ir à Champions League – mas como confiar em um time que não ganha nem do Oviedo? Só rezando muito – para Sant Jordi e para Sant Rivaldo.

    O pernambucano não decepciona. Com 3 minutos de jogo, Simão Sabrosa intercepta um passe porco na direção do argentino Pellegrino e acaba derrubado pelo defensor. Rivaldo não perdoa: um chute perfeito, por cima da barreira e que acaba no canto inferior de Cañizares. Começo melhor, impossível. O Barça abria 1 a 0 e controlava o jogo, muito pela influência do craque brasileiro, que colocava os pontas Simão e principalmente Overmars para correr, ameaçando constantemente a meta de Cañizares. Parecia que o segundo gol sairia logo, pois o Valencia não ameaçava.

    Ledo engano. Uma sucessão de escanteios deu a Aimar a chance de cruzar três vezes na área em sequência. A soma de uma zaga vulnerável ao jogo aéreo e o excelente cabeceador Rubén Baraja, multiplicado por três, foi mais do que a conta do Barça tolerava. Na terceira, ele escapou da marcação e cabeceou forte, sozinho para empatar a partida. De volta à estaca zero. Mais trabalho para Rivaldo. E ele correspondeu. Nos acréscimos do primeiro tempo, recebeu de Sergi pela meia-direita, cortou Kily González, escapou de Pellegrino e soltou um daqueles chutes típicos de Rivaldo: literalmente largou a perna esquerda na pobre bola, caindo desengonçadamente no chão. O projétil, no entanto, fez uma curva antigravitacional (talvez para se opor à queda do craque) e entrou no canto do goleiro Cañizares de novo. Um golaço, totalmente contrário às leis da física. O Barcelona ia para o vestiário classificado para a Champions League.

    O brasileiro estava endiabrado.

    Voltaria com Xavi no lugar do ponta direita Simão Sabrosa para ajudar a “gastar” a posse de bola. Não deu bem certo. Com dois minutos, Fábio Aurélio, sem a responsabilidade de marcar o extremo, foi à frente e achou, no meio da área barcelonista, ninguém menos que Baraja, que empatou o jogo com outro cabeceio em velocidade.  O Barcelona tinha 43 minutos mais os acréscimos para tentar achar um gol salvador e acabar com o jogo. Mais uma vez, mais fácil falar que fazer.

    Apesar de ter Pep Guardiola e Xavi Hernández em campo, o Barcelona parecia estéril de ideias. Como nos piores dias de tiki-taka, rodava a bola numa zona morta do gramado e tentava chegar através de bolas enfiadas (que a defesa do Valencia se encarregava de que nunca chegassem ao desaparecido Kluivert) e cruzamentos que muitas vezes eram ruins demais para preocupar Cañizares (particularmente do péssimo Gabri). Pep foi substituído pelo box-to-box francês Petit, por algum motivo que pareceu pertinente ao (também péssimo) técnico Rechax, e – não surpreendentemente – nada aconteceu. O Valencia chapou suas linhas dentro de sua área e impediu trocas de passes minimamente produtivas no terço final do campo. Se não tivesse um ataque tão cadenciado – Carew, Kily González, Aimar – poderia ter punido bem mais a ineficiência azul-grená.

    Rechax se irritou com a movimentação insuficiente de Kluivert e o trocou pelo ponta Zenden, esperando que a velocidade do holandês pudesse aliviar a pressão em Rivaldo (ou isso ou não queria colocar Dani García, o que era compreensível). Mas nada parecia funcionar. O Barcelona trocava passes inúteis enquanto o Valencia acampava em sua intermediária. Até que, aos 44 do segundo tempo, a mágica aconteceu. Quando o bom lançador e Frank de Boer avançou com a bola desde a defesa pelo círculo central e depois pela intermediária, sem oposição dos 11 valencianos atrás da linha da bola. De Boer levantou para Rivaldo que, de costas para o gol, teria Baraja, Pellegrino e mais Ayala em sua marcação quando conseguisse matar e virar para frente para chutar em gol. O que ele fez, então? Ele fez isso:

    Um daqueles momentos sublimes que fazem o futebol valer a pena. Rivaldo mata a bola com carinho no peito – aquele carinho de amigo, de quem empatiza com a situação da pobre coitada, distribuída com grosseria e falta de cuidado por seus próprios companheiros durante os 88 minutos anteriores. Ela agradece e fica suspensa, a pedido do craque. “Me espera aqui que já te deixo em casa” diz ele. “OK” diz ela. E enquanto a bola espera no ar, Rivaldo flutua pela física de novo. Uma acrobática bicicleta, que os marcadores e o goleiro não esperavam, e o pé direito de Rivaldo cumpre a promessa – manda a amiga bola dormir quentinha no canto inferior esquerdo do arqueiro Cañizares.

    Barcelona 3 a 2. Barcelona na Champions League. O Valencia, exausto e quebrado, se rendia ao gênio brasileiro. O único que não se rendeu foi Van Gaal, que voltou ao clube em 2002 e imediatamente despachou Rivaldo para o Milan. A história diria quem foi o lado certo. Apesar de não ter jogado a final, o craque conquistou sua única Champions League naquele ano, vestindo preto e vermelho.  Já o técnico fez parte da pior campanha barcelonista deste século, ficando em sexto, fora da Champions League do ano seguinte e sendo demitido em Fevereiro, logo após a queda de Gaspart. Nas palavras de Armando Nogueira, “Deus castiga quem o craque fustiga”.

    O craque Rivaldo nunca mais seria o mesmo do Barcelona. Mas o Barcelona também nunca mais seria o mesmo após Rivaldo…

    Postado por Victor Martins Santista, farmacêutico, trintão. Gosta de futebol bem jogado e de debates filosóficos. Tem aversão a clichês e boçalidade.