Macunaíma, a bola e um penteado
4 de março de 2019
Categoria: 4-3-3

 

“No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói da nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite”. É com essa frase que Mário de Andrade inicia a história de “Macunaíma, um herói sem nenhum caráter”, 1928. Ao longo de menos de duas centenas de páginas, Andrade narra a história de um índio e suas mudanças substanciais. A obra, modernista, com visões folclóricas e escrita saborosamente brasileira, constrói a figura de um indivíduo controverso e, ao mesmo tempo, marcante.

Nas páginas — e mesas de bar de discussões — futebolísticas, no entanto, as descrições sobre uma figura nacional também controversa transfiguram o estilo literário e tornam-se referências muitas vezes chulas. A discussão central não é sobre um índio; a figura em questão costuma ser Neymar, bem pouco popular em frases modernistas e com penteados bem mais ousados que os de Macunaíma.

Para alguns mais apaixonados pelos modos mais tradicionais de jogador, “esse moleque nunca enganou ninguém”. “Olha só esse cabelo! Por que ele ainda pinta isso aí?”. Talvez o torcedor brasileiro desejasse ter com a camisa número 10 de sua seleção um herói mais puritano, ou então alguém que não fizesse posts no Instagram com vestimentas tão chamativas. Talvez o desejo seja por um herói menos espevitado, alguém que seja menos festeiro e que eles enxerguem digno de vestir a camisa que imortalizou Pelé. Como essa vontade não se concretizou, o mocinho virou vilão, no melhor estilo malandro e com brasilidades tão arraigadas em Macunaíma. Para alguns mais maniqueístas, a bola jogada já não importa tanto mais, Neymar já é um herói sem nenhum caráter.

Quando as discussões abordam os dilemas futebolístico-literários deste anti-herói dentro de campo, são poucos os que realmente analisam o desempenho e as funções de Neymar entre as quatro linhas. Para alguns, pouco importa que o brasileiro esteja evoluindo no entendimento do jogo, sendo testado por Thomas Tuchel um pouco mais ao centro, como construtor de jogadas — o que vem fazendo bem. Nesta temporada, até se machucar em partida pela Copa da França, Neymar já havia marcado treze vezes e assegurado uma média de um tento por jogo. Na Liga dos Campeões, projeto-mor do Paris Saint-Germain, o camisa número 10 entrou em campo seis vezes e marcou cinco gols. Além disso, é um dos maiores dribladores da Europa e uma das referências quando o assunto é futebol bem jogado.

Porém, como toda figura grandiosa e romantizada, em páginas de um livro ou mesas redondas — que muitas vezes são quadradas — aos domingos, Neymar é uma figura complexa. Ao mesmo tempo em que destila talento e encanta o público com gols mirabolantes, é capaz de ofuscar suas capacidades pelos excessos que comete na cancha. Muitas vezes prende a bola quando deve soltá-la aos companheiros, outras vezes recebe cartões demais para um atacante de seu quilate e importância. Além disso, como acréscimo para deixar tudo um pouco mais ríspido, é tratado de maneira questionável por quem está ao seu redor.

Bom seria, no entanto, se as merecidas críticas fizessem parte de um discurso construtivo, de quem lamenta o desperdício de tempo de Neymar com barreiras tão facilmente ultrapassáveis por alguém de seu talento. Mas é diferente, “esse ‘Neymídia’ não é nem o melhor brasileiro em atividade, fraco demais”, exageram os menos afeiçoados à racionalidade. A comparação com figuras do panteão do esporte nacional também é implacável. Alguns afirmam categoricamente que Neymar nunca será um Ronaldinho Gaúcho, Romário ou Ronaldo. Outros, mais desesperados, vociferam aos quatro cantos que até Edmundo, Renato Gaúcho e Bebeto jogaram muito mais bola que o anti-herói parisiense.

Para os analistas de bons modos, Neymar não é “bom exemplo” de jogador de futebol. É visto como festeiro, muito brincalhão e descompromissado — mesmo sem faltar em treinos ou se omitir em jogos importantes. O que faz as afirmações serem tão cômicas é o fato de que Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo Fenômeno, Romário e Adriano Imperador nunca terem sido exemplos de puritanismo como cobram de Neymar. Ainda assim, são exaltados — não apenas merecidamente pelas grandes atuações — também pelas festanças que sediaram e pelas frases atravessadas que sempre deram. A razão para isso, pelo que pode-se pobremente estimar, é uma “hipocrisia à brasileira”, tão comum em tantos segmentos de nosso cotidiano brasilesco.

Talvez Neymar nunca seja eleito o melhor jogador do mundo, condecorado pela Fifa e pela France Football. Há grandes chances de nem mesmo conseguir vencer uma Copa do Mundo com a Seleção Brasileira, como fez Fontana, Kleberson ou Vampeta. Talvez Neymar nem consiga liderar o PSG em sua busca obstinada pela Orelhuda europeia. Nada disso, no entanto, faz dele um fracassado, indigno de vestir a camisa número 10 do time canarinho e jogar o que sabe.

Porém, Neymar não será o herói idealizado que muitos sonharam. Ele não mudará seu jeito de ser e de jogar. Continuará dando lambreta quando muitas pessoas julgam o movimento infrutífero no jogo, irá exagerar nas quedas em alguns lances e nem sempre será o líder que tantos cobram. E nada disso necessariamente faz de Neymar um Macunaíma, na descrição de Andrade, um “sem caráter”. O dez brasileiro é um ser humano complexo, com erros, acertos, encantado com as conquistas e tantas vezes imaturo com as derrotas. A mágoa com Neymar também é pelo futebol jogado, claro, mas aumenta exponencialmente por alguns esperarem do brasileiro algo que ele não é. Neymar é como todos o conhecem, não é possível descrevê-lo em poucas palavras ou recorrer aos reducionismos tão atraentes. Ele é como nós, brasileiros e imperfeitos, longe de ser um herói idealizado. Resta a nós aproveitar seus encantamentos enquanto ainda é possível.

“Não devemos servir de exemplo a ninguém. Mas podemos servir de lição”, diria Mário de Andrade ao descrever Neymar.  

Postado por Rudiney Freitas Estudante de Jornalismo apaixonado por esportes, em especial pela mais imperfeita perfeição criada pelo homem, o futebol. Procura entendê-lo também como fenômeno social e nega até a morte que tudo “é só um jogo”. Twitter: @rud1ney