Longe dos Holofotes #28 – Oslã Araujo
9 de fevereiro de 2019

 

Os cadernos ficavam de lado na maioria do dia. Mesmo com as obrigações na escola, a paixão de Oslã era outra: a bola. Enquanto a mãe insistia para colocá-lo no “caminho certo”, deixando de lado o sonho de ser jogador de futebol, o garoto não desistia de tentar. Em 2005, foi ao Duque de Caxias, clube da sua cidade, tentar um passo inicial. Mostrando intimidade com a melhor amiga, fez com que o “sim” dos avaliadores da peneira ganhasse a queda de braço com o “não” da matriarca.

“No segundo treino eu já fiquei na equipe. Minha mãe sempre quis outra coisa para mim, mas me apoiou da melhor forma possível. Nunca tive pai presente, então era ela quem me ajudava a correr atrás desse sonho”, relembra o jogador.

Apesar do apoio no futebol, a mãe não desistiu dos estudos do filho. Para garantir que Oslã seguisse trabalhando por seu futuro acadêmico, veio uma proibição dolorida para o garoto. “Em 2007, um dos meus melhores momentos, ela não deixou mais eu jogar bola. Isso me atrapalhou um pouco”, resume.

Deixando para trás todas essas divergências com a mãe, que passou a apoiá-lo na carreira de jogador, o atleta começou a se aventurar pelo mundo da bola. No Brasil, conheceu três estados bem diferentes em um pequeno intervalo – depois do Duque de Caxias, passou pela base do Cruzeiro, em Minas, e do São Francisco, na Bahia.

“Quando a gente é novo, quer viver algo diferente. Tudo que é diferente, é bom. Então foi tranquilo. Quando eu fui para Bahia, foi muito legal, cultura, sotaque, povo diferente. Em Minas também. Me adaptei bem. Sempre viajei sozinho, nunca tive problema com isso”, valoriza.

Mesmo conhecendo tanta coisa, Oslã seguia correndo atrás de sua mais sonhada sensação: a de estrear profissionalmente. Como as coisas não aconteceram no Brasil, o garoto conseguiu um teste no Chievo Verona, da Itália, por meio de uma amiga da sua mãe – que já o apoiava por completo. Ao contrário do que viveu em território tupiniquim sofreu para se adaptar fora e dentro de campo. Com uma série de problemas, seguiu sem estrear oficialmente.

“Fui para jogar nos juniores, mas não pude porque minha idade já era de profissional. Me juntei ao grupo principal, mas acabei não ficando porque não consegui dar para eles o que eles queriam. Fui para o Virttus Verona, da terceira divisão. Fiz alguns amistosos e tive uma complicação sobre documentos. Para ter a papelada necessária, teria que voltar ao Brasil, e eles não arcavam com as despesas. Era um dinheiro que eu não tinha. Então, acabei indo para o Sub-21 do Parma”, conta.

Com a camisa do tradicional clube italiano, fez amistosos contra os grandes do país. O bom desempenho frente equipes como Juventus, Napoli e Milan atraiu o interesse do Drammen FK, da Noruega. A mudança mais uma vez foi dura e a adaptação voltou a ser obstáculo para o garoto.

“Chegando lá, mais frio ainda, língua, totalmente diferente. Aí que foi difícil. Não conseguia fazer nada, tudo travado. Também não consegui dar o que eles queriam e eles não quiseram ficar comigo. Voltei com uma mão na frente e outra atrás para o Brasil”.

Oslã tentou a sorte na Itália e na Noruega antes de dar uma pausa na carreira.

O adeus à Europa foi um baque muito grande para Oslã. Aos 20 anos, desistiu da carreira no esporte, abriu uma empresa e passou a tocar a vida com outros objetivos. O panorama mudou em 2018. A convite de um amigo, que virou empresário e buscava o primeiro cliente, o meia voltou ao Duque de Caxias para se recondicionar antes de agarrar uma chance no modesto Livração, de Portugal.

“Na última semana fiz meu primeiro jogo como profissional, depois de tanto tempo. Estou bem feliz, animado, porque aqui tem estrutura e em Portugal você tem chances de dar um salto muito grande na carreira”, resumiu o atleta, agora com 24 anos de idade.

A nova equipe de Oslã é modesta e disputa a quarta divisão de Portugal. Os objetivos do atleta, no entanto, vão bem além disso. Com inúmeros amigos no mundo da bola, já atrai os olhares de muita gente, curiosa para saber como está o garoto que, anos atrás, prometia muito.

Os holofotes estão todos virados para mim. Todo mundo curioso para ver se eu sou bom ou não. Estou aproveitando as oportunidades para na próxima temporada quem sabe ir para um time melhor e, subindo aos poucos para chegar na primeira divisão, que é meu objetivo. Tenho que fazer números para atrair atenção“, afirmou.

Conhecido dos boleiros por conta de sua loja, Oslã tem sido assunto nos bastidores do futebol.

Com a estreia feita, o atleta já desperta interesse do Marco 09, time que lidera a distrital de Porto e já chegou a disputar a segunda divisão. O clube deve enviar olheiros constantes para acompanhar de perto o meia, que pode chegar como reforço para a equipe visando a iminente disputa da terceira divisão. Ciente da possibilidade, o jogador mantém a calma, mas sempre inquieto buscando construir mais um pedaço de sua história.

“É de tijolinho em tijolinho para construir um castelo. Eu penso assim. Acho que todo o sonho é possível. Se acreditarmos em nós mesmo e não desanimar no caminho. Pois o caminho é longe, vai ter muitas batalhas, não vai ser fácil. Pra ser vencedor tem provar, tem que ter gana de vencer. Não basta ser bom, tem que querer mais que todos. Tudo é possível, tudo pode, só depende do tamanho do seu querer”.

Postado por Andrew Sousa Formando-se em Jornalismo justamente pela paixão pelo esporte, sente enorme prazer em poder escrever sobre o que ama. Apaixonado por um bom domínio e alguns jogadores ruins, vive o futebol desde o primeiro dos seus vinte anos.