• Longe dos Holofotes #20 – Gilberto Fortunato
    15 de julho de 2017

     

    Embora atemporal em suas histórias, ídolos e grandes partidas, o futebol tem data de validade para quem sonha. Dia após dia garotos espalhados pelos quatro cantos do Brasil escutam que já passaram da idade ideal para dar os primeiros passos de uma carreira no esporte. Sem condição ou apoio da família para tentar a sorte em peneira, alguns, infelizmente, ficam pelo caminho. Como quase todo menino nascido em solo tupiniquim. Gilberto sempre soube o que queria. Fazer da bola, sua melhor amiga, uma profissão. As dificuldades, no entanto, quase acabaram cedo com seu sonho.

    “Foi difícil porque eu não tinha nenhuma referência na minha família. Ninguém era atleta para me aconselhar ou mesmo me encaminhar no mundo do futebol, eu só tinha a certeza que eu queria aquilo pra minha vida”

    Munido apenas de sua vontade, Gilberto, já maior idade, chegou completamente despreparado em sua peneira. Não sabia como agir, o que fazer ou como funcionava. Só foi, como se fosse puxado pelos seus sonhos. O início tardio não o parou. Os passos foram sendo dados aos poucos.

    “Dificultou muito porque no futebol, em especial no Brasil, tudo acontece muito cedo para os jogadores. Eu acabei perdendo um pouco de espaço. Joguei em times de base das equipes amadoras e com 17 anos já jogava pelos times adultos também”

    Com as primeiras peneiras em Santa Catarina, seu estado natal, o meia logo se tornou atacante e começou a chamar atenção. Dono de excelente porte físico, Gilberto não impressiona só pela força física. A parte emocional também é muito sólida e foi importantíssima em seu primeiro grande passo. Ainda jovem viajou ao Vietnam para tentar um contrato profissional.

    “Foi difícil porque se trata de uma cultura totalmente diferente, dentro e fora do futebol. Naquela oportunidade eu fui sozinho, mas estava disposto a não voltar para casa sem contrato. Foi isso que me motivou mais e ajudou a passar por cima da saudade de família e amigos”

    O sonhado objetivo foi alcançado. O contrato dava início ao sonho.

    Os bons chutes com ambas as pernas chamaram a atenção do Hai Phong e o objetivo foi conquistado. Era o primeiro de uma interessante trajetória no esporte bretão. As dificuldades fora de campo logo foram superadas e a paixão do povo jamais foi esquecida pelo atacante.

    “O idioma foi o mais difícil, eu não falava nada de inglês. Tive a sorte de encontrar mais brasileiros, aí facilitou um pouco as coisas para mim. Mas foi o lugar mais legal que já joguei. Apesar dos desafios no começo, atuar com o estádio sempre cheio, com 20, 30 mil pessoas, era muito gratificante”

    Mais forte emocionalmente para novas aventuras, além da maior familiaridade com idiomas distintos e um futebol tratado de forma distinta do que é visto no Brasil, Gilberto resolveu embarcar em outro desafio. Dessa vez, a Europa seria o palco de seus próximos passos. Nada de Champions League ou Campeonato Inglês, a casa do atacante agora era o KF Tirana, da Albânia – país pobre, ainda com raízes do antigo regime político.

    “O começo foi meio instável porque era um futebol mais tático que o Vietnam, mais lento também. Mesmo com as dificuldades fora de campo, o povo é apaixonado por futebol. Logo que o campeonato começou eu conseguir pegar o jeito e foi uma temporada bastante proveitosa”

    A Coréia foi o país de maior nível para Gilberto.

    Depois de outra experiência e mais aprendizado ainda, o brasileiro rumou ao seu maior desafio: a Coréia do Sul. No país de maior nível que já atuou, Gilberto até contou com a ajuda de um tradutor, mas outro problema o impediu de alçar voos mais altos: a comida. Mesmo sem adaptar-se a alimentação, a passagem pelo Gwangju FC foi válida.

    “A parte técnica que ainda não está no nível de outros países, mas eles tentam diminuir isto com um futebol de muita entrega na marcação e correndo sempre mais que o adversário. No Brasil o jogador técnico não gosta tanto de correr porque tem qualidade pra fazer a bola andar. Lá eles não pensam assim, então eles correm e se preparam realmente muito bem para isso”

    A alta intensidade do futebol coreano foi confirmado em entrevista recente concedida pelo preparador físico Guilherme Rondon ao Blog 4-3-3. O gaúcho trabalho com Gilberto no Gwangju (foi inclusive elogiado pelo atacante) e fez questão de frisar os fortes trabalhos dos coreanos. Confira

     

    Com uma enorme bagagem, Gilberto atualmente joga na Malasya, defendendo as cores do PKNP FC. Embora ainda embrionário, o futebol da região já é abraçado pela população e conta com alguns treinadores estrangeiros para, aos poucos, aumentar o nível da liga local.

    “O país tem boa estrutura e um povo que gosta de futebol. Mas ainda tem muito que evoluir. É mais tranquilo, mas no meu time não. O treinador é de fora e cobra bastante intensidade, principalmente na marcação pressão. Apesar de comum, os técnicos estrangeiros encontram dificuldade pela falta de resposta dos jogadores locais. Com isso, a rotação na função acaba sendo muito grande”

    Agora mais experiente, Gilberto escreve sua história na Malasya.

    Orgulhoso de sua trajetória e da bagagem cultural que carrega depois de tantas experiências, o atacante não aponta as constantes trocas de país e clube como uma receita ideal para quem está começando, porém, insiste que aqueles que buscam seu espaço, sigam seu exemplo e não desistam.

    “Tudo tem a hora certa. Cada um tem que avaliar o seu momento, mas se um jogador acha que não vai conseguir espaço no Brasil, acho que deve tentar algo fora do país sim”

    Forte em todos os sentidos, o camisa nove faz uma espécie de troca. Por onde passa deixa sua marca, mas carrega um pouquinho consigo do que é aquele país. Do estádio lotado no Vietnam até a modesta liga da Malásia, duas coisas se mantiveram as mesmas com ele: o sonho de jogar bola e a força de vontade para continuar. Os holofotes nunca fizeram falta para o goleador. No Brasil, na Ásia ou na Europa, Gilberto faz seus gols e escreve belos capítulos de uma carreira em torno da bola.

    “Obrigado pelo espaço e pela entrevista. Se eu pudesse enviar uma mensagem para quem está lendo agora, eu diria que, se você tem um objetivo na vida e quer alcança-lo, que aplique toda a energia para que isso aconteça. Assim, vai acontecer, porque Deus é justo. Gostaria de agradecer todos que torcem por mim. Um abraço!”

    Postado por Andrew Sousa Formando-se em Jornalismo justamente pela paixão pelo esporte, sente enorme prazer em poder escrever sobre o que ama. Corinthiano, Magpie, amante de jogadores ruins e apaixonado por um bom domínio, vive o futebol desde o primeiro dos seus vinte anos.