Livres para jogar #2 – Apita o juiz!
25 de setembro de 2019

Já leu o primeiro capítulo da série? Se a resposta for não, clique aqui para conferir. Se for sim, boa leitura!

Quando o jogo começa, a luta pela bola é intensa. Objeto de desejo de todos, ela é quase tão importante quanto comida no período de cárcere. Em São Cristóvão do Sul, por exemplo, era comum ela aparecer entre uma série de alimentos solicitados no pecúlio[1]. Com o dinheiro que recebe da família, o preso geralmente opta por uma Penalty, de R$ 90, ou pela tão desejada Adidas, de R$ 120. Ainda há possibilidade – embora mais rara – de trazer o item de casa, na volta de uma de suas saídas. Na Canhanduba, porém, a bola é paga pelo próprio presídio e fica guardada em um dos barracos, levada à quadra apenas durante os banhos de sol.

Cientes da importância da redonda, os presos disputam cada jogada como se fosse a última. Olhando de fora, nota-se muita força nas divididas. No entanto, não se percebe violência. A possível punição imposta pelo Disciplina do Futebol mantém os ânimos controlados. Quem sair da linha pode pegar até dez dias de gancho. Jonatas nunca passou do ponto, pois sabe que enlouqueceria se ficasse tanto tempo longe da amiga.

Com a bola nos pés, o corintiano aproveita de seu biotipo para se sobressair de maneira ágil. Embora seja tão alto quanto a maioria dos detentos – mede 1,85m – ele é mais magro do que grande parte deles. São pouco menos de 70 quilos. Lembra um desses jogadores magros e desengonçados, como o folclórico Peter Crouch, da Inglaterra.

Bastam poucos minutos de jogo para ver que a situação é outra. Num espaço curto, acha espaços para imprimir velocidade e marcar gols. “Sou mais atacante mesmo, de fazer gol, mas gosto de driblar bastante também”, resume, em uma dessas entrevistas imaginárias que nunca deu, como se estivesse se apresentando a um grande clube.

Se o porte físico lhe traz vantagens nos dribles, também faz com que, muitas vezes, saia perdendo nos constantes embates com zagueiros adversários. Jonatas conta que esgueirar-se da zaga é tarefa difícil nos jogos comuns, mas fica ainda mais árdua nos torneios. Como nas peladas entre amigos, o bordão que define as partidas é simples: “Do pescoço pra baixo é canela”. Mesmo com a figura do Disciplina, os pontapés acontecem com frequência. Tamanha sede de vitória tem explicação: torneios têm premiação (e é sempre algo que lhes interessa).

Como tudo que envolve o jogo entre os presos, as recompensas também são por conta deles. Para isso, entra em cena o passa-pano, que vai de barraco em barraco para combinar os times, o sistema de disputa e o que vale o primeiro lugar. Na maioria das vezes, a comida entregue pelos parentes vai para disputa: caixa de bombom, bolacha, refrigerante. A motivação maior, porém, não vem disso.

Sempre rola. Todo mundo sabe que rola”, assume Jonatas sobre as principais recompensas pelos torneios internos. “O cálculo é simples: quem ganhar o torneio fica com um ‘pedaço de 100 pila’”. Nas contas do jogador, isso equivale a três ou quatro cigarros de maconha. Ou seja, um para cada um dos três nomes que fizeram parte da campanha vencedora – o goleiro e os dois na linha.

Além dos prêmios, os campeonatos alteram a forma de decidir as partidas.  Em jogos comuns, se “sofreu dois gols, trilhou”, ou seja, se o adversário marcar duas vezes, o time perdedor está fora. No campeonato, a vitória vem com quatro tentos – “dois vira, quatro ganha”, como dizem os presos. Com isso, as partidas ficam mais longas e as competições, por vezes, duram mais de um dia. Nesses casos, a ansiedade que se cria é ainda mais envolvente entre os presos.  Cada hora é um martírio. Tem que decidir logo!

Sem caderno, caneta ou qualquer ferramenta online para organizar uma tabela, o sistema de disputa também é simples. Basta ganhar três seguidas para estar nas finais. Quem perde vai saindo. No fim, quem acumulou mais triunfos se enfrenta e decide quem faz a festa. Por melhor que pareça atuar por tantas partidas consecutivas, ainda mais para quem é fominha, a verdade é que a questão física pesa. Jogando todos os dias ou não, os presos não dispõem de fisioterapeuta, personal trainer ou treinador. É na raça.

Mesmo com tanta entrega, física e psicológica, a organização se mantém. Sobram braços e pernas em algumas divididas, mas falta é falta e pronto. Enquanto na Série “A” do Campeonato Brasileiro é comum presenciar cenas de ofensas e reclamações a cada decisão do árbitro, na cadeia a conversa é outra. Não há protestos.

Com as traves pintadas nas paredes, é comum faltar clareza na hora de saber se foi gol ou não. Sem árbitros de vídeo ou sistema Goal-Line Technology, implantado na Copa do Mundo e na badalada Premier League, da Inglaterra, cabe ao Disciplina do Futebol definir se o lance altera o placar. Seu trabalho é fácil. O que ele falar está dito. “Quem vai arriscar pegar dez dias?”, questiona Jonatas.

O Disciplina também usa cartões. Na verdade, não são, de fato, os retângulos coloridos usados pelos juízes de futebol. São avisos feitos pelo responsável da partida. A primeira advertência serve apenas para que o jogador não repita a atitude antidesportiva. No segundo, o gancho vem. A suspensão, porém, é rara. O primeiro chamado costuma ser suficiente.

Embora bem-sucedida, a ideia de contar com um Disciplina do Futebol não é adotada por todos os detentos. Algumas galerias preferem ver os próprios jogadores no comando. Quando se pergunta o motivo, Jonatas não pensa duas vezes: “Preferem fazer panelinha”.

Jonatas não se importa com quem vai jogar ao seu lado. O atacante artilheiro só pensa em balançar as redes – que nem existem na quadra de Canhanduba. Marcar gols, na atual situação, é como uma dupla viagem no tempo. Ao mesmo passo em que recorda das partidas anteriores àquele janeiro de 2013, quando deixou de ser um homem livre, pensa no prêmio que poderá estar em suas mãos em algumas horas.

Da caixa de bombom ao baseado, tudo ajuda a dormir mais tranquilo. Então pode confiar, nunca falta raça.

[1] Lista de alimentos que serão pagos pela família e recebidos pelo detento;

Postado por Andrew Sousa Formando em Jornalismo justamente pela paixão pelo esporte, sente enorme prazer em poder escrever sobre o que ama. Apaixonado por um bom domínio e alguns jogadores ruins, vive o futebol desde o primeiro dos seus vinte anos.