Liverpool e a destruição da jornada do herói
7 de maio de 2019
Categoria: 4-3-3

 

O mundo se cala e só se faz ouvir o You Never Walk Alone, apenas existe o Anfield Road na terra. O mundo para e apenas Origi continua. Apenas Origi vê a cobrança de Alexander Arnold. A vida e seus motivos para existir. O futebol e seus motivos para causarem o riso e o choro. A maior das alegrias e a mais aterradora das tristezas. Tudo construído por imagens e roteiros. Quebras de expectativas e semblantes emocionados.

A imagem de Lionel Messi, desesperado, após o gol perdido por Dembelé. A imagem do mesmo Messi, cabisbaixo saindo de campo no Anfield. O primeiro jogo. O espetáculo de um mágico em seu auge. Lionel. Leão. Gol de joelho, gol de falta. A trave para Salah. Assim como Sérgio Ramos o parou há um ano. Messi para Van Dijk.

A construção de um roteiro previsível. A Champions que Messi ganhou sozinho. Levando nas costas a Catalunha e seu próprio orgulho. Levando pra casa o título de melhor do mundo. Derrubando no caminho o sempre derrotável Liverpool. O fracassado Liverpool do fracassado Klopp.  O primeiro gol de Suárez. O ex-red, para machucar ainda mais. O segundo, de joelho do Alien. O terceiro. Bom, o terceiro você ja viu, uma afronta.

3 a 0. Sonoros três a zero. TRÊS A ZERO. Para qualquer um, já estava acabado. Para qualquer homem são, o Barcelona já estaria pronto para jogar a final na Espanha. Para os céticos, tudo normal. É a construção da história dos vencedores contra os perdedores. O roteiro dos campeões. A jornada do herói.

Parecia que o herói seria o mesmo de sempre. Parecia.

E para garantir ainda mais o já garantido, Firmino, que já houvera ficado de fora no Camp Nou, não joga a volta. Mas não para por aí. O craque egípcio Salah tem uma concussão. Assim como Karius na final da última Champions. Salah também de fora. Mais uma vez.

3 a 0. Sem dois dos melhores jogadores. O roteiro então se constrói e se encaminha para o final. Nem precisa ver. Quem vai jogar? Shaqiri e Origi? Pffff…..

A destruição do roteiro previsível e a construção da epopeia. 7 minutos na Inglaterra. O que dá para fazer? Tomar alguns goles de chá? Comer umas bolachinhas? No Anfield, dá para construir o primeiro gol. Origi. Origi? O mesmo que foi considerado o pior jogador da Ligue 1 em 2016? Ele. Origi.

Algumas trocas de finalizações. Alisson se provando um dos melhores da posição. Decisivo.

Termina o primeiro tempo. Klopp saca o ótimo lateral Robertson, coloca o holandês Gini Wijnaldum, volante.

-Que doidêra!

Exclamou algum desavisado.

Desavisado mesmo. Gini tem uma das chegadas na área mais potentes do mundo. E assim o fez, 10 minutos após sua entrada, o segundo gol. Cruzamento do espetacular Trent Alexander-Arnold. Batida Firme. Dois minutos depois, o interminável Milner levanta na área. Quem está lá? Wijnaldum. Klopp e suas mãos de alquimista. Tocou no peito do volante e disse: SUA VEZ!

O iluminado Wij saiu do banco para construir parte da épica virada

O 3 a 0 estava devolvido. Metade da jornada do herói já havia sido destruída. Mas neste momento começa a parte mais complicada. O quarto gol. A remontada. O Barcelona já se arma contra as investidas de Wijnaldum. Arnold e Milner recebem mais atenção. Quem pode fazer o quarto gol? Todos pensavam. Poderia ser Van Dijk, de temporada fenomenal. Poderia ser Henderson, capitão e mais longevo jogador do elenco.

Todos aflitos pensando… Imaginando…

Enquanto pensavam, Arnold cruza a bola mais inteligente do ano. Ninguém viu. Não teve nenhum tempo de reação. Piqué ao perceber a sina, já corria para dentro do gol. Mas de nada adiantou. Origi. O odiado. Origi, o Inevitável.

4 a 0. QUATRO A ZERO.  O mundo vem abaixo. E cai nas costas de Ernesto Valverde, técnico que viu a história acontecer suas vezes diante de seus olhos. E nada ele pôde fazer.

QUATRO A ZERO. Todos abraçados dentro do campo sem saber o que aconteceu. A camisa de Mohamed Salah diz: NEVER GIVE UP. Nunca desista, porra.

Suárez olha para Messi e pergunta:

– O que aconteceu?

Messi abaixa a cabeça e diz:

– Não sei.

E os roteiros e as imagens são destruídos. E novos são construídos. Muito mais apaixonantes e maravilhosos. A arte é isto, destruição e ruptura. Klopp, um dos artistas mais consagrados. Liverpool, a segunda chance toca a porta.

Postado por Igor Varejano 18 anos. Do interior de São Paulo. Vivo em ódio por amar o Palmeiras e o Liverpool. Futebol é o que move a humanidade. Bom, pelo menos a minha.