JogaMiga #05 – Campeonatos regionais mostram disparidade em seus modelos e equipes
3 de outubro de 2019

 

O futebol feminino vem vivendo uma grande fase de exposição no Brasil. Títulos nacionais e internacionais em disputa, equipes compostas por jogadoras experientes, novas promessas. Conseguimos acompanhar até equipes grandes e com investimentos focados na modalidade e transmissões na TV aberta. Os holofotes da Copa do Mundo na França ainda estão apontados para o futebol e a tendência é somente crescer. Mas esta posição de destaque revela algumas disparidades da organização do futebol feminino em cada Estado brasileiro – e são exatamente aquelas que fazem os menos esclarecidos, digamos assim, apontarem o dedo e falaram que o “futebol realmente não é para mulher”. 

As goleadas chamam atenção. E muito. Não são placares de 5×0. Nos campeonatos regionais podemos presenciar ainda este ano recordes históricos, como a vitória do Flamengo por 56×0 sobre o Greminho. Ou um 16×0 do Internacional (RS) sobre o João Emílio. As goleadas, apesar de mostrarem a qualidade técnica das equipes vencedoras, mostram que algo pode estar errado na concepção dos campeonatos. 

O Carioca

No Rio de Janeiro, o Campeonato Carioca conta hoje com 29 equipes numa fórmula de disputa maluca e que tem duração de apenas três meses. Até o momento, os quatro primeiros colocados – Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo – somam 182 gols marcados. Somente o rubro-negro possui um saldo de 79 gols. Ao olhar para a outra ponta da tabela, Rogi Mirim e Greminho não marcaram nenhum gol na competição, e seus saldos negativos se comparam aos positivos dos líderes. 

No último sábado, as meninas do Fla aplicaram inacreditáveis 56×0 no Greminho (Foto: Twitter/Flamengo)

Num campeonato desenhado desta forma, entre times claramente amadores e profissionais, a preocupação com questões técnicas estão em segundo plano. Exatamente como a própria federação se posicionou em uma nota oficial. Inflar uma modalidade, pela questão quantitativa, só a deprecia e não desenvolve atletas e muito menos clubes. A fragilidade técnica que a própria Federação expõe as equipes é motivo de vergonha e demonstra como o futebol feminino é visto pelos seus comandantes. 

Em Minas Gerais…

Em disputa desde o fim de setembro, o Campeonato Mineiro conta com sete equipes e será disputada até 7 de dezembro, com a final agendada para o Mineirão. O América Mineiro corre atrás do tetracampeonato. 

Mas, antes mesmo de começar, o campeonato foi cercado de muitas controvérsias junto a Federação Mineira de Futebol. Uma delas foi a mudança na regra, impedindo times amadores – já tradicionais nas edições anteriores – de participarem do campeonato. A entidade deu um prazo para esses times associarem-se com clubes profissionais. Até mesmo problemas com cobrança de taxas de arbitragem, que fez um time desistir do torneio. 

Atlético e Cruzeiro disputam seu primeiro Campeonato Mineiro e com chances de destituir o trono do Coelho. Ambas as equipes disputaram o Brasileirão A2 e com diferentes desempenhos ao longo das partidas. O Galo mineiro, por exemplo, somou apenas um ponto em cinco jogos disputados, enquanto a Raposa alcançou a semifinal. 

As goleadas também estão presentes no cenário a favor dos três times: América 10×1 Valadares, Cruzeiro 8×0 Ipatinga e Atlético 5×0 Futgol.

O Campeonato Pernambucano

Com 21 edições realizadas, o Campeonato Pernambucano chegou ao fim em setembro, com o título do Vitória/Santa Cruz. A final foi disputada contra o Sport, time que ganhou destaque nacional após uma de suas atletas se posicionar contra a estrutura dada para a modalidade. Com seis times, as goleadas também foram a essência na fase de grupos, destacando-se para o 11×0 do Vitória de Tabocas sobre o Ipojuca. 

Mas o que chama a atenção de uma forma absurda no campeonato não são suas disputas, mas sim um detalhe no regulamento. Uma das premiações, de equipe mais disciplinada, chama-se Fair Play – Maria da Penha. Isso mesmo, nome da mulher que advoga pelos direitos das mulheres, particularmente contra a violência doméstica. Um tanto quanto contraditório. 

Na Região Sul

Os campeonatos mais enxutos na região Sul são o Paranaense e o Catarinense, ambos com quatro times na disputa. O Gaúcho, em 2019, conta com 6 clubes participantes. Se destacam o Foz Cataratas (PR), Kinderman (SC) e a dupla GreNal (RS). 

No Paranaense, em fase única, o campeonato durou um mês e encerrou com o título do Foz Cataratas, com 100% de aproveitamento, apenas 1 gol sofrido e 12 marcados. O resultado garante o time no Brasileirão A2 de 2020. Em Santa Catarina, os quatro times na disputa terão dois meses de jogos, que iniciam em outubro. Napoli, Chapecoense e Criciúma tentam acabar com a hegemonia do Kindermann, campeão desde 2008 do Catarinense. 

Com seis times, o Gaúcho de 2019 conta com uma disputa diferente dos anos anteriores. Os times se enfrentam em turno e returno e somente quatro avançam para as semis. A título de curiosidade, o campeonato permite a substituição de até seis jogadoras por time em cada jogo. O Grêmio, atual campeão, está na segunda colocação da tabela atrás do Inter, que se destaca pelo saldo de gols: 38 até o momento em quatro partidas disputadas. E duas partidas contribuíram para esse saldo: 16×0 contra o João Emílio e 14×0 contra o Atlântico. 

No Gaúcho, as meninas do Inter vêm acumulando goleadas (Foto: Twitter/Internacional)

Campeonato Baiano

Dia 5 de outubro marca o início da trigésima segunda edição do Campeonato Baiano, que contará com 18 equipes. Divididos em 6 grupos, os times disputam partidas de ida e volta e classificam apenas os dois melhores de cada grupo. O grande campeão baiano na história é o São Francisco, com 14 títulos. A sequência vitoriosa foi interrompida em 2016 pelo Vitória, que não jogará este ano por falta de investimento na categoria. Vale lembrar que o time é o atual campeão baiano.

No Amazonas

Celeiro de grandes nomes do futebol nacional, o Iranduba começa o campeonato amazonense na busca pelo nono título. No total, sete equipes iniciam a disputa do torneio que se estende até 30 de novembro. 

Em São Paulo

Talvez um dos campeonatos mais disputados do país – em relação à competitividade – o Paulistão ainda não tem o seu campeão definido. Corinthians e São Paulo irão duelar em novembro pelo título e trilharam seus caminhos com bons resultados ao longo do campeonato. Dentre as doze equipes, vimos poucos jogos com placares elásticos, mas ainda assim duas goleadas por 8×1 do Santos, atual campeão, sobre o Juventus e a Portuguesa.  

Mas o que esperar dos campeonatos regionais? 

Como falamos no início do texto, com as atenções voltadas para o futebol feminino, devemos cobrar – como torcedores, entusiastas, jornalistas e espectadores – mais profissionalismo partindo da Confederação Brasileira de Futebol e de suas federações associadas. Profissionalização e, acima de tudo, respeito com a modalidade. Não é apenas encher um campeonato com clubes, mas sim proporcionar estrutura adequada, regulamentos coerentes e incentivo às categorias de base, inclusão e promoção de seletivas para formação das equipes, sejam elas profissionais ou de base. 

Não se formam “Martas e Formigas em laboratórios ou brotam da terra”, como disse a Federação de Futebol do Rio de Janeiro. Mas com respeito e qualidade de trabalho se formarão Martas, Formigas, Marias, Brunas, Nayaras, Victorias, Kamilas, Cacaus, novos projetos como o Joga Miga… e tantas outras brasileiras que sonham com o futebol feminino sendo uma modalidade GIGANTE.

Por: Bruna Didario

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