JogaMiga #02 – Goleira sofre injúrias raciais durante partida. E agora, NWSL?
12 de setembro de 2019

 

Os casos de racismo e homofobia no futebol são capítulos que nunca gostaríamos de escrever. Eles acontecem aqui no Brasil, na Europa, na Ásia e, mais recentemente, nos Estados Unidos. A goleira Adrianna Franch, que defende o Portland Thorns, foi vítima de ofensas racistas durante a partida contra o Utah Royals FC. A partida da NWSL, realizada na última sexta-feira (06) e que deu a vitória para o time de Salt Lake, ficou marcada não pelo resultado e festa da torcida, mas pelo lamentável episódio. 

Os relatos de torcedores e da jogadora apontaram que as injúrias partiram de um indivíduo – que não devemos chamar de torcedor – que estava na seção 15 do estádio Rio Tinto. A administração do local, juntamente com a equipe do Royals, manifestou-se contra a atitude e disse estar em busca de breves respostas por meio de uma investigação. O código de conduta do estádio reforçou que este tipo de comportamento é inaceitável e que medidas como expulsão do local e demais sanções podem ser tomadas.

Adrianna também se posicionou e confirmou que esta não é uma situação nova vivida por ela. Seu clube, técnico e companheiras de equipe como Becky Sauerbrunn e Christen Press, se manifestaram a favor da goleira e contra o racismo, no geral. A grande questão que se discute agora é: qual será o posicionamento da liga americana? 

Posicionamento

A NWSL não estava pronta para lidar com essa situação e foi pega de surpresa. Com sete anos de existência e inúmeros casos espalhados pelo mundo, a preparação deveria ser diferente. Tanto que somente três dias depois a liga se manifestou publicamente e, claramente, com uma comunicação feita às pressas. Um tweet foi feito, não seguindo as diretrizes de design que a própria NWSL impõe em suas redes sociais. Imagem e texto com os mesmos dizeres: 

“Estamos cientes a respeito do incidente no jogo deste fim de semana, onde comentários racistas foram feitos a uma de nossas jogadoras. Racismo em qualquer forma é inaceitável e a NWSL não tolera este comportamento dentro ou fora de campo. De acordo com as políticas da liga, ações serão tomadas…”.

Manifestação pública feita. Porém, essa política da NWSL não está em lugar algum – a não ser regras voltadas ao campeonato em si, que você pode saber mais aqui. Para jornalistas, a liga informou que não poderia fornecer essa política, mas estaria trabalhando para obtê-la

A federação norte-americana de futebol (USSoccer) conta com um claro código de conduta para os fãs da modalidade. Neste caso, a tolerância zero é levada à sério nos casos de assédio e intolerância dentro e fora dos gramados, “isso inclui, mas não se limita a, linguagem, ações ou demonstrações baseadas em um indivíduo ou grupo”. Aqui você pode ler o manual da USSoccer.

Da torcida

A distância entre arquibancada e o gramado, que permitiram que Adrianna escutasse as ofensas nos faz questionar: e quem estava ao lado desse indivíduo, não conseguiria identificá-lo? Pois é… Uma pessoa enviou um tweet para o Royal durante o jogo sobre as manifestações. A resposta do clube foi imediata, solicitando a identificação. Por foto, era possível entender que o estádio não estava lotado e de onde vieram as injúrias, era possível identificar uma pessoa. 

Um segurança permaneceu na seção 15 e mais nenhum problema ocorreu. Outra torcedora, via Instagram, mencionou que estava ao lado da pessoa que cometeu esse crime. Disse que avisou ao segurança que “achava que sabia quem era”, mas aparentemente o segurança disse não ter prova suficientes para tomar uma ação

Um reforço

Dentre tantas atitudes racistas e homofóbicas presentes no esporte, jogadores, comissões técnicas, arbitragem, organização em geral e inclusive torcedores têm o dever de fazer algo a respeito. Somos testemunhas disso. No Campeonato Brasileiro masculino, em São Januário (RJ), vimos um árbitro parar uma partida após cantos homofóbicos contra uma das equipes – regra imposta recentemente pela CBF. Pudemos ver a reação de todos os times da Série A falando a respeito disso e disseminando a informação pelos canais oficiais de cada um. O silêncio protege esses indivíduos. Posicione-se contra qualquer tipo de violência. 

Atualização – 14 de setembro às 11h00

A NWSL acaba de se manifestar via Twitter oficial sobre o assunto. A liga identificou o indivíduo que fez as injúrias contra Adrianna Franch no Rio Tinto Stadium. No comunicado, após as investigações, foi informado que a pessoa está banida de comparecer a qualquer estádio com jogos da liga. Não somente no Rio Tinto Stadium. “A NWSL não irá tolerar comportamentos inapropriados dos torcedores. Racismo não tem lugar em nosso esporte”, finalizou a nota.

 

Por: Bruna Didario

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