• Inesquecível #1 – O fim da agonia atleticana
    14 de julho de 2017

     

    O dia era 24 de Julho de 2013 e o Atlético Mineiro poderia escrever um dos capítulos mais bonitos da sua centenária história. Além da beleza, o dia podia coroar também um dos trechos mais difíceis de ser escrito.

    Muitos tratavam como impossível. Afinal, reverter a vantagem de dois gols que o tricampeão Olimpia havia adquirido na partida de ida nem de longe é uma tarefa fácil. Falavam que a ‘’cota de milagres’’ atleticana já tinha se esgotado nas fases anteriores – nas quartas, quando Victor defendeu o pênalti de Riascos aos 48 do segundo tempo ou nas semifinais, quando reverteu uma vantagem de 2 a 0, com queda de energia e um gol de um jogador saindo do banco.

    Mas nada disso importava. Embalado pelo mantra “Eu acredito”, esse que vos escreve, no auge do seus 15 anos, acordou alegre, pensando que depois de todo sofrimento que já havia passado, essa era a hora da glória. Vestiu a sua camisa da temporada 2005, aquela mesma, que encharcou de lágrimas, quando foi decretado o rebaixamento para a segunda divisão e se tornava um verdadeiro atleticano. Essa mesma camisa iria o acompanhar pelos terríveis anos subsequentes a queda: goleadas vexatórias para o maior rival, eliminações contra times pequenos e contas para se salvar do rebaixamento.

    Para alguns a sorte terminou neste lance. Ledo engano. Foto: Gil Leonardi/Lancepress!

    O dia transcorria de forma lenta, o tempo não passava, os rivais zoavam. Pareciam querer aproveitar os últimos momentos que tinham. Eu não ligava. Nem respondia. Felizmente, chegava a hora do jogo. Ansioso ao extremo, me despedi dos amigos e corri para casa. Aquele seria o palco do grande dia. Soa o apito, rola a bola.

    Quanto mais ela passeia pelo gramado, maior a agonia. Sem comemorar um título importante há mais de 40 anos e tendo de aguentar os rivais empilhando taças, era inevitável que o coração alternasse incessantemente – da máxima velocidade até a sensação de já não bater mais. Cada defesa, cada chute errado, era como se o sonho, que havia se tornado possível, voltasse a ser impossível.

    Metade do tempo já havia passado e nada de gol. A dúvida começou a apertar o coração alvinegro, que a todo instante pensava e relembrava toda odisseia passada pelo time para chegar nessa final e clamava aos Deuses do futebol, para que não fosse em vão, que essa não se tornasse mais uma da lista interminável de “quase” que rondava o Atlético Mineiro. O grito estava entalado.

    Se foram os Deuses que atenderam minhas preces (e de mais de oito milhões de atleticanos pelo mundo) eu não sei, mas a verdade é que logo no recomeço da partida veio o segundo gol que mais comemorei  vida:  palavrões, socos, gestos e choro, sim, um choro de dualidade. Ao mesmo tempo que o sonho ficava mais perto, o medo de que assim permanecesse e se tornasse mais uma história de proximidade do objetivo e distância da glória.

    Dos pés de Jô saiu o primeiro grito e as lágrimas iniciais. Faltava um.

    Mas não dessa vez, alguma entidade, que olhou para o Galo e para toda sua apaixonada torcida, resolveu dar uma alegria pra esse povo tão sofrido, que nunca deixou de amar e de gritar “Eu Acredito”. Quando Ferreyra driblou Victor (um dos instrumentos que tal entidade usou para a alegria atleticana) e ficou com o gol escancarado a sua frente, algo deu um leve puxão no seu pé de apoio para jogar ele no chão e salvar o Atlético mais uma vez. Sem explicação. E nem precisa.

    Ainda faltava um gol e ele veio com uma reviravolta digna de filme Hollywoodiano. Leonardo Silva, que por pouco não se tornou o vilão, de cabeça, em câmera lenta, fez a bola morrer no fundo da rede e explodir o coração alvinegro.

    No longo tempo em que a bola percorria tão curta distância, passaram muitas imagens na mente atleticana. Goleadas para o rival, rebaixamento e vexames, esse gol foi uma libertação para a torcida. Quem já estava chorando há muito tempo, continuou o choro, mas agora de alegria, de sentir tão próximo um título de tamanha magnitude.

    Mas engana-se quem achou que o sofrimento tinha acabado. Ainda teríamos que suportar uma decisão por pênaltis. Mas sejamos sinceros, para quem teve uma penalidade máxima contra aos 48 do segundo tempo, não vai ser uma decisão de 5 contra 5 que irá nos matar.

    São Victor, sempre ele, resolveu diminuir o sofrimento pegando logo o primeiro, para já deixar engatilhado o grito de campeão na garganta. Entre lagrimas e gritos, eu vi a bola ir ao travessão e sagrar o Galo campeão da Libertadores da America.

    Sim, campeão. Olhava para a televisão e não acreditava. Gritar, chorar, nada era suficiente para extravasar a minha alegria. A realização de quem nasceu na em uma fase tão difícil e ainda assim escolheu amar as cores de camisa preta e branco. Abraçar os amigos atleticanos e pensar que, sete anos atrás, a mesma camisa que estava me acompanhando no pior momento da história do clube, estava comigo agora, no melhor dia da minha vida.

    Postado por Guilherme Rafael Um cara simples e sossegado, poderia passar o dia todo com algo relacionado ao futebol, seja jogando, assistindo, discutindo ou em uma partida de Fifa. Como um bom mineiro é apreciador de um queijo e um café quentinho feito na hora.