O pior lado do futebol: a impunidade
9 de junho de 2018

 

Até que ponto um ato que ocorre em torno do futebol pode ser passível de punição? E quando este ato é assumido publicamente em canais de transmissão que podem ser vistos mundialmente? Como são ações do passado, podem ser esquecidas? Estas, e algumas outras, são perguntas feitas para quem vê, no entorno do futebol, atitudes que acabam não recebendo punições cabíveis para tais atos.

Há alguns meses, o relato de Carlos Eugênio Simon, ex-árbitro de futebol, de que marcou “perigo de gol” no lance de Obina em 2009, então atleta do Palmeiras, após ter dado, erroneamente, escanteio para a equipe paulista que enfrentava o Fluminense, virou assunto na internet e em programas de TVs.

Obina teria marcado o importante gol, anulado por Simon.

Sim, o lance anterior ao escanteio foi dado de forma errada. Era tiro de meta para o Fluminense. Mas não se pode aceitar que este erro justifique o outro. Algo como justificar a interferência externa do juiz, algo ilegal no futebol, dizendo que o lance foi marcado erradamente.

Depois disso, o time alviverde, que perdeu aquela partida, acabou não vencendo mais, além de cair da primeira colocação até a quinta posição da tabela de classificação do Campeonato Brasileiro 2009.

É claro que o então presidente do clube, Luiz Gonzaga Belluzzo, não gostou nem um pouco da situação. Em entrevista coletiva, ele acusou Simon, de uma forma agressiva, de ter prejudicado o clube paulista. Como resposta, teve que pagar sessenta mil reais para o árbitro como indenização.

Depois de nove anos, Simon, em um programa de TV, declarou abertamente – pedindo desculpas para o atacante Obina, que estava ao seu lado – que marcou a falta por saber que não tinha sido escanteio na jogada anterior, como uma forma de compensação pelo seu próprio erro.

Ele não devolveu o valor recebido como forma indenização ao presidente palmeirense. Além disso, não se ouviu nenhuma forma de punição ao ex-árbitro. Torcedores, jornalistas e todos aqueles que querem o bem do esporte o criticaram bastante nas redes sociais, mas não passou disso.

Que esse fosse o único casos como este. Mas não. Arnaldo Cézar Coelho, durante a partida de volta entre São Paulo e Rosário Central, disse que marcou diversos “perigos de gol” quando detinha o apito.

Novamente, em uma rede de televisão grande, onde as informações são repassadas em segundos para as redes sociais, uma pessoa falou tão livremente como se não tivesse medo de nenhuma punição decorrente de sua fala ou, ao menos, das críticas que possivelmente receberia.

A Copa do Mundo está chegando, batendo na porta, mas as polêmicas não deixam de aparecer na telinha de celulares, computadores e televisões. A frase, “mas é só no esporte brasileiro que ocorre isto, pois no resto do mundo é diferente”, é totalmente errônea. Platini, francês suspenso do futebol por conta de corrupção, nos prova isso. Em maio, o ex-presidente da FIFA e jogador da Seleção Francesa de Futebol declarou, também abertamente, que teve influências no sorteio da Copa do Mundo de 1998.

A França venceu o Brasil por 3 a 0 na final, mas o confronto poderia ser bem anterior a este jogo (Foto: Agência AP)

Naquela edição do mundial, há 20 anos, a França bateu o Brasil na final. Para os organizadores, era o jogo que esperavam. Mas ao contrário do que muitos pensam, não foi pelo acaso que aquelas duas seleções só se enfrentaram no último jogo.

O Brasil era o detentor do título, e buscava conquistá-lo novamente, enquanto os franceses eram os donos da casa. Segundo Platini, com medo de uma eliminação precoce caso pegasse os brasileiros em fases anteriores, houve uma manipulação no sorteio da fase de grupos para que elas só pudessem se enfrentar na final, já que ser vice-campeão do mundo não seria nada mal.

Sim, a França, dentro de campo, venceu por méritos aquela competição. Mas caso os franceses pegassem os brasileiros em fases anteriores, com Ronaldo, que passou mal nas vésperas, e seus companheiros inteiros para o jogo, a história poderia ser muito diferente.

Muito pior do que isso. Há quem diga que tudo isto era comumente usado nas Copas do Mundo anteriores a de 1998. Não era nenhuma novidade o ato, mas sim, a coragem de Platini ao declarar abertamente uma coisa tão ruim e indigno.

Mas e quando a impunidade se estabelece em um ato que poderia causar problemas sérios? Ela continuará sendo exercida por já ter passado tanto tempo?

Caniggia marcou o gol que eliminou a Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1990 ainda nas oitavas de finais

A Argentina sempre se envolveu com problemas com drogas em época de Copa do Mundo. Maradona ficou de fora da de 1994; 20 anos depois, Lavezzi foi pego no exame antidoping; na edição de 1998, Veron foi o jogador surpreendido no teste; E Carlos Bilardo, em 1986, técnico da seleção, que, segundo muitos, teria envenenado a cerveja de Passarella.

Em 1990, em determinado momento do jogo do Brasil contra os argentinos, Branco padece e claramente não parecia ser o lateral que chegou à seleção com certo louvor e admiração dos torcedores. Motivo: ele bebeu a água dada por um massagista adversário que atendia o seu jogador dentro de campo.

Diego Maradona assumiu isso antes da Copa 2010, para uma televisão argentina. Segundo ele, haviam seis garrafas no suporte, sendo três de cada cor. Uma dela era com água normal, enquanto as outras, estas destinadas aos brasileiros, tinham um remédio de uso psiquiátrico, que fazia com que quem tomassem ficasse adormecido, misturado.

“Eu dizia, beba, beba, maldito… E depois veio Branco, que tomou toda a água. Justamente o Branco, que batia as faltas e caía”, contou, Diego, dando muitas risadas.

Até hoje, embora essa ação seja enojada por muitos que torcem pelo bem do futebol e do esporte, nada a mais do que isso aconteceu. A FIFA nem sequer investigou o caso.

Diversos outros casos podem entrar neste texto infelizmente. O esporte merece o melhor. A impunidade abre brechas para novos casos. E atos como os citados aqui fazem com que o futebol perca a sua tão grande beleza. Assim como na vida, a paixão de saber que tudo está certo é bela. A ilegalidade enoja, destrói o sentimento mais puro do futebol, de apenas dizer que o vencedor é merecedor da vitória.

Postado por Rafael Brayan Torcedor do Corinthians e adepto do jogo inglês, sou apaixonado pelo futebol bem jogado. A única coisa que pode ser comparado a assistir um bom jogo é uma conversa sobre este esporte com bola.