ÍCONES ALTERNATIVOS #25 – O Rei de Porto Príncipe
14 de julho de 2018
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Quando se pensa no futebol do Haiti, poucas memórias são claramente evocadas. Alguns podem se lembrar, com razão e respeito, da incrível reconstrução do futebol haitiano, após o terremoto que dizimou o país em 2010. Outros, se lembrarão da grande paixão do povo nativo pela seleção brasileira, evidenciado principalmente em época de Copa do Mundo, além da visita da Seleção à Porto Príncipe na década passada. Já outros, não se lembrarão de, basicamente, nada. Mas embora seu povo tenha tanto apreço pelos craques brasileiros, o futebol haitiano têm seus heróis, e o maior deles, sem sombra de dúvidas, atendia pelo nome de Emmanuel Sanon.

Quem conhece bem a história das Copas, provavelmente já está familiarizado com o nome desse que é um dos maiores “heróis improváveis” da história da competição. O gol contra a Itália de Dino Zoff no mundial de 1974 foi o ponto alto da carreira do nosso ícone, mas há muito a se falar antes de chegarmos lá.

Emmanuel “Manno” Sanon começou sua caminhada para se tornar o maior jogador haitiano da história ainda nos campeonatos juvenis interescolares, demonstrando desde cedo um grande faro de gol e uma agilidade e velocidade acima do padrão, sendo então recrutado para atuar no modesto Don Bosco FC, da comunidade de Pétion-Ville, subúrbio de Porto Príncipe. O impacto de Manno na equipe foi imediato, e suas grandes atuações acabaram por levar o Don Bosco ao primeiro título nacional de sua história, vencendo o campeonato local em 1971, feito que só se repetiria mais de 30 anos depois, em 2003. Nesse meio tempo, o jovem Sanon já atuava pela seleção do Haiti, e participou da boa campanha no campeonato da Concacaf (atual Copa Ouro) também de 71, em que a seleção haitiana ficou com o segundo lugar, terminando atrás apenas do México.

Mas a afirmação de Sanon como uma lenda só começaria de fato nos dois anos seguintes, com a campanha que levou os haitianos a sua primeira e única Copa do Mundo na história. Pela primeira vez, o Campeonato da Concacaf, que seria realizado em 1973 valeria também como eliminatória para a Copa, num modelo que se manteria até a última edição da competição, em 1989. Para se classificar, o Haiti precisou primeiro passar pela fraca seleção de Porto Rico, em um mata-mata simples com ida e volta. Em um verdadeiro atropelo, os haitianos venceram por duas goleadas arrasadoras, sendo 7-0 em Porto Príncipe e 5-0 em San Juan, com Sanon marcando 3 gols em ambos os jogos, e assim, com a equipe classificada, juntamente com as Antilhas Holandesas, Honduras, Guatemala, México e Trinidad e Tobago, começaram as polêmicas. Na época, a Concacaf passava por sérios problemas financeiros(uma das razões pelas quais o torneio continental e as eliminatórias foram unificados), e a história conta que o jovem ditador Jean-Claude Duvalier, conhecido como “Baby Doc”, filho e sucessor do também ditador François “Papa Doc” Duvalier, ofereceu uma bela quantia em dinheiro para que a competição fosse sediada em Porto Príncipe, e assim foi feito, com todas as partidas sendo disputadas no Estádio Sylvio Cator (o mesmo que, muitos anos depois, receberia a Seleção Brasileira em 2004).

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Dia marcante para eles.

A campanha começou bem para os haitianos, com uma vitória tranquila sobre as Antilhas Holandesas por 3-0, com Sanon anotando dois gols, mas a partida seguinte, um confronto direto contra Trinidad e Tobago, foi certamente o jogo mais marcante da competição, para o bem ou para o mal. Novamente fazendo uso da expressão, a história conta que o árbitro da partida, o salvadorenho José Roberto Henríquez, anulou nada menos do que 3 gols legais da seleção trinitária em cerca de 20 minutos, estando supostamente ameaçado de morte por Baby Doc caso o Haiti perdesse a partida. Fato é que o Sanon e seus companheiros venceram a partida por 2-1, com o craque anotando um dos gols da partida e garantindo uma vantagem importantíssima para o resto do torneio. Henríquez, juntamente ao auxiliar canadense James Higuet, acabaram banidos do futebol por toda a vida pela FIFA, após denúncias dos mexicanos, que também acabaram prejudicados com o resultado. O Haiti venceu a partida seguinte contra Honduras por 1-0, e em sequência a Guatemala por 2-1, com Sanon anotando os dois gols da partida. No dia seguinte, o México foi derrotado por um arrasador 4-0 por Trinidad e Tobago, tornando os haitianos inalcançáveis na primeira posição e a primeira nação caribenha a se classificar, de fato, para a Copa do Mundo (Cuba já havia disputado o torneio, após desistência de outros países). Já classificada, a equipe conheceu sua primeira derrota na última rodada, 1-0 para o México, o que não foi muito bom para Manno, que acabou perdendo a artilharia para o trinitário Steve David, que marcou 3 gols em seu último jogo e superou Sanon, que terminou em segundo com 5 gols.

A euforia dos haitianos com a classificação foi seguida da dura realidade que enfrentariam na Alemanha, com Sanon e seus companheiros sorteados num dos grupos mais difíceis do torneio, junto a Polônia, que viria a terminar em terceiro lugar comandada pelo craque Lato, a Argentina, que na edição seguinte se sagraria campeã, e contava com nomes como Mário Kempes e Yazalde, e por fim e mais importante nessa história, a Itália de Dino Zoff, vinda de um vice-campeonato em 70 e adversária da primeira partida. Acontece que a Itália era na época conhecida por praticar um futebol extremamente pragmático, vencendo suas partidas por placares mínimos e absolutamente não concedendo gols, chegando ao mundial com a marca de incríveis 1096 minutos sem sofrer gols, ou seja, mais de 12 partidas em sequência sem que a meta de Zoff fosse vazada. Tendo tudo isso em vista, o discurso dos haitianos era humilde e realista, cientes de que o que viesse era lucro, mas essa modéstia não se estendia a Sanon, que na véspera da partida declarou que marcaria “porque a defesa italiana é lenta demais para mim”, uma declaração pra lá de ousada para um jovem desconhecido de 22 anos, que estava prestes a enfrentar alguns dos melhores jogadores do mundo. Apesar de tudo, o dia do jogo chegou, e o Haiti conseguiu fazer um ótimo papel no primeiro tempo, levando para o intervalo um empate de 0-0, um feito já bastante considerável, mas foi na volta das equipes ao gramado que a verdadeira mágica aconteceu. Logo nos primeiros minutos do segundo tempo, enquanto a Itália pressionava, a defesa haitiana conseguiu afastar de cabeça uma bola que parou nos pés do meia Philippe Vorbe, que da intermediária fez um belo passe em profundidade, e foi então que o aparente delírio de Manno Sanon se provou realidade. Em uma arrancada digna de um velocista profissional, ele deixou pra trás com facilidade o defensor Luciano Spinosi (que tentou, sem sucesso, pará-lo com um puxão de camisa), antes de ficar cara a cara com Zoff, fintar magistralmente o arqueiro, e só empurrar para o gol vazio enquanto o lendário jogador da Azzurra se estatelava impotente no chão, levando a loucura os incrédulos haitianos, seja na comissão técnica, no estádio, ou na ilha, que deram um show de carisma em sua comemoração eufórica, sem parecer acreditar no que Manno Sanon acabara de fazer. A vantagem haitiana durou por apenas orgulhosos 6 minutos, quando Gianni Rivera empatou o placar, e a equipe conseguiu manter o empate por mais 14, quando Benetti virou o jogo, dando tempo ainda pra Anastasi fechar o placar em 3-1, mas a história já estava escrita, e Sanon, eternizado.

Manno Sanon bate Dino Zoff e entra pra história.

O placar pode ter sido negativo, mas ao fim do jogo todas as atenções estavam voltadas para o improvável carrasco de Zoff. Após a partida, Sanon declarou: “Todo mundo estava se perguntando quem bateria o Dino Zoff. Os jornais mencionaram jogadores europeus e sul-americanos, mas ninguém pensou que um haitiano poderia fazer isso. Isso me chateou porque eu sabia que podia”, enquanto Zoff confessou-se feliz em ter o recorde encerrado, e de certa forma humilde ao reconhecer a capacidade da equipe haitiana.

O atacante fez sucesso na Bélgica.

A Copa do Mundo não seguiu bem para o Haiti, que na rodada seguinte foi derrotado por um sonoro 7-0 pela Polônia, sem que Sanon, que atuou os 90 minutos, pudesse fazer alguma coisa. Mas o camisa 20 dos Les Grenadiers, como é conhecida a seleção, ainda não havia terminado de deixar sua marca na competição, e no último jogo, contra a Argentina, ele foi capaz de marcar mais uma vez, aproveitando um rebote e acertando um belo chute de fora da área no ângulo do goleiro Carnevali, que não conseguiu voltar a tempo pra fazer a defesa. O gol diminuiu a vantagem argentina para 3 a 1 e deu alguma esperança aos haitianos, mas Yazalde fechou o placar apenas 5 minutos depois, anotando seu segundo gol no jogo. No fim das contas, os dois gols anotados por Sanon, até hoje os únicos do Haiti na história das Copas do Mundo, colocaram o atleta em um posto nobre entre os artilheiros da competição, ficando na 5° posição junto a nomes como Jairzinho, Yazalde e Wolfgang Overath, e apesar da fraca campanha, as atuações de Sanon não passaram despercebidas, e logo após a Copa ele assinou com o tradicional Beerschot, da Bélgica.

O segundo gol de Sanon naquela Copa, bem menos comentado.

Por lá, as coisas começaram difíceis para o atacante, que além de sofrer contra a dura marcação dos defensores, sofreu também com a adaptação tática, não conseguindo compreender muito bem o que a equipe precisava que ele fizesse. Por sorte, o treinador do Beerschot, o notável ex-atacante e grande ídolo da equipe, Henri Coppens, enxergou o grande potencial de Sanon e não desistiu dele, fazendo-o atuar como zagueiro nos treinamentos para que entendesse melhor as dinâmicas e movimentos dos defensores. O resultado foi excelente, e de volta ao ataque, Manno começou a fazer gols com frequência e criar boas jogadas, mas o auge da sua passagem pela Bélgica veio em 1979, quando o clube chegou na final da Copa da Bélgica, contra o Club Brugge, que na época ainda não era o gigante nacional com que estamos acostumados. Em um jogo extremamente difícil, o título foi decidido com uma grande assistência de Sanon para Johan Coninckx, que fechou o placar em 1-0, garantindo ao Beerschot seu último título de primeira grandeza, tendo o clube, que é até hoje o 5° maior campeão do campeonato belga, encerrado as atividades há alguns anos. A aventura de jogador na Bélgica se encerraria no ano seguinte, com o jogador realizando 142 partidas e marcando 43 gols na liga belga. Ele culpou o Beerschot por um desfecho negativo em uma negociação com o Andelecht, retornando ao continente americano para atuar no Miami Americans, da segunda divisão estadunidense. Nesse meio tempo, Sanon tentou ainda levar sua seleção à Copa de 78, na Argentina, classificando-se para o Campeonato da Concacaf após dois empates por 1 a 1 e uma vitória por 2 a 0 contra Cuba, com o atacante marcando todos os gols, mas não conseguindo superar o México na competição final e ficando com um honroso 2° lugar.

Em Miami, Sanon passou apenas um mês, antes de se mudar para o San Diego Sockers a convite do treinador Ron Newman, que estava fazendo o mesmo caminho. A decisão se provou bastante acertada, e Sanon marcou 10 gols em sua primeira temporada na NASL(na época, a divisão principal americana), chegando a fazer uma dupla bastante inusitada com ninguém menos que o na época jovem, Hugo Sánchez (!), lendário jogador mexicano e ídolo do Real Madrid, que participava de um intercâmbio entre o San Diego e seu clube, Pumas, atuando nos Estados Unidos durante o verão. Sanon viveria ainda mais uma boa temporada no clube, antes de sofrer uma lesão no joelho que acabou por encerrar sua carreira em 1982, com apenas 31 anos de idade. Sanon encerrou sua carreira como o jogador que mais vezes vestiu a camisa da seleção haitiana(100 jogos), e como seu maior artilheiro, com 47 gols. Ele chegou ainda a atuar pela equipe de futebol indoor do San Diego Sockers, a maior do país na modalidade que se assemelha ao showbol e que já foi muito popular em terras americanas, sendo campeão da liga e marcando 8 vezes.

Após a aposentadoria, ele começou a trabalhar como treinador de equipes juniores ainda nos Estados Unidos, e em 1999 assumiu o cargo de treinador da seleção haitiana, classificando a equipe para a Copa Ouro de 2000, comandando a equipe no play off final de classificação e quebrando uma sequência de 5 edições de ausência da seleção no torneio. A equipe foi eliminada na primeira fase, terminando em último em um grupo que contava com Estados Unidos e Peru, com quem o Haiti empatou em 1-1. Ainda em 1999, Manno foi eleito o Atleta Haitiano do Século, superando nomes como Sylvio Cator, medalhista de prata nos Jogos Olímpicos de Verão de 1928, atestando sua grande importância para o esporte da ilha. Alguns anos depois, enquanto comandava a equipe de juniores do Ajax Orlando, foi diagnosticado com câncer de pâncreas, e em 2007 recebeu a Ordem Nacional de Honra ao Mérito, maior honraria concedida pelo presidente do Haiti, vindo a falecer no ano seguinte, em 21 de fevereiro de 2008, com 56 anos. Recebeu uma cerimônia de herói em Porto Príncipe, com mais de 20 mil haitianos presentes no Sylvio Cator para prestar homenagens ao maior futebolista que o país já viu, com seus colegas da seleção de 74 carregando seu caixão para dentro do campo, uma cena bastante emocionante. O governo haitiano votou e aprovou uma pensão vitalícia para a família de Sanon, em reconhecimento pelos seus serviços prestados ao país como jogador.

O triste momento da despedida.

Sempre preocupado com a situação do seu país, ele buscava incentivar que os jovens vislumbrassem uma melhora em suas vidas através do futebol, como o mesmo fez em seus tempos de jogador. Manno Sanon deixou três filhos, uma filha, um neto e quatro netas, além de sua esposa, Marie Suze Sanon, com quem foi casado por mais de 33 anos, mas acima de tudo, deixou um legado gigantesco para todo o povo haitiano, alcançando o status de uma verdadeira lenda. Em 2010, foi aberto pelo governo do Haiti uma academia de futebol batizada em seu nome, visando revelar novos talentos futebolísticos no país, assim como um campo de futebol com seu nome em Miami, na comunidade de Little Haiti.

O último monarca do Haiti, Faustino Soulouque, só governou até 1859, mas em Porto Príncipe, Pétion-Ville, ou qualquer canto do país, os milhares de apaixonados fãs de futebol do Haiti terão sempre um Rei, e o nome dele é Emmanuel Sanon.

Postado por Bernardo Dornela 18 anos, nascido e criado em Belo Horizonte e atleticano desde o berço. Com o tempo tornou-se também um fã do Liverpool e do Portimonense, de Portugal. Apaixonado por tudo que há de alternativo no futebol, em especial o praticado nos países nórdicos.