• ÍCONES ALTERNATIVOS #21 – O Diabo Boliviano
    10 de janeiro de 2018
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    A Bolívia é conhecida esportivamente como a terra onde se enfrenta as grandes altitudes, qualquer jogo realizado no país é motivo de pesquisa sobre o local da partida. “O Santos jogará a X mil metros acima do nível do mar contra clube boliviano”. Os clubes no país nunca alcançaram grandes feitos dentro do nosso continente e a seleção hoje é considerada uma das mais fracas da América, escassez de talentos e uma prospecção de um futuro pouco animador, este é o atual panorama. Mas nem sempre foi assim.

    Talvez poucos leitores lembrem, mas nos anos 90 a seleção boliviana teve o que talvez tenha sido sua melhor geração na história. Um plantel que alcançou a sonhada classificação para a Copa do Mundo de 1998 (sendo a última participação da seleção em Copas, datada de 1950) e que, após grandes vitórias, conquistou o respeito de toda a América do Sul. O líder deste time histórico era Marco Antonio Etcheverry Vargas e ele além de ser o maior jogador boliviano de todos os tempos, é também um dos melhores futebolistas a jogar em solo norte americano.

    Etcheverry começou sua carreira profissional logo aos 16 anos, no Destroyers, clube de seu país natal. Marco era um meia ofensivo, criativo e inventivo, logo se percebeu que ele era diferente demais dos outros jogadores e que dos seus pés saiam jogadas que o torcedor boliviano não estava acostumado a ver. Logo se destacou e foi contratado por um dos maiores times do país, o Bolívar. Com 20 anos e amadurecendo cada vez mais o seu jogo, Etcheverry continuava a encantar a todos com o seu futebol, nesta altura, já era presença certa na lista de convocados da seleção e mesmo jovem, assumiu o posto de um dos jogadores mais notáveis da liga.

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    Marco foi presença certa no onze inicial boliviano por muitos anos.

    Pelo seu jogo agressivo e abusado, ganhou o apelido de “El Diablo”. Logo chamou a atenção do velho continente, não era muito comum vermos jogadores bolivianos em grandes ligas europeias, ainda hoje não há tantos atletas do país por lá. Porém, o Albacete da Espanha (que na época disputava a primeira divisão nacional) acabou por comprar o meia apenas duas temporadas após sua transferência ao Bolívar.

    Marco não se adaptou muito bem ao futebol espanhol (fez menos de 25 partidas com a camisa do Albacete) e voltou para a América Latina apenas dois anos depois, em 1994, para defender as cores do Colo Colo do Chile. Mas 1993 não foi um ano tão ruim para o atleta, também foi o ano em que o meia se eternizou na história da seleção brasileira, ele carregou a seleção boliviana e impôs a primeira derrota da nossa seleção em eliminatórias para a Copa. O Brasil perdeu de 2×0 em La Paz para uma Bolívia inspirada e com direito a uma falha grotesca de Taffarel em chute do Diabo boliviano.

    E então veio o pior momento da trajetória de Etcheverry, a Copa do Mundo. O que deveria ser a coroação de um grande jogador, foi a desgraça de um ás. Marco chegou nos EUA se recuperando de uma lesão e não pôde iniciar a partida inicial de sua seleção contra a Alemanha, entrou no jogo faltando poucos minutos para o fim, para pegar ritmo. Entretanto, em uma entrada infantil no astro alemão Lothar Matthaus, foi expulso de campo quatro minutos após entrar, encerrando sua participação naquela Copa do Mundo de uma maneira incrivelmente lamentável. Ainda que tenha levado sua seleção a final da Copa América de 1997 (feito que não acontecia desde 1963), perdendo diante do Brasil, a marca daquele cartão vermelho insiste em acompanhar a história do jogador.

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    A Copa do Mundo acabou cedo demais para ele.

    Dois anos depois da fatídica Copa o meia ofensivo desembarca novamente nos Estados Unidos, desta vez, para atuar no time do DC United. Por lá, construiu um legado gigantesco e marcou a memória dos torcedores do DC e do americano fã do “soccer” em geral. No auge da sua forma física e técnica, trouxe três títulos da Copa MLS para o seu clube e uma CONCACAF Champions League, vencendo o Toluca-MEX na final. O reconhecimento individual foi tanto, que o meia foi eleito o MVP (melhor jogador) da temporada de 1998 e foi nomeado para integrar o melhor time de todos os tempos da MLS. Segundo dados do clube, o boliviano distribuiu 101 assistências e fez 34 gols em 191 partidas com a camisa do DC United. Um absurdo.

    O atleta chegou a jogar emprestado por poucas partidas a clubes como Barcelona-EQU, Emelec-EQU, e Oriente Petrolero- BOL, inclusive sendo campeão equatoriano pelo Barcelona e campeão boliviano pelo Oriente, isso enquanto estava fora de temporada nos EUA, algo como aconteceu com Thierry Henry e Beckham, poucos anos atrás.

    Etcheverry se aposentou em 2004 e levou consigo o talento de um dos maiores meias que a Bolívia já viu em sua história. Foi condecorado com uma medalha de honra ao mérito em 2006 pelo parlamento boliviano e até hoje é homenageado por torcedores do DC United. Um legítimo ícone alternativo e o único Diabo a ter um futebol dos deuses.

    Postado por Renan Castro Jovem de 22 anos, formando em administração, torcedor do Flamengo, natural do Rio de Janeiro e dono de três quadros: Vestindo o Futebol, Ícones Alternativos e Memória FC.