ÍCONES ALTERNATIVOS #19 – Luz, carrinho e ação
15 de agosto de 2017

 

O sonho de muitos jovens, a frustração de muitos adultos. Os contornos de um campo de futebol fazem disparar o coração de milhões de amantes do esporte bretão ao redor do mundo. Não diferente, a telinha do cinema é um convite para as mentes ansiosas por fazer parte do glorioso mundo da sétima arte. Ser um relevante jogador de futebol ou um ator de renome é a consagração máxima de grandes seres humanos. Vinnie Jones é um dos poucos que pode se orgulhar de ser os dois.

Jones é uma lenda do futebol britânico. Por bons e maus motivos. Nascido em Watford, começou a carreira no futebol em 1984 no Wealdstone, clube da quinta divisão inglesa.  Tinha 19 anos e dividia as atenções entre jogar futebol e carregar tijolos em uma indústria. Em 1986 foi emprestado ao IFK Holmsund, aonde ganharia seu primeiro título como profissional, a terceira divisão sueca.

Suas atuações chamaram a atenção do Wimbledon, que veio a contratar Jones ainda em 1986. Pagando a bagatela de 10 mil libras. Jones daria o pontapé inicial para o que os britânicos chamariam de “The Crazy Gang”. Aquele Wimbledon era rude, intimidador e extremamente violento. Vinnie Jones era tudo isso e mais um pouco.

Nem Cantona escapou de Vinnie Jones.

A equipe do Wimbledon era bruta, mas eficaz. Foram duas sólidas campanhas na Liga Inglesa (um sexto e um sétimo lugar) entre 1986 e 1988. No entanto, a grande glória viria na Copa da Inglaterra. Jones, ao lado do ainda jovem Dennis Wise e do artilheiro John Fashanu, se sagrou campeão do torneio em cima do Liverpool, atual vencedor da Liga Inglesa na época. A gangue doentia mais carismática da Inglaterra levava o clube a sua maior conquista na história. Uma das fotos mais emblemáticas é a de Jones irritando Paul Gascoigne, astro do Newcastle, em partida válida pela FA Cup.

A imagem é emblemática.

O Leeds amargava algum tempo na Segunda Divisão e precisava de alguém de força e imposição para tentar o acesso em 1989. Jones foi o escolhido, sendo vendido por 650 mil libras, um bom valor para a época. E deu certo. O Leeds venceu a competição e retornou a elite. Por incrível que pareça, aquela seria a temporada mais “light” do jogador. Foram apenas três cartões amarelos, sem qualquer expulsão.

Alegando ter perdido espaço no elenco, Jones novamente se transferiu em 1990, agora para o Sheffield United, comandado por seu ex-técnico no Wimbledon, Dave Bassett. O clube acabara de ser promovido junto ao Leeds. Jogou 35 jogos e ajudou seu antigo técnico a livrar o Sheffield do rebaixamento para a segunda divisão. Chegou a capitanear a equipe em algumas partidas e também deixou seu lado violento aflorar ainda mais. Ainda hoje detém o recorde de cartão amarelo mais rápido da história da liga inglesa, após uma solada criminosa aos cinco segundos de partida contra o Manchester City, em Janeiro de 1991. Uma legítima obra de Vinnie Jones.

Sobrou até para o pequeno mascote do clube.

Sua carreira nômade não mudava. O novo clube era o Chelsea, ainda longe da bonança do Século 21. Vinnie Jones já era um personagem folclórico, conhecido por toda a Grã Bretanha. Foram 44 partidas, quatro gols e mais encrencas dentro e fora de campo. Em uma partida da FA Cup contra o Sheffield United, seu clube anterior, conseguiu a proeza de levar um amarelo aos TRÊS SEGUNDOS de jogo. Chegou a arrumar confusão até mesmo com Eric Cantona, astro do Manchester United conhecido também pela personalidade forte.

Foi no Chelsea também que suas polêmicas explodiram fora de campo. Em parceria com uma emissora de TV da época, lançou a série intitulada “Football’s Hard Men”, onde se exaltavam os carrinhos violentos, as brigas e o modo grotesco de se jogar futebol. Ensinava a jogar de modo sujo e desleal. Isso pegou muito mal para Jones, que foi suspenso pela Federação Inglesa por seis meses. O período marcou a transição da idade antiga da Liga Inglesa para os passos da moderna Premier League.

Após a suspensão retornou ao Wimbledon, aonde atuou entre 1992 e 1998. Nesse meio tempo foi convocado pela primeira vez pela Seleção Galesa, algo possível pela nacionalidade de seu avô. Estreou em 1994 e realizou sete partidas, sendo inclusive capitão em algumas delas. Foram 171 jogos em sua segunda passagem pelo Wimbledon, com 12 gols marcados e uma quantidade enorme de cartões amarelos. Para finalizar sua carreira, uma rápida passagem pelo Queens Park Rangers, onde atuou como treinador-jogador. Foram apenas oito jogos pela equipe de Londres.

Com quase 400 jogos na carreira, recebeu mais de 100 cartões amarelos e 12 vermelhos. Podem parecer pouco, mas era um número absurdo já que o futebol praticado na Inglaterra na época já era violento. Apesar disso, Jones nunca foi rebaixado por qualquer clube onde atuou, capitaneou clubes, seleção e foi um dos maiores ídolos do Wimbledon. Mesmo com seu ímpeto tempestuoso, era muito querido em seus times. Ex-companheiros e técnicos sempre exaltaram sua lealdade e espírito de equipe em depoimentos e biografias. Sem dúvida é uma lenda.

Mas ser “apenas” um jogador de futebol conhecido não bastava para Vinnie Jones. Aposentadoria? Dinheiro? Luxo? Que nada. As novas aventuras do “vilão” britânico eram nas telas de cinema. Seu jeito explosivo era um prato cheio para filmes de ação com armas e cenas de violência. “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”, lançado em 1998, não poderia trazer algo mais familiar.  “Big Chris”, como seu personagem era conhecido, era um capanga de um dos mais perigosos bandidos de Londres. Sua principal característica era levar o filho pequeno para as suas missões. Parece algo que Jones faria, não?

Não havia melhor papel para o ex-jogador.

Nos anos seguintes atuou em outras franquias conhecidas, a principal delas “Snatch – Porcos e Diamantes”, do mesmo diretor Guy Ritchie. Um de seus personagens mais marcantes sem dúvida é Bullet-Tooth Tony, ou simplesmente Tony Dente de Bala. Um mercenário intimidador casca grossa com diálogos divertidos e que proporciona ótimas cenas. Não é que Jones é realmente talentoso?

Atuou em outros títulos famosos como “Penalidade Máxima”, onde interpretou um jogador de futebol na prisão com a missão de formar um time de detentos para enfrentar os guardas (anos mais tarde tendo o enredo utilizado para a paródia Golpe Baixo, de Adam Sandler), “A Senha: Swordfish”, ao lado de John Travolta e Hugh Jackman, “60 Segundos”, com Nicholas Cage e, em 2006, interpretou o aclamado Juggernaut (Fanático) em “X-Men: O Confronto Final”. Ainda interpretou um hooligan torcedor do Manchester United em “Eurotrip – Passaporte para a confusão”.

Até no X-Men Vinnie Jones já deu as caras

Mais recentemente participou das séries “Arrow” e “Elementary”, além de interpretar o chefe de segurança Drake em “Rota de Fuga”, de Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger. Outros títulos recentes englobam “Acerto de Contas” e “Emboscada”, com Dolph Lundgren, além de “Kingsman: O Círculo Dourado”, que deverá ser lançado ainda em 2017. Nada mal para um ex-jogador de futebol, não é mesmo?

Conta ainda com dois prêmios da revista britânica Empire Awards. Em 1998, como melhor ator estreante em “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” e em 2000 como melhor ator britânico em “Snatch – Porcos e Diamantes”. Em 2008, venceu como melhor ator coadjuvante em “Strenght and Honour”, pelo Action on Film Festival. Um currículo de deixar muito astro com inveja.

Sem dúvida nenhuma a figura de Vinnie Jones ficará gravada no mundo do futebol e das artes. Não como o melhor em ambos, mas como aquele que nunca participava de algo apenas para cumprir tabela. A necessidade de protagonismo e seu perfil explosivo proporcionaram ao mundo uma figura única que, pelo bem ou pelo mal, deixou seu legado em duas das artes mais amadas pelo ser humano: a tela do cinema e o campo de futebol.

Postado por Willian Bizarro 23 anos, formado em Comunicação Social (Jornalismo) pela Universidade de Araraquara (UNIARA). Afeano, palmeirense e torcedor do Liverpool, grande amante do futebol inglês e do interior paulista.