ÍCONES ALTERNATIVOS #05 – O nacionalista heróico
7 de novembro de 2015

Futebol & política. Pra muitos uma mistura errônea que só causa discórdia e torna o esporte menos divertido, pra outros é a personificação de um tipo de jogo que além de ser viciante, é consciente perante as coisas ao redor do mundo. Conheçam Zvonimir Boban, o nacionalista croata.

Nascido em 68, Boban iniciou sua carreira profissional em 1985 pelo Dinamo Zagreb, um dos maiores clubes da Croácia e famoso por revelar talentos ao mundo do futebol (recentemente revelou o meio campo Halilovic, que pertence ao Barcelona). Sua evolução no clube croata foi instantânea. Já na segunda temporada se tornava um titular incontestável do time, um dos pilares do esquema tático bem como o destaque individual. Não demorou pra assumir o posto de capitão da equipe.
Seu talento era aplaudido em toda a Iugoslávia, tanto que foi peça importante do time que conseguiu conquistar o mundial sub-20 em 87, sua carreira ascendia a passos largos. Boban já era dado como presença confirmada na seleção que iria a copa de 90. Porém, um evento marcante no campeonato nacional daquele ano seria crucial no futuro de sua carreira.
13 de maio de 1990, uma partida decisiva entre os dois maiores rivais do país na época, o Estrela Vermelha da Sérvia saia para encarar a equipe croata do Dinamo Zagreb. Inúmeros fatores eram preponderantes para tornar daquele encontro uma premissa de guerra campal: a violência dos ultras da Europa estava no auge, a Croácia buscava sua independência (mesmo que unilateral) da Iugoslávia, os dois times na ponta do campeonato…
Era uma tragédia anunciada.
No dia em questão, cerca de 3 mil torcedores sérvios viajaram a Zagreb com sangue nos olhos, as brigas já tomavam conta de toda a cidade, principalmente em torno do estádio. Com início do jogo, as duas torcidas começaram a se provocar com cânticos nacionalistas e ofensivos, com a pressão feita pelos ultras a barreira que separava uma torcida da outra se rompeu. Estava feito o estrago.
A polícia formada quase totalmente por sérvios, ao invés de tentarem dispersar os baderneiros, partiu pra cima da torcida do Dinamo, o que deu um tom mais dramático ainda para a situação. Era óbvio que a tensão política instalada no país foi fator determinante pra fazer a polícia se tornar parcial naquele confronto, algo vergonhoso. Com 21 anos e nervos a flor da pele, Boban continuou em campo defendendo alguns torcedores que usavam o gramado para fugir das pedras e cadeiras que eram arremessadas contra os croatas.
O meio campo por vezes tentou conversar com alguns policiais, entretanto após alegar ter sido xingado por deles (“é só mais um lixo como eles”, disse um policial sérvio) Boban não se conteve e partiu pra cima de um dos oficiais, desferiu uma joelhada digna de um lutador no meio do nariz do seu algoz. O golpe acabou quebrando o nariz do policial e o nome de Boban era ecoado por todo o estádio pela torcida que ainda estava presente.
Icônico
Como era de se esperar, ninguém saiu vitorioso daquela situação lamentável. Foram mais de 200 pessoas feridas ao todo, contando policiais + torcedores das duas equipes. 100 ultras foram presos. Já Boban, foi suspenso pela federação iugoslava por seis meses. O meio campo perdeu a antes garantida, vaga na copa do mundo, tudo pelo seu ideal. Começou ali uma panela de pressão que veio a estourar praticamente um ano depois na guerra pela independência da Croácia.
Em uma entrevista, o meia croata descreveu o episódio:
“Aqui estava eu, um cara público, preparado pra arriscar minha vida, minha carreira, e tudo que a fama poderia ter trazido. Por causa de um ideal”
Boban ficou até meados de 91 na Croácia, quando acabou se transferindo para o Milan por 8 milhões de euros. Com o início de uma guerra civil, não se via outra alternativa que não fosse ir jogar na Europa. Assim que chegou na Itália, o croata foi emprestado ao pequeno Bari. As três vagas estrangeiras já eram ocupadas pelo trio de ferro holandês, Gullit, Rijkaard e Van Basten. O meio campo conseguiu livrar a equipe do Bari do descenso, curiosamente no mesmo ano o Milan se sagrou campeão italiano daquele torneio.
Boban voltou ao Milan no ano seguinte, porém só foi desencantar tempos mais tarde em 1993, quando Gullit se transferiu para a Sampdoria e Van Basten se afastou após seguidas lesões no tornozelo. Como o destino não falha, o Milan acabou por trazer um dos maiores rivais do croata na época de Zagreb, o montenegrino Dejan Savicevic. Boban teve o amargo gosto de ter sido duas vezes vice para o Estrela Vermelha, cujo destaque era justamente o meio campo montenegrino. Ironia da vida.
A temporada 93/94 foi de fato um divisor de águas na carreira do croata, com time ainda em transição (da era coroada pelos holandeses) a equipe rossonera conquistou mais um escudetto. Com mais um nacional pra conta passou a rival local, Inter de Milão, em número de campeonatos nacionais. Como se já não bastasse, o Milan ainda se tornou o dono da europa ao bater o Barcelona na final da UCL de 94. 4X0 com autoridade.
O único percalço naquele ano foi a derrota no mundial interclubes pro encardido time argentino Vélez Sarsfield. Porém venceu a supercopa europeia e italiana posteriormente. Boban ganhou o coração do torcedores milaneses com seu futebol despojado, moleque, arrojado e bastante incisivo. Era rotina vê-lo lançar a longa distância com uma precisão absurda, seus passes de três dedos eram inconfundíveis. Costumava jogar com a camisa pra fora do calção, como um peladeiro nato, era um exímio cobrador de faltas. Adjetivos não faltavam pra definir o vistoso futebol do croata. Boban era o 10 que o mundo queria ver. Na temporada 94/95 a equipe se manteve em alto nível e chegou novamente a decisão da UCL, mas dessa vez foram derrotados pelo lendário Ajax que contava com o ex Milan, Rijkaard. O time italiano não foi páreo pro jovem time holandês que vinha encantando a Europa.
Com o revés contra os holandeses, o time italiano foi obrigado a contratar. Trouxe o liberiano Weah (que viria ser eleito o melhor do mundo posteriormente) junto com o já consagrado Roberto Baggio, com este salto de qualidade, foi o campeão italiano de 1996. Infelizmente o sucesso previsto não se alongou nos anos seguintes, com o Milan sendo o décimo primeiro colocado em 97 e décimo colocado em 98.
Entretanto na copa do mundo, Boban fez história com sua seleção (a já independente Croácia). A consagração veio na copa de 98, quando junto de nomes como Suker e Prosinecki, protagonizou uma das maiores surpresas em copas. Depois da ótima campanha na euro de 96, onde chegou as quartas de final, a Croácia tinha pela frente sua primeira copa do mundo. O planeta inteiro estava atento naquela seleção estreante que havia deixado uma ótima
impressão dois anos antes. E eles não decepcionaram. Passaram em segundo, nas oitavas tiraram a forte seleção Romena, nas quartas sapecaram nada mais nada menos que um sonoro 3×0 na respeitadíssima Alemanha. Foram as semifinais com muita moral, enfrentaram uma França que seria campeã mundial futuramente, chegaram a abrir o placar, mas infelizmente levaram a virada fatal. Dois gols do lendário Liliam Thuram.
Mesmo com esse “fracasso” a Croácia bateu a Holanda na disputa do terceiro lugar e ficou com a inédita medalha de bronze, assombrando o mundo com um time compacto e mortal, ainda de quebra, consagrou Davor Suker como artilheiro daquela edição, com 6 gols. Boban foi o líder em campo de um time que se entregava minuto após minuto, é emblemático o corte de cabelo do meia croata, que exibia um número 10 atrás da cabeça em alusão a sua camisa.
Suker abraçado a Boban
Voltando com a medalha de bronze e inspirado, ajudou o time do Milan a conquistar mais um campeonato italiano, este em 99, último título de Boban com a camisa do time de milão, por onde se eternizou com o lugar cativo no Hall da Fama do clube. O craque acabou se transferindo para o Celta de Vigo, time tradicional da Espanha, e por lá encerrou a gloriosa carreira em 2002 com menos de 10 partidas pelo time espanhol.
Seu último jogo com a camisa quadriculada da seleção aconteceu nas eliminatórias para a euro de 2000, onde infelizmente a seleção do craque croata não obteve a classificação. Boban sempre deu a vida em campo pelo país. Saiu da seleção de cabeça erguida e consciente de que havia deixado uma linda história ali.
Seu jogo de despedida, como não poderia deixar de ser, foi em Zagreb. Entre companheiros do time de bronze em 98, convidados famosos como o tenista Goran Ivanicevic e colegas de calcio como Rivaldo, Van Basten e Lothar Matthaus.
Depois do término de sua carreira como jogador, o croata se dedicou a vida académica. Se graduou em história pela universidade de Zagreb em 2004, sua tese para a conclusão do curso se chamou “Cristianismo no império Romano”.
Porém acabou seguindo uma linha um pouco diferente do que se anunciava, se tornou comentarista esportivo dos jogos da seleção croata pelo canal RTL Televizja e também é contratado pela SKY italiana, para comentar jogos do campeonato da velha bota. Além de tudo isso, também preside um jornal no seu país natal (Sportske Novosti) e possui uma coluna no famoso jornal italiano, La Gazzetta dello Sport.
Já na vida pessoal, Boban é casado com a designer de moda Leonarda Boban e possui 5 filhos, sendo QUATRO deles adotivo e um biológico. Seu hobby preferido é o tênis, joga ocasionalmente com seu grande amigo e já citado acima, o tenista Goran Ivanicevic.
O croata já descartou ser treinador pelo fato de alegar não possuir “nervos” pra desempenhar tal função. Sempre com a língua afiada, uma vez ou outra costuma soltar uma opinião pertinente sobre alguns casos marcantes, como quando Kaká disse não ao City para tempos depois, assinar com o Real Madrid:
“Estou muito aborrecido pelo modo como o Kaká falou sobre o amor eterno que o une ao Milan (quando disse não ao clube inglês), quando na verdade queria sair. Quando ele disse que queria ficar, estava mentindo”. Disse Boban em entrevista publicada pelo GE.
Ou quando alfinetou o craque português Cristiano Ronaldo logo após a final da UCL em que os merengues venceram o Atlético de Madrid, alegando que o atacante é apaixonado por si próprio, em matéria publicada pelo site trivia foot:
“O Ronaldo é um jogador fantástico e mostrou isso no Brasil, mesmo tendo desperdiçado uma série de oportunidades. Penso que o seu maior defeito é a maneira como olha para ele, e para a equipe. Na final da Champions marcou o 4-1 aos 120 minutos e celebrou como um louco. Essa foi a última prova de que está apaixonado por si próprio. As manchetes deviam ter sido sobre o Real Madrid e não do jogador.”
E para finalizar, encerro com um ponto de vista bastante notável do craque croata, ao meu ver uma citação fantástica sobre o futebol italiano como um todo, e a postura da seleção na copa no Brasil :
“A Itália tem vindo em queda nos últimos anos. Em tempo, foram a NBA do futebol, mas agora, tornaram-se um espetáculo de circo futebolístico mediano. Os clubes italianos venderam as suas estrelas e a equipe de Prandelli foi um reflexo disso. Parecia não saber o que fazer no relvado e como jogar. A seleção italiana sabia como vencer jogos, mas até disso se esqueceram. Acabaram por ser eliminados na fase de grupos, com uma defesa fraca, um meio campo lento e um atacante pateta como Mario Balotelli. Perderam a identidade.”
Boban venceu o totalitarismo em campo, venceu com o Milan praticamente tudo que disputou, assustou o mundo em 98 com sua seleção. Mas acima de tudo, Boban venceu por uma nação, e depois daquela joelhada, se tornou
um herói.

 

Postado por Renan Castro 23 anos, administrador, torcedor do Flamengo, natural de Nova Iguaçu - RJ, fã de aviação e dono de três quadros: Vestindo o Futebol, Ícones Alternativos e Memória FC.