• Gilson Alves: a história de uma hegemonia rubro-negra
    9 de agosto de 2017
    Categoria: Futebol e Nacional

    Foto: Thiago Furtado

     

    Nunca vi o Gilson sem que ele estivesse usando uma camisa ou um agasalho do Flamengo. Do time carioca ou do seu próprio, o Flamenguinho, de Tijucas, Santa Catarina. Além do bigodão grisalho que ostenta com a mesma frequência, as cores e o nome desse time são a primeira coisa que vêm à cabeça quando se pensa nesse sujeito. Calmo, de falas curtas, Gilson usava uma camisa do Clube de Regatas Flamengo e uma jaqueta do time de futsal do seu rubro-negro, quando me recebeu na manhã ensolarada do feriado de Corpus Christi para contar sua história.

    Aos 50 anos de idade, Gilson Alves divide o seu tempo entre o trabalho como motorista de caminhão tanque e as funções que acumula à frente do Flamenguinho: é presidente, diretor, treinador. Sua paixão pelo futebol, como é de se imaginar, remete à adolescência, quando jogava bola e já tinha seu próprio time, o Marfesa. Casado logo aos 18 anos, no entanto, Gilson deu um tempo dos campos. Apesar desse tempo, nunca abandonou o esporte. Quando o filho Filipe (22) passou a demonstrar interesse e habilidade com a bola, ele sempre esteve por perto.

    Gilson Alves (50) em seu traje habitual (foto: Thiago Furtado).

    Corria o ano de 2006 e Gilberto Archer, pai de Rafael, um amigo de Filipe, resolveu presentear o filho com um jogo de camisas. Mesmo sendo torcedor do Fluminense, ele fez o uniforme nas cores do rubro-negro carioca para agradar ao filho. Levando em consideração a rivalidade, o time foi batizado apenas de Mengo, como se isso amenizasse o sofrimento do pai.

    Reunindo uma molecada boa de bola, Gilson ficou encarregado de tocar o time, que começou disputando despretensiosas partidas amistosas numa quadra de futebol de areia. A organização que o responsável pela turma fazia questão de manter e as amizades dos garotos foram atraindo mais jogadores e logo a quadra ficava pequena para o time. O Flamenguinho, como passou a se chamar, migrou para o futebol de campo e passou a disputar jogos todo fim de semana.

    Por essa época, o time era formado por uma garotada bem jovem. A maioria dos meninos tinha em torno de 14, 15 anos de idade. Apesar disso, o entrosamento criado a partir dos jogos durante todo o ano deu uma identidade ao grupo. Já em 2007 o Flamenguinho disputou o Campeonato Municipal de Futebol Sub-17 de Tijucas. Ficou na quinta colocação. Um pouco mais experiente, em 2008, o time conseguiu chegar à final do campeonato, perdendo para o Areias, um dos clubes mais tradicionais da cidade.

    Gilson aparenta ter um senso de planejamento raro até nos grandes clubes brasileiros. O Flamenguinho mantinha a base, que começara cedo e, portanto, tinha longevidade no time. Jogava durante todo o ano, semanalmente, diferente dos outros times, que só se preparavam às vésperas do campeonato. Além disso, Gilson aumentava a dificuldade, propondo jogos contra times das categorias de base de clubes maiores, que treinavam diariamente. Ele lembra de enfrentar o Tupi de Gaspar, o Canto do Rio, de Florianópolis, o Carlos Renaux, de Brusque. O Flamenguinho chegou a disputar um campeonato Sul-Americano Sub-19, em Balneário Camboriú.

    O treinador conta que havia quem duvidasse que ele conseguiria manter o plantel. “Diziam que eles jogariam comigo durante o ano, mas no campeonato iriam pra outros times. Falei: não. Vou confiar neles”, lembra. O resultado viria no terceiro campeonato municipal disputado pelo time, em 2009. Numa reedição da final do ano anterior, o Flamenguinho derrotou o Areias e conquistou o primeiro título da sua história. A partir daí, o que surge é uma verdadeira hegemonia: o time tornou a ser campeão em 2010, 2011, 2012, 2013, 2015 e 2016. Com uma memória precisa, Gilson é capaz de recordar a trajetória de cada campeonato e os placares de todas as finais.

    2009 trouxe o primeiro título do Flamenguinho (foto: Thiago Furtado).

    Alguma coisa que chamava a atenção naquele time. O estilo de jogo era diferente. O entrosamento entre os garotos havia criado uma identidade baseada em um futebol técnico, vistoso. Além disso, o forte laço de amizade entre os jogadores, pais e o presidente-dono do time-técnico Gilson, colaborava para que tudo desse certo. “Eu buscava eles em casa pra ir jogar. Levava em algum lugar quando precisavam. Os pais estavam sempre nos jogos”, comenta Gilson, orgulhoso da relação próxima que mantém com seus jogadores.

    “Diziam que eles jogariam comigo durante o ano, mas no campeonato iriam pra outros times. Falei: não. Vou confiar neles”

     

    Sempre ávido por títulos, o Flamenguinho seguiu sua trajetória de sucesso: em 2012 conquistou o Campeonato Municipal de Futsal Sub-17 e, no campo, com o mesmo plantel que jogou o campeonato com limite de idade, disputou a Série B do campeonato municipal de adultos. Talvez tenha sido surpresa para alguns, mas o time foi vice-campeão da competição, credenciando-se à disputa da Série A no ano seguinte. Neste mesmo ano, mais um vice-campeonato entre os adultos, desta vez da Super Copa de Tijucas, uma espécie de Copa do Brasil da cidade. O ano que era anunciado como o fim dos tempos foi o mais vitorioso da história bem-sucedida do Flamenguinho.

    Apesar de não ter conseguido se manter na Série A, sendo rebaixado em 2013, o feito estava marcado. Um time sub-17 que geralmente conseguia bater de frente com times adultos. E esse perfil de time vencedor e organizado é responsável por poupar trabalho ao seu gestor. Depois de um tempo, os meninos passaram a procurá-lo para pedir oportunidade de jogar em seu time. “É uma sorte, não preciso correr atrás de jogador”, garante.

    Gilson se diz um sujeito sossegado fora de campo. Quando começa o jogo, no entanto, o negócio muda. “Sou meio loucão. Quando sai gol, pulo, me jogo no chão. Quem me vê dentro de campo não diz que sou eu”, sorri. As instruções, no entanto, são passadas com a tranquilidade que é peculiar ao cara que assume o papel de pai da turma: “não gostaria que gritassem com meu filho, então não grito com o filho dos outros. Sempre apoio ao invés de criticar quando alguém erra”, assegura.

    O Flamenguinho não disputava o campeonato adulto desde o rebaixamento, em 2013. Gilson cita alguns nomes, que jogam juntos desde o começo e agora movimentaram os amigos para reativar o time, que atualmente é o líder do seu grupo na Série B do campeonato. Alencar, Luiz Eduardo (Dudu), Vinícius, Betinho, Rafael. “Eles que se reuniram e quiseram voltar. Alguns até foram atrás de patrocínio. Sou muito grato a todos esses meninos pelo que eles sempre fizeram pelo Flamenguinho”, diz, com alegria evidente nos olhos.

    Desta vez, o mentor do time não é o técnico, porque os horários dos jogos conflitam com o trabalho de motorista. Ele deve voltar às loucuras à beira do campo no campeonato Sub-17, em que os jogos são disputados nas manhãs de domingo.

    Coleção de troféus guardada com carinho na casa de Gilson (foto: Thiago Furtado)

    Gilson está mexendo com os papéis para providenciar a aposentadoria. Vislumbra uma possibilidade de se dedicar integralmente à sua paixão. Quando se retirar do trabalho, planeja fazer do Flamenguinho um time ainda mais comprometido, que treine diariamente e, quem sabe, possa disputar campeonatos a nível estadual. Do responsável por uma história tão vitoriosa, não há como duvidar.

    Solícito, ao fim da conversa ele exibe um pequeno cômodo em sua casa que mantém como sala de troféus. O lugar está abarrotado de pôsteres, quadros e, sobretudo, pelas taças, provas materiais dos tantos títulos do Flamenguinho. Ali também estão os prêmios individuais do maior responsável pelo sucesso do time: Gilson foi eleito quatro vezes o melhor presidente de clube da cidade, na categoria sub-17.

    Colocamos os troféus para a varanda em frente à casa para fazermos algumas fotos. Gilson, que pode parecer meio sisudo nas imagens, é um cara extremamente gentil, que mesmo tendo criado toda essa história, faz questão de dividir os êxitos: “O Flamenguinho é todos esses meninos que sempre estiveram juntos. Não é só o Gilson”.

    Postado por Thiago Furtado Thiago Furtado, 28 anos, é acadêmico do Curso de Jornalismo. Há alguns anos dedica-se à poesia. Publica seus textos no blog poroesdecadernos.tumblr.com e desenvolve a exposição Poesias no Varal. É fundador e repórter no projeto documental Retratos de Porto Belo (retratosdeportobelo.com.br)