Galo x Leão: 48 anos depois, rivais locais voltam a se encontrar pelo estadual no Clássico Tu-Tu
23 de janeiro de 2019
Categoria: 4-3-3

Zagueiro Jair (ao centro) foi o autor dos dois gols da vitória do Tupi por 2 a 0, no clássico Tu-Tu de 1970, o último pela primeira divisão do futebol mineiro. Reprodução do blog Mauricioresgatandoopassado.

Relembre os clássicos que você vibrou e cantou junto com a sua torcida na arquibancada, também aqueles que você não pode ir ao estádio, mas ficou o tempo todo ligado na tela da TV ou com o ouvido colado no radinho, roendo as unhas com a tensão de enfrentar o rival. Você há de se lembrar, também, daquele gol decisivo, do lance inesperado e da tão dolorosa derrota, não é mesmo? Agora imagine o quão absurdo seria ficar décadas sem enfrentar seu rival. Os torcedores de Tupynambás e Tupi não precisam imaginar, pois faz 48 anos desde que as duas equipes juiz-foranas se enfrentaram pela última vez em uma partida oficial pelo estadual.

Felizmente para torcedores do Leão do Poço Rico e do Galo Carijó essa espera acaba na noite desta quarta-feira (23). Hoje será um dia muito especial na cidade de Juiz de Fora, localizada na Zona da Mata de Minas Gerais, com a disputa do clássico Tu-Tu na primeira divisão estadual após décadas. Esta noite no Estádio Radialista Mário Helênio será totalmente diferente das mais de 17 mil noites que se passaram desde 19 de abril de 1970, data do último confronto entre os rivais em uma partida válida pelo Campeonato Mineiro. Desde então, os dois clubes só se enfrentaram pelas categorias de base e jogos em amistosos, que nos últimos anos não foram nada frequentes.

Apesar de adormecida no futebol profissional, a rivalidade entre Tupi e Tupynambás é grande e tem mais de um século de história. Em 15 de agosto de 1911, o Tupynambás foi fundado em Juiz de Fora. Menos de um ano depois, em 26 de maio de 1912, foi a vez do Tupi Football Club nascer, inclusive com alguns dissidentes do Tupynambás entre os seus fundadores. O primeiro jogo do Leão do Poço Rico – como também é conhecido o Tupynambás por ter o leão como mascote e seu estádio, o José Paiz Soares, estar no bairro Poço Rico – foi diante do eterno rival Tupi. Naquela ocasião, as equipes empataram em 1 a 1. Desde então, foram 272 jogos no rico histórico desse tradicional clássico juiz-forano, com 128 vitórias do Galo Carijó, 76 triunfos do Leão do Poço Rico e 67 empates.

O Tupi foi bem mais presente no futebol profissional ao longo de sua história, tendo, inclusive, vencido o Brasileirão da Série D em 2011 e com outras participações em divisões nacionais e na Copa do Brasil, enquanto o Tupynambás teve longas pausas no profissionalismo. Isso explica as equipes não se enfrentarem há tanto tempo por competições oficiais. O Tupynambás foi vice-campeão mineiro em 1934, perdendo a final para o Villa Nova. Depois disso, o clube teve tentativas frustradas de voltar à elite futebol mineiro. Em 1969, não conseguiu arcar com os custos de disputar a primeira divisão. Já em 1983, o Baeta jogou a segunda divisão do mineiro, mas a campanha fraca fez com que o clube novamente deixasse o profissionalismo.

A última tentativa de voltar à elite do futebol mineiro havia sido em 2007, quando o Baeta disputou a Segundona Mineira – que na verdade é a terceira divisão estadual, já que a primeira é dividida em Módulo I e Módulo II – mas o clube não conseguiu o acesso, mesmo com um investimento relativamente alto e contratação de jogadores rodados, como o atacante Euller “o Filho do Vento”.  Com isso, o clube novamente deixou o futebol profissional e se focou nas categorias de base e em outros esportes, além da manutenção do clube social.

O LEÃO VOLTA A RUGIR

Muito se fala, com razão, que os clubes, independente do porte , devem gerir bem as suas categorias de base. O Tupynambás, em 2016, voltou ao futebol profissional graças a um garoto que passou pelo clube ainda nos primeiros anos de base.  O Baeta recebeu cerca de 800 mil reais pela negociação do lateral-direito Danilo, jogador da seleção brasileira e atualmente no M.City da Inglaterra.  Na época – após passar por Tupynambás, América Mineiro e Santos – Danilo atuava no Porto-POR. O sucesso em Portugal levou o gigante espanhol Real Madrid a pagar 35 milhões de Euros em 2015 para contar com o jogador.  Com o mecanismo de solidariedade da Fifa, os clubes considerados formadores – aqueles que o atleta atua entre os 13 e 23 anos – têm direito a dividir 5% do valor das transações, com o percentual dependendo do tempo que o atleta passou no clube e em que época. Como Danilo passou pelo Baeta só no começo da adolescência, a maior parte da quantia ficou com América-MG e com Santos, clubes que o lateral defendeu posteriormente. Ainda assim, o Leão do Poço Rico conseguiu retornar à Segundona Mineira com esse aporte.

Primeiro, agachado, à esquerda, Danilo defendeu o Tupynambás nas categorias de base (Foto: Tupynambás)

Com o dinheiro, em 2016, o clube disputou a segundona mineira e se sagrou campeão logo de cara. Já no Módulo II, a equipe bateu na trave na primeira tentativa, mas em 2018 conseguiu o acesso à primeira divisão do campeonato mineiro, o que possibilita o embate com o Tupi após 48 anos. A ascensão meteórica do Baeta se deve, também, ao trabalho de alguns personagens com passagens pelo Galo Carijó, como o dirigente e empresário Alberto Simão, que coordena o futebol do clube desde 2016 e, do lado de dentro do campo, do experiente atacante Ademilson. Simão passou pelo Tupi no começo desta década e foi importante na ascensão Carijó, que jogou a competição em 2016. Ademilson é o maior artilheiro da história do Tupi e um dos seus grandes ídolos.

ÍDOLO DE UMA CIDADE

Aos 44 anos, o atacante Adê, como é carinhosamente chamado pelo torcida juiz-forana, é o maior artilheiro da história do Estádio Municipal Radialista Mário Helênio, o principal palco do futebol de Juiz de Fora. Ademilson é um dos grandes ídolos da história do Tupi e, entre outros feitos pelo Alvinegro de Santa Terezinha, o atacante marcou o gol da vitória do Galo Carijó sobre o Santa Cruz, em 2011, que abriu o caminho para o título do Brasileirão da Série D, a mais importante conquista do clube. “O meu gol mais importante pelo Tupi  foi no jogo contra o Santa Cruz que a gente venceu aqui de 1 a 0. Acho que foi um gol importante na conquista do título da série D”, pontua Ademilson.

Em 13 de novembro de 2011, Ademilson entrou definitivamente para a história do Tupi e do futebol juiz-forano ao marcar da vitória Carijó no jogo de ida da final da Série D, contra o Santa Cruz. (Foto: Leonardo Costa)

Para se ter noção de quão ídolo ele é, os torcedores fizeram uma vaquinha em 2013 para poder construir um busto em sua homenagem. Mas, em 2015, Ademilson foi afastado do time após cobrar dívidas trabalhista do Tupi. No ano seguinte, o destino traria Adê de volta à Juiz de Fora. Convidado por Alberto Simão, o centroavante assinou com o Tupynambás. Adê se sente honrado em ser ídolo em dois dos três maiores clubes da cidade: “Ser ídolo dessas duas equipes para mim é muito gratificante eu fico muito feliz por poder alcançar esse status de ídolo, ainda mais em duas equipes da mesma cidade. Acho que poucos jogadores conseguem chegar num patamar desse e isso é muito importante para carreira de qualquer jogador, porque você fica marcado na história da cidade e isso ninguém tira de você, fica para sempre.”

Logo no segundo jogo dele pelo Baeta, ele fez dois gols diante do Venda Nova, na vitória por 3 a 0, fora de casa. Ao todo, Adê teve nove gols e terminou empatado na artilharia da segunda divisão do mineiro com Felipe Capixaba, do Valeriodoce. No módulo II, Ademilson seguiu jogando bem voltou a ser protagonista no acesso do clube. Aos 43 minutos da segunda etapa, Ademilson marcou o gol da vitória por 2 a 1, diante do América de Teófilo Otoni, que deu a vaga ao Baeta no Campeonato Mineiro da primeira divisão. “O gol lá nos últimos minutos que nos deu o acesso para primeira divisão acho que é um gol que vai ficar marcado para sempre”,  afirma Ademilson.

Aos 44 anos de idade, Ademilson voltará a jogar na primeira divisão estadual, desta vez vestindo vermelho e branco. O artilheiro que é, Ademilson já pensa em marcar no clássico, mas sempre respeitando o antigo clube pelo qual fez história. “Não pensei em comemoração caso eu venha a balançar as redes porque tenho muito carinho pelo  Tupi,  principalmente por seus torcedores, então se tiver uma comemoração vai ser com muito respeito da minha parte. Como eu disse, tenho muito respeito aos torcedores do Tupi”. O Tupynambás voltou com tudo à elite do estadual e na estreia atropelou o tradicional Villa Nova, por 5 a 1, em pleno estádio Castor Cifuentes, o “Alçapão do Bonfim”. Ademilson começou no banco, mas entrou na segunda etapa e fez dois gols, mais uma vez justificando o apelido “Ademito”, como há anos é chamado pelo torcedor Carijó e desde 2016 também é ovacionado nas arquibancadas pelos torcedores do Leão.

Ademilson marcou dois gols na goleada do Baeta na estreia do estadual

ALGO INCOMUM NO MÓDULO I

Essa será a 11ª vez que o Tupynambás disputa o estadual, apenas a quarta na primeira divisão. O Campeonato Mineiro de 2019 marca a primeira vez em mais de 10 anos que o Módulo I do mineiro terá dois times da mesma cidade do interior. A última vez que aconteceu foi em 2005, quando Mamoré e URT, ambos os clubes de Patos de Minas, jogaram na elite mineira. Já a última vez que Juiz de Fora teve mais de um clube na principal divisão do futebol de Minas Gerais foi há trinta anos, quando Tupi e Sport Club Juiz de Fora – outra tradicional equipe da cidade – participaram do estadual de 1988.

VALE TROFÉU

A bola vai rolar às 20h no Estádio Municipal Radialista Mário Helênio para o tão esperado duelo. Antes disso, às 18h, haverá um jogo festivo entre ex-jogadores dos dois clubes. O mando é o do Tupynambás, mas um acordo entre as duas diretorias fez com que o jogo tenha torcida e renda divididas. Devido ao valor histórico do confronto, que volta a ocorrer quase cinco décadas depois na primeira divisão do Campeonato Mineiro, a Prefeitura de Juiz de Fora, em parceria com a rede de Supermercados Bahamas, idealizaram dois troféus para a partida. O Troféu Radialista Mário Helênio, que ficará com o vencedor da partida. Em caso de empate, o troféu ficará com o time mais disciplinado. Já o prêmio Augusto Costa de Oliveira Valle será entregue ao melhor jogador da partida, eleito por integrantes da imprensa que trabalha na cobertura da partida.

Postado por Thiago Viana