Futebol tipo importação: Deu Liga – Parte 1
16 de julho de 2016
Categoria: Entrevistas

Afim de tornarem as viagens a trabalho menos cansativas, três jornalistas decidiram começar um canal no youtube, para falar única e exclusivamente do futebol europeu. O diferencial, no entanto, está no tipo de abordagem, já que ela acontece, de fato, perto dos clubes do velho continente. Por conta disso o slogan “futebol tipo importação”. Temos por aqui a noção de que é lá que praticam o esporte bretão da melhor maneira e trazer isso para cá, de maneira mais próxima, é tudo que muita gente sempre quis para acompanhar. Batemos um papo muito bacana com Ulisses Neto, Felipe Rocha e Caio Correa, idealizadores do projeto. Nessa primeira parte trazemos perguntas mais direcionadas ao trabalho, jornalismo e canal. Lançaremos em breve o restante da conversa, com mais perguntas sobre o ramo, e alguns pitacos sobre o melhor futebol do mundo. Confere aí:


1. Para começar, expliquem um pouco do que é o “Deu Liga”, para quem não conhece. Como surgiu a ideia? Por que esse nome?

Ulisses: O Deu Liga surgiu pra tornar o nosso trampo menos cansativo. Temos uma produtora em Londres, chamada Maracanã Media, e trabalhamos para agências de conteúdo da Inglaterra, como Reuters e SNTV. E também para veículos brasileiros como Esporte Interativo, ESPN Brasil e globoesporte.com. Por causa desse trabalho, viajamos o tempo todo cobrindo jogos de diversas competições. Só que esses veículos tradicionais têm uma demanda muito específica – sobretudo as agências – e no final sentíamos que estávamos vivendo uma experiência incrível ao ver o Bayern de Munique na casa do Olympiakos, ou seguindo o Barcelona no Chipre, e aquilo se resumia a um relato do jogo ou uma entrevista coletiva dos técnicos. Por isso criamos o Deu Liga. Pra contar do nosso jeito as histórias que vivemos quando estamos correndo atrás da bola. Isso quebrou a nossa rotina que, acredite, é legal na primeira temporada. Na segunda você prefere ver o jogo na TV tomando um negocinho hahaha.

O Deu Liga renovou o nosso fôlego e fez com que voltássemos a aproveitar as viagens. O nome surgiu porque na Europa é liga pra cá, liga pra lá. E no Brasil é uma expressão típica para falar de times que deram certo. Logo, não tinha muito o que se fresquear.

 

O vídeo de apresentação do “antigo” Deu Liga.
2. Além do canal no youtube, estamos acostumados a vê-los na cobertura da Uefa Champions League, pelo Esporte Interativo. Como funciona essa parceria? 
Ulisses: Sim, começamos a aparecer na TV por causa do EI, numa parceria que teve início em agosto do ano passado. Mas trabalhávamos no futebol europeu bem antes disso e o Deu Liga já estava no ar também há um ano. Sempre aproveitamos as viagens que fazemos para todos os nossos clientes para gravar alguma coisa para o Deu Liga, pelo motivo que expliquei acima. E o Esporte Interativo, por ter um perfil mais aberto a conteúdos não convencionais, já utilizou material pensado exclusivamente para o Deu Liga, como por exemplo no vídeo que fizemos sobre o clima em Leicester antes do título, e uma partida de pebolim com o Kenedy do Chelsea (abaixo). Acho que a pegada mais leve do EI combina bem com o Deu Liga em alguns momentos, tanto que vários dos nossos colegas na emissora são fãs do canal, e a recíproca é verdadeira!

 
3. Aqui do Brasil, temos a impressão de que tudo na Inglaterra funciona e que a liga é perfeita. No que se refere ao tratamento com imprensa – sabemos que vocês já trabalharam por aqui – quais as principais diferenças entre os dois países?
 
Ulisses: Esse é um ponto muito interessante que os colegas brasileiros ‘esquecem’ de levantar quando ficam repetindo que na Europa é tudo organizado e que no Brasil é tudo uma vergonha. Sim, aqui é tudo organizado. Ao extremo. Os clubes são completamente fechados, não se pode acompanhar treino durante a semana nunca, exceto em vésperas de jogos da UEFA, por imposição da entidade. E mesmo assim são apenas 15 minutos de acesso para a imprensa, que acaba vendo só aquela tradicional roda de bobinho. Jogadores nunca falam com jornalistas fora dos clubes. Os brasileiros são os únicos que fazem isso, e somente para a imprensa conterrânea. Alguns clubes, como o Bayern de Munique, por exemplo, sequer dão credenciamento para veículos que não tenham os direitos de transmissão do campeonato. É comum as assessorias de imprensa censurarem entrevistas e determinar que algumas perguntas não podem ser feitas. Porque os clubes têm suas TVs oficiais – e ganham muito dinheiro com isso –  eles restringem cada vez mais o acesso da imprensa, porque vêem os veículos como seus concorrentes.
Nada disso existe no Brasil. Os jogos por aí são uma verdadeira ‘festa do caquí’. As emissoras de rádio, por exemplo, não pagam direitos de transmissão, algo impensável na Europa.Todos os veículos podem filmar e transmitir os gols do Brasileirão por causa da Lei Pelé, outra situação que seria uma aberração para um clube inglês. Aí os clubes abrem as portas para os repórteres todos os dias. Na maioria dos estádios, basta ter a carteirinha de cronista esportivo para ter acesso aos jogos. Então, na minha opinião, o Brasil não tem que ficar olhando tanto para a Europa nesse aspecto porque as realidades são muito diferentes. Claro que falta organização por ai e deixar tudo para a dona dos direitos de transmissão organizar não é o ideal. Mas, ao mesmo, o futebol brasileiro ainda é muito mais democrático que o inglês. Disso não tenho dúvidas.
4. Apesar de sermos (ou não mais) o “país do futebol”, o que, para vocês, explica o fato de não termos grandes canais (de cunho jornalístico) sobre o esporte no youtube? Falta interesse ou qualidade de material?
Caio: Acho que é um tema de choque de gerações. Enquanto os nascidos antes dos anos 90 encaram o futebol com mais seriedade e respeito com as outras torcidas e clubes, a gurizada pós-tetra gosta mais da zoeira e da corneta. Muitas vezes o conteúdo que eles preferem consumir é relacionado ao humor e aos memes. Os ”tiozinhos” chatos ficam mais na pegada de querer saber por que ganhou, por que perdeu…
Claro que existem excelentes exceções, mas a maioria mesmo quer avacalhar com os amigos, colegas de trabalho. O espaço da Zoeira está muito bem representado, estamos tentando preencher o espaço que ficou carente desde que algumas revistas de futebol deixaram de publicar semanalmente.

 

Agora sim: o atual Deu Liga. O canal tenta preencher uma lacuna que ainda existe no youtube brasileiro: falar de futebol com seriedade (na medida do possível)
5. Nos programas do canal, principalmente no Zona Mista, vocês são muito descontraídos e sempre deixam claro qual o time do coração. Como vocês veem essa “necessidade” que se tem por aqui de imparcialidade? Para os brasileiros, parece que o comentarista não pode torcer para ninguém. Acham que revelar o clube realmente atrapalha? 
Felipe: Acho que não deveria atrapalhar. O futebol é pra se divertir, pra trazer energia boa. Esse negócio de ter raiva dos rivais, ver o outro como inimigo, é um sinal claro de que as coisas não vão bem. Se um jornalista coloca o clube do coração acima do dever jornalístico, ou quando um
torcedor passa a desconfiar de um jornalista só porque o profissional torce pra tal equipe, não me parece um caminho saudável. Um dos meus heróis no jornalismo, o Juca Kfouri, apesar do mau gosto na escolha do time, segue sendo um professor da área.
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Fiquem atentos aqui no 4-3-3 para a segunda parte dessa entrevista com o pessoal do Deu Liga.Acompanhe o trabalho dos caras clicando aqui. 

Postado por Andrew Sousa Formando em Jornalismo justamente pela paixão pelo esporte, sente enorme prazer em poder escrever sobre o que ama. Apaixonado por um bom domínio e alguns jogadores ruins, vive o futebol desde o primeiro dos seus vinte anos.