Futebol à Poesia: Amar
13 de março de 2018
Categoria: 4-3-3

Fogueiras.

“Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas. – O mundo é isso – revelou. – Um montão de gente, um mar de fogueirinhas. Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; Mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo” – O mundo, Eduardo Galeano.

Leia também: Futebol à Poesia – Relembrar

Acho que o texto poderia ser apenas essa citação, mas preciso contar uma reflexão que tive e uma história digna de Eduardo Galeano (não chega a tanto, mas ele ia ouvir). Se um dia, querido leitor, algum estranho te perguntasse inesperadamente: “Por que você ama o Futebol?”, o que vocês responderiam?

No dia 26 de Fevereiro de 2018, os Deuses do Futebol quiseram que eu fosse o escolhido a responder tal pergunta. Confesso, talvez os desapontei ou não, quisera o calor infernal de Recife e a ansiedade de voltar para casa depois do primeiro dia na Universidade me atrapalhasse. Estava esperando meu ônibus na parada, e um senhor bem arrumado aproximou-se de mim. O senhor me lembrava alguém muito sábio, mal sabia que aquele homem era quase um Mestre dos Magos, sim, o Mestre dos Magos – irei explicar o porquê.

A conhecida figura do mestre dos magos.

O meu querido Mestre dos Magos, veio de fininho e perguntou sobre a camisa que estava vestindo. Na hora, tinha até esquecido qual era minha vestimenta, mas logo notei: era a camisa de Magrão com a seguinte frase “O maior da história”. O velhinho simpático comentou que concordava com a frase, e nós dois conversamos sobre os feitos desse humano chamado Alessandro Beti Rosa, vulgarmente conhecido como Magrão. Porém, em um determinado momento da conversa, o senhor diz que sou apaixonado por Futebol e pelo Sport, e faz uma pergunta inesperada no momento: “Por que você ama o Sport? E por que ama o Futebol?“. Respondi a primeira coisa que veio na mente, fui inocente, falei que meu pai e meu irmão amam também, e não teria de ser diferente comigo.

Creio que caí na armadilha do Mestre dos Magos, ele já esperava aquela resposta, pois nem deu tempo para terminá-la, que ele emendou “Então o amor não é seu ?”. O meu ônibus chegou e quando subi nele não via mais o velhinho (brincadeira), nos despedimos e desejei o melhor para ele. O senhor, por sua vez, desejou que eu continuasse amando.

Há perguntas sem respostas, respostas sem perguntas e perguntas com mais de uma resposta. Essa pergunta tinha uma resposta, uma única resposta. Por que amar Futebol? A resposta está na pergunta, amar, tão simples que nem notei no momento, o acaso me provocou essa reflexão, Futebol é amar, Futebol é feito por gente, por isso o texto de Galeano. Futebol é um mar de fogueirinhas. Finalmente, concluí: nunca amei o Futebol por ser apenas um esporte, amo o Futebol porque o Futebol tem minhas recordações, amo Futebol porque é feito por sonhos, amo o Futebol porque é feito pelas pessoas e para as pessoas. Amo o Futebol porque amo amar.

Me pergunto: “Por que no esporte feito por amor, há tanto ódio? Será porque amor e dor rimam?”. Caetano já dizia não há necessidade de rimar e dor, assim como não há necessidade de existir ódio no Futebol. Por isso deixo essa reflexão, esse pequeno spoiler para o próximo texto do Futebol à Poesia. Caso você não saiba o que é esse projeto, é um projeto singelo de fazer um Futebol com mais poesia e amor.

Sendo sincero, queridos leitores, esse texto permaneceu por um tempo na minha gaveta da procrastinação e durante esse período ocioso, aconteceu uma tragédia: o falecimento do capitão da Viola, Davide Astori. Seria injusto com Astori se não o mencionasse nesse texto, ele é a prova do que esse esporte é, ele é a prova que no Futebol o amor predomina, e que o sentimento de empatia é sinônimo de Futebol.

Vibramos amor por ti, Astori.

Agradeço pelo carinho e amor dado por vocês, agradeço ao Mestre dos Magos, agradeço a torcida da Viola por me lembrar que a empatia existe. E empatia é agradecer. Obrigado .

Postado por Renan Cunha Graduando em Jornalismo por ser apaixonado pelo Futebol, mesmo sem saber dominar uma bola. Gosta de se passar com filosofia e poesia. Crê piamente que esses dois mais o futebol formam uma bela triangulação.