• Desabafo de André Gomes prova, mais uma vez, que o rendimento do jogador não depende só de sua qualidade
    12 de março de 2018
    Categoria: Futebol e Internacional

    Jogador deu forte desabafo nesta segunda-feira.

    Após duas excelentes temporadas no Valencia e destaque pela seleção de Portugal, André Gomes era especulado em grandes equipes da Europa. Antes de fechar com o Barcelona pela bagatela de € 35 milhões, o meia chegou a ser dado como certo no Real Madrid, maior rival da equipe catalã. A alta expectativa em torno de seu futebol, no entanto, logo se transformou em decepção para a maioria da torcida.

    Ainda que utilizado constantemente, André Gomes não tem muito crédito com os culés. Seus erros irritam, assim como a postura dentro de campo, por vezes em ritmo bem mais lento que seus companheiros. Com tudo isso, um universo de críticas se formou em torno dele. Quieto, o português não costuma dar entrevistas. Nesta segunda-feira, no entanto, finalmente se abriu. E deixou claro que o baixo rendimento tem motivos bem maiores do que critérios técnicos e táticos.

    Não me sinto bem em campo. Não estou desfrutando o que posso fazer. A sensação que tenho nas partidas é ruim“, disse, em entrevista forte concedida ao portal Panenka. A fragilidade psicológica com que se encontra dentro dos jogos oficiais reflete também nos treinamentos, admite:

    Treinando estou muito tranquilo. Obviamente tem alguns dias que estou um pouco mal de confiança, até nos treinos se nota. Você sabe que sofreu. Talvez porque joguei um ou dois dias antes e ainda estou com a imagem do jogo, que não me permite seguir aditante. Mas nos treinamentos me sinto bem com meus companheiros“, conta.

    Tentando entender qual é seu problema, André Gomes fez uma espécie de “retrospectiva”, mas não compreende onde as coisas começaram a dar errado no Barcelona: “Os primeiros seis meses foram bons, mas logo as coisas mudaram. Talvez a palavra não seja a mais correta, mas se transformou em um inferno, porque comecei a ter mais pressão. Com a pressão eu vivo bem. O que eu não consigo viver bem é com a pressão que coloco em mim mesmo“, pontuou, antes de seguir o desabafo deixando claro que, quanto mais pensa sobre a situação, mais sofre:

    Pensar demais me dói. Porque eu penso sobre as coisas ruins e, mais tarde, tenho que fazer e estou sempre sentido. Embora meus colegas me apoiem muito, as coisas não funcionam da maneira que eles querem. Eu me bloqueio. Não me deixo livrar da frustração que tenho. Então, o que eu faço é não falar com ninguém, nem incomodar ninguém. É como me sentir envergonhado“.

    Valverde tenta recuperar confiança do atleta.

    No calor das cobranças por resultado, muitas vezes não pensamos que são seres humanos dentro de campo. Recentemente, abordamos aqui a depressão de Nilmar e como ela repercutiu na imprensa. André Gomes foi extremamente corajoso de expor esses sentimentos agora, mas há quanto tempo lida com eles em silêncio? A questão é tão complicada que ele chega a dizer que tem medo de sair de casa: “Já me aconteceu mais de uma vez de não querer sair de casa. Penso que as pessoas podem me ver e tenho medo de sair na rua por vergonha“, desabafou.

    Ciente da situação de seu jogador, o Barcelona tenta dar confiança ao português. Nessa semana, Valverde fez questão de deixar claro que conta com o futebol dele. A fragilidade do atleta, no entanto, faz com que até elogios se tornem um peso: “Eles me dizem que “vou com o freio de mão”. E o que mais me custa é ter consciência disso. Me incomoda que digam que eu posso fazer muitas coisas boas. Eu me pergunto: “por que eu não faço?”“, finalizou.

    Uma entrevista forte e muito triste, que escancara o quão importante é ter um acompanhamento psicológico ao lado de jogadores de futebol. André Gomes pode merecer críticas dentro de campo, mas parece precisar de muito mais ajuda fora dele. Que a torcida o abrace e não use esse desabafo para o pressioná-lo ainda mais.

     

    Postado por Andrew Sousa Formando-se em Jornalismo justamente pela paixão pelo esporte, sente enorme prazer em poder escrever sobre o que ama. Apaixonado por um bom domínio e alguns jogadores ruins, vive o futebol desde o primeiro dos seus vinte anos.