Foi eterno enquanto durou
9 de agosto de 2019
Categoria: 4-3-3 e Futebol e Nacional

Foto: Vinnicius Silva/Cruzeiro

Uma das bandeiras que mais tremulam no jornalismo esportivo brasileiro é a da continuidade do trabalho. Jornalistas, ex-jogadores, comentaristas, enfim, todos os envolvidos no cenário futebolístico do país clamam por isso. Na última quarta-feira, o relacionamento entre Mano Menezes e o Cruzeiro chegou ao fim. Após 1.108 dias no cargo, 235 jogos, sendo 112 vitórias, 69 empates e 54 derrotas e dois títulos da Copa do Brasil, o técnico gaúcho, em comum acordo com a diretoria celeste, entregou o cargo.

Durante os três anos em que esteve no comando da equipe, Mano Menezes teve por característica priorizar os torneios eliminatórios, um trunfo do treinador, que tem uma carreira solidificada por esse tipo de competição. Os jogos mais duros, aqueles de prender a respiração, sempre estiveram presentes na carreira de Mano.

Com um futebol reativo, característico da escola gaúcha, Mano foi longe na Copa do Brasil com o XV de Novembro-RS, em 2004, quando surgiu para o cenário brasileiro, chegando até às semifinais. Com o Grêmio, foi vice-da Libertadores. Com o Corinthians, um vice-campeonato e um título da Copa do Brasil. Após a passagem traumática (e polêmica) pela Seleção, engrenou trabalhos conturbados. O Flamengo, no início da era Bandeira de Mello, com poucos investimentos; o Corinthians na ressaca pós-Tite; e o Cruzeiro após dois títulos brasileiros e brigando para não cair. Salvou o clube celeste, com a melhor campanha do segundo turno de 2015 e recebeu uma proposta milionária do Shandong Luneng. Sete meses depois, Mano retorna ao Cruzeiro. A história a gente já conhece; duas Copas do Brasil e no Brasileiro chegou apenas a um quinto lugar em 2017.

A relação da torcida celeste nunca foi a melhor possível com Mano Menezes. O futebol praticado pelo Cruzeiro, austero, que pensa primeiro em não sofrer do que em marcar gols, irritou parte da torcida ao longo de toda a passagem do treinador. Diversas vezes, durante o Brasileirão, a cabeça de Mano foi desejo de alguns torcedores. E o treinador sempre deixou claro a sua preferência pelas competições eliminatórias. Os títulos maquiavam a insatisfação que esteve sempre presente.

Neste momento, existem torcedores satisfeitos com a demissão de Mano Menezes; por outro lado, há quem pense que a situação do clube é reflexo da crise administrativa que assola o Cruzeiro e que o treinador é o menor dos culpados em meio a tanta confusão.

As crises minam o relacionamento. Querendo ou não, mesmo tentando blindar o elenco, o momento conturbado internamente afeta o desempenho da equipe em campo. Afinal, e se o pior acontecer com a empresa em que trabalho? É totalmente aceitável que isso afete, mas não é justificativa para não ter gana de vencer.

Mas Mano não pode ser isentado do momento complicado. O Cruzeiro passou de um elenco que tinha como principal característica a saída em velocidade, no contra-ataque, de forma fatal, que aproveitava as poucas oportunidades ofensivas que tinha, por questão de característica, a um time de futebol pobre, apático e pouco efetivo. Falta confiança. Não tem construção de jogo, jogada ensaiada, não sabe o que fazer com a bola nos pés. Isso irrita o torcedor, e com razão.

Mano saiu no momento correto, com tempo de salvar o time que se encontra na zona da degola e que precisa de novos ares. Tanto ele, como o clube. Foram três bonitos e vitoriosos anos, que entram para a história do clube como um capítulo a ser lembrado.

Postado por João Vitor Nunes Jornalista no interior de Minas, formado pela Universidade Federal de Ouro Preto. 22 anos. Atleta recém promovido ao sub-óbito.