Experiência e missão cumprida – Vinícius Eutrópio e sua passagem pelo Bolívar
23 de agosto de 2018
Categoria: Entrevistas

 

Apesar da universalidade do futebol, o esporte bretão tem inúmeras culturas e realidades diferentes ao redor do globo. Mesmo próximos, países distinguem estilo de jogo, método de trabalho e principais ideias sobre a modalidade. É o caso de Bolívia e Brasil, por exemplo. Acostumado a trabalhar em solo brasileiro, o técnico Vinícius Eutrópio aceitou o desafio em janeiro deste ano, quando foi anunciado como técnico do Bolívar, maior clube do país sul-americano.

“É bem diferente. Para a gente era um desafio. Primeiro, a minha contratação foi feita por um dono. Teve uma entrevista em Miami, onde eu expus meu trabalho com vídeo, foto e tudo mais, durante três horas. Ele entrevistou espanhóis e argentinos, e optou por mim. Foi interessante que ele me pediu para deixar um legado, coisa que não acontecia com os outros treinadores. A questão cultural foi muito rica. Seguro, pessoas amáveis e trabalhadoras. Acrescentou muito a minha carreira“, destacou o técnico, que ficou no clube até o início do mês de junho.

Mesmo com o curto período de casa, Vinícius deixa o Bolívar com sensação de dever cumprido. O legado, que lhe foi cobrado, ficou. Fora das quatro linhas, o brasileiro desenvolveu vários setores importantes para o clube: “Lá, eles tem 32 treinadores na base. Cada semana vinha uma dupla trabalhar comigo. Desde o Sub-10, time feminino, base. Eles participavam das reuniões, viam os treinos. Todos trabalharam comigo, coisa que não acontecia lá e também não acontece aqui no Brasil. Eu também faço por aqui”, destacou.

Também criei um setor de análise de desempenho, que não tinha, e levei um brasileiro. Agreguei e treinei dois bolivianos para isso também. Hoje eles tem tudo isso lá. Filmamos todos os treinos, montamos protocolo de treinamento, quilometragem, todos os dados. Deixamos a parte administrativa e de inteligência organizada”, complementou.

Diante deste cenário, é até estranho que imaginar que Eutrópio tenha sido demitido, certo? Pois bem, a rescisão não foi pelos resultados esportivos ou administrativos, cobrados assim que foi contratado. Bancado pelo dono do clube, o brasileiro não era o preferido do presidente e de dirigentes, que tinham clara preferência por nomes argentinos ou uruguaios – países de muita influência no estilo de jogo dos bolivianos.

“Esportivamente, o objetivo era ir o melhor possível na Libertadores e tentar o tricampeonato boliviano. Na Libertadores fomos muito bem (ficaram em terceiro pelo saldo de gols e garantiram vaga na Sulamericana) e no campeonato, caímos na semifinal para o time que era do presidente da Federação. Teve uma polêmica grande e seria impossível. Então, esportivamente, acredito que fomos bem“, valorizou.

A mudança no treino foi mais porque eles tem uma escola mais argentina e uruguaia, com jogo mais físico e de ligação. Eu implementei mais essa questão de posse de bola. E eu acredito que esse time tinha essa característica, por isso que tivemos bons números”, acrescentou, destacando a mudança de filosofia que implementou.

Filosofia de Eutróprio chegou a ser destaque no país: “Traz jogo bonito”, diz manchete.

Apesar da sensação de missão cumprida em diversos sentidos, Vinícius deixou a Bolívia com um ‘gosto de quero mais’. De olho no futuro do clube e até mesmo do futebol do país, o ex-técnico da Chapecoense vinha tentando alterar um fator bem diferente da cultura local: a “noção de idade” de jovens jogadores.

“Eu tinha mais dez ou 11 jogadores entre 22 e 25 anos. Eu ia mudar o conceito do clube, porque lá, com essa idade, eles ainda são novos. Eu ia emprestar todos esses jogadores e subir cinco jogadores com 18 anos. Porque na base não tem boas condições de treino. Eles iam trabalhar comigo, seguir jogando no aspirantes. Então, daqui dois anos, eu ia antecipar a idade deles. Íamos mudar um pouco esse ciclo”. 

Mesmo ainda novos para o futebol local, alguns nomes dessa faixa de idade, para Eutrópio, teriam futuro no futebol brasileiro – sendo muito bem trabalhados e evoluindo em vários aspectos, obviamente: “Saavedra, que esteve no Goiás jogando como lateral, mas eu coloquei ele como segundo volante e foi nosso principal destaque; o Justiniano, volante também, muita qualidade; Pedraza, um quarto zagueiro de 1,93 com muita velocidade e técnica, e o Torres, que é o lateral-esquerdo e tem muita qualidade. Claro, todos eles com questão a se acertar ainda”.

Para Eutrópio, Saavedra seria uma boa aposta para times do Brasil – jovem já passou pelo Goiás.

“Acredito que se viessem para um bom time de Série B, médio, em um ano seriam jogadores interessantes. Eles tem essa coisa do jogador brasileiro de dez anos atrás, essa questão técnica, com molejo, sem tanto essa questão tática. Aqui eles iriam evoluir bastante”, complementou.

Com toda a experiência na Bolívia e, claro, na Libertadores, Eutrópio volta ao Brasil de olho no mercado. A espera de oportunidades na Série A ou B, o técnico se vê no auge da carreira – o profissional, vale lembrar, acumular trabalhos na Chapecoense, Ponte Preta, Figueirense, Estoril-POR, Santa Cruz, entre outros.

Eu digo que estou no melhor da minha carreira. Eu não sou novo demais, não sou velho. Sou dessa nova geração, inclusive professor de cursos da CBF, mas com a experiência de um cara vivido há muito tempo. Me considero em um momento de bastante lucidez e certeza dos caminhos do meu trabalho”, concluiu.

Vinícius Eutrópio, de branco e ao centro, é professor de cursos na CBF.

Confira o restante da entrevista com Vinícius Eutrópio

O que encontrou no Campeonato Boliviano? Qual o nível tático do torneio?

A liga tem muitos treinadores estrangeiros. Não tem muitos treinadores novos. Precisa crescer muito em termo de conceito, de princípio de jogo. A maioria precisa trabalhar um pouco mais nesse sentido. Com relação ao futebol, eu me surpreendi um pouco mais em termo de qualidade dos atletas. Se eles conseguissem melhorar categoria de base, eles iam formar muitos jogadores e transformar a seleção em uma equipe mais competitiva.

Mudou o treinamento para aproveitar melhor a altitude?

O que eles gostam de fazer é muita pressão no início, para o outro time cansar. Eu não mudei, fiz a mesma coisa que fazia no Brasil, mas com uma intensidade e um volume maior. Para a gente não ter o fator altitude só durante 15, 20 minutos. Sendo intenso o tempo todo, naturalmente você ia crescer no jogo. O adversário naturalmente sente muito.

Muito se fala da influência da altitude para times brasileiros. O contrário acontece?

Se cai a nível do mar, com calor e umidade, realmente sente muito. Tem os dois lados. Contra o Delfín, chegamos com três dias de antecedência para se adaptar. Empatamos e conquistamos o primeiro ponto de um time boliviano no Equador. E ainda tivemos duas bolas na trave.

Eutrópio é bastante conhecido pelo bom trabalho na Chapecoense.

Depois de uma tendência a nomes jovens no Brasileirão de 2017, acredita em um movimento reverso com a volta de nomes como Felipão e Cuca?

Eu acho que cada equipe tem uma necessidade. Tem momentos e equipes para tudo. Se o Palmeiras contratou o Felipão, é porque eles sabem qual a necessidade básica e emergencial. Infelizmente no Brasil tem poucos times, e um deles é o Corinthians, que vem de dez anos fantásticos, que sabe o que quer. Isso eu passei na Chapecoense. Quando você tem o planejamento e sabe onde quer chegar, você obtém resultado. Acredito que são decisões emergenciais.

Postado por Andrew Sousa Formando em Jornalismo justamente pela paixão pelo esporte, sente enorme prazer em poder escrever sobre o que ama. Apaixonado por um bom domínio e alguns jogadores ruins, vive o futebol desde o primeiro dos seus vinte anos.