Um furacão de esperança: a escolinha do Atlético Paranaense no Quênia
22 de maio de 2018

As cores rubro-negras viraram sinônimo de sonho para os pequenos quenianos. Foto: Divulgação/Endeleza.

Onze jogadores vestidos com as cores rubro-negras preparam-se para entrar em campo. Ao fundo, a torcida não para de entoar seu famoso canto. “Furacão, eô, Atlético ôô”. O clima é de decisão e o palco do espetáculo está lotado. O jogo não é na Arena da Baixada. Nem mesmo dos comandados de Fernando Diniz.

A quase 10 mil quilômetros de Curitiba, os pequenos alunos da Escola Furacão de Mugae, no Quênia, pisam na quadra de terra para mais uma partida. Mais do que uma amiga, a bola se tornou obsessão. O sonho é usar dela para voar longe e, quem sabe, ouvir a torcida atleticana em um dos estádios mais modernos do Brasil.

O projeto da equipe paranaense em solo queniano é pioneiro. Nenhum outro clube no Brasil tem uma escolinha na África. Por meio de parceria com a Endeleza, o Atlético faz bem mais do que permitir que garotos sonhem com o futebol: auxilia na alimentação e na educação dos matriculados – alunos entre a quarta e sétima série podem integrar o time.

“A cada início de ano das aulas (na Escola Primária da Endeleza), realizamos um processo seletivo, em que os alunos são recrutados considerando seu nível de habilidade com o futebol e desempenho e frequência escolar. Quando eles vão para o time, precisam manter um mínimo de 75% de presença nas aulas regulares. Além disso, são avaliados pelo treinador a cada ano com seu comprometimento nos treinos e evolução. Atualmente, o número de alunos da Escola Furacão é de 25, sendo que temos capacidade de expandir isso para até 50 alunos com a estrutura já existente“, explica Letícia Usanovich, gerente de projetos da Endeleza, que desenvolve projetos no país desde 2012.

Em abril deste ano, o CAP arrecadou recursos para a Escola Furacão diretamente com torcida atleticana. Na esplanada da Arena da Baixada, a Endeleza e o clube venderam rifas para garantir a alimentação dos alunos de Mugae – com R$ 10, o torcedor garante 27 refeições a um dos pequenos quenianos. Como parte da ação, os atleticanos puderam viver na pele o que era a realidade das crianças antes da escola chegar – assista abaixo. 

“A aceitação da torcida foi muito boa. Não só deles, mas das mídias, dos clubes, da própria CBF, que veio nos procurar e quer fazer algumas parcerias. Vamos fazer novas ações. A premissa é que essas ações sejam contínuas e constantes. Queremos arrecadar mais para que essas crianças sejam bem atendidas e tenham as melhores condições possíveis“, pontuou Roberto Bonnet, secretário do Conselho Deliberativo e Diretor Responsável pelas Escolas e Ações Sociais.

Fotos conquistaram o clube

Vendo as imagens do projeto já em execução, é impossível não se encantar pelos alunos da Escola Furacão. E foi justamente assim que a parceria surgiu. No início de 2017, um membro do Departamento de Marketing do Atlético Paranaense doou camisas do clube para a Endeleza, que levou os itens ao Quênia e fotografou algumas crianças vestindo-os.

“Quando o material foi mostrado para o clube, surgiu o interesse em apoiar ainda mais o desenvolvimento dessas crianças. Eles se encantaram pelo nosso projeto e tiveram o desejo de começar uma escola social no Quênia, dentro dos projetos da Endeleza“, conta Zé Seleme, presidente da organização.

A ONG, vale destacar, desempenha um trabalho há mais de dois anos na Escola Primária de Mugae, onde auxilia com o pagamento de alimentação e dos salários de professores e demais funcionários. A intenção do projeto é tornar a escola em algo sustentável por meio da própria comunidade. O auxílio do Atlético chega, então, como forma de complementar esse trabalho.

“No início eles ficaram receosos, mas foi extremamente rápido depois. Conseguimos os materiais e transportamos para Mugae. Foi uma questão de dois meses para fazermos isso. De uma exposição de fotos, então, nasceu a escola em Mugae“, completou Bonnet.

Imagens cativaram o Atlético Paranaense – e seguem encantando quem as vê. Foto: Divulgação/Endeleza.

Funcionando desde o dia 21 de julho, o projeto logo recebeu seu primeiro auxílio do Atlético. Inicialmente, uniformes, chuteiras, bolas e materiais de treinamentos foram levados ao Quênia. A realidade começava a mudar em Mugae. No Brasil, vale lembrar, o CAP também desenvolve uma série de projetos sociais com crianças, tendo escolinhas em grande parte do Paraná.

Corações (quase) rubro-negros

 

Apesar do canto típico da torcida já estar na boca da comunidade de Mugae, a intenção é ampliar ainda mais a ligação do povo queniano com o Atlético. Ainda sem estrutura para transmitir as partidas da equipe, a Endeleza e o clube miram ganhar cada vez mais o coração dos alunos da Escola Furacão.

Nós queremos uma aproximação bem maior. Aquelas músicas, os hinos do Furacão, os cantos da torcida. Isso faz parte para que eles conheçam, desenvolvam nosso marca e sejam torcedores do Clube Atlético Paranaense. Em contrapartida, damos tudo aquilo que é possível para que eles realizem seus sonhos. Se não como jogador, na vida, ao estudarem e buscarem perspectivas futuras, vendo que através do futebol, não se tornam só esportistas, mas cidadãos”, afirmou o dirigente.

“Infelizmente, pela falta de energia elétrica e acesso a internet, a gente não consegue uma estrutura para aproximar eles do futebol jogado aqui, tornando-os torcedores efetivos do clube. Mas, por estar lá, sendo o único clube olhando para eles, tenho certeza que já temos o coração e o apoio dessas crianças“, completou Zé Seleme.

Sonhos do Brasil à África

Desenvolvendo-se no campo de chão batido, os pequenos quenianos sonham com os grandes palcos do futebol mundial. Entre os espelhos, muito brasileiros. Os craques do nosso país ilustram o imaginário dos jovens jogadores, que veem no esporte uma grande chance de mudar suas vidas.

Eles gostam muito de treinar. Sempre que estão jogando na escola, me contam que querem ser como Neymar, Fernandinho, Firmino, Ronaldo, Ronaldinho e outros. Eles querem ser jogadores. Quando veem na televisão, dizem que querem jogar lá”, contou o técnico Peter Nchebere, que convive com a criançada no dia a dia de treinos.

 

Os sonhos, no entanto, não são exclusividade dos meninos de Mugae. Enquanto ídolos brasileiros inspiram na Escola Furacão, o nome de grandes africanos também ilustra os sonhos do Atlético Paranaense, que tem planos de trazer meninos do projeto para Curitiba.

“Queremos expandir o projeto. O nosso sonho é trazer crianças aqui para o Brasil, além de dar mais apoio na estrutura e na operação lá em Mugae. A logística é complicada, mas nada que com o tempo nós não possamos ir fazendo. Queremos muito mais. Trazes essas crianças. Quem sabe nós achamos um Salah, um Eto’o, um talento oriundo do Quênia. Um diamante a ser lapidado“, pontuou Bonnet.

Os planos para o futuro

Educação e futebol: fatores que podem mudar a vida das famílias de Mugae. Foto: Divulgação/Endeleza

Em Mugae, a aceitação das famílias com a Escola Furacão foi a melhor possível. No esporte, pais e mães enxergam a possibilidade de um futuro melhor para seus filhos. Apesar da clara satisfação com o projeto, a Endeleza e o Atlético Paranaense não acreditam que o dever já está cumprido. A intenção é expandir as atividades para outras comunidades. Nesse processo, meninas também ganhariam seu espaço.

“A criação de novas unidades da Escola Furacão no Quênia está diretamente ligada à replicação do modelo da escola sustentável da Endeleza. A medida que o modelo tiver sucesso e pudermos levar para outras comunidades, a Escola Furacão vai junto. No médio prazo, estamos planejando abrir uma filial da Escola Furacão dentro de outra instituição que também já temos anos de parceria e onde proporcionamos acesso a educação secundária à meninas em situação de vulnerabilidade“, ressaltou a gerente de projetos Letícia Usanovich.

Além de abraçar novos horizontes, a Endeleza quer, obviamente, melhorar o que já tem. A vontade da organização é, assim que possível, plantar grama no campo de chão batido em que os garotos treinam. A construção de vestiários, melhoria na cozinha e materiais de ainda mais qualidade também estão nos planos. Resta, no entanto, capacidade financeira para executar cada etapa desse processo.

É um trabalho de longo prazo. Vontade de fazer temos, mas as condições financeiras ainda não permitem o desenvolvimento completo que gostaríamos de ver por lá“, afirmou Zé Seleme.

Endeleza e CAP querem melhorar condições da Escola Furacão no Quênia. Foto: Divulgação/Endeleza.

Por parte dos garotos, não há pressa. Para quem jogou por muito tempo com bolas improvisadas, a estrutura atual já os permite sonhar. E para quem nos dá uma aula, sorrindo mesmo em meio a tanta adversidade, isso é mais do que suficiente. Que diamantes brutos saíam de Mugae para o mundo. Chutando uma bola ou não. Nesse caso, afinal, o futebol é detalhe. E um dos mais belos detalhes possíveis.

Quando vou para lá, ganho uma recarga de energias gigantesca. Essa capacidade espontânea que eles tem de serem felizes, não importando as circunstâncias, é inspirador. Com certeza é um combustível para seguir fazendo o que a gente faz”, finalizou Letícia.

Você também pode ajudar

Para ajudar a Endeleza e as crianças da Escola Primária de Mugae, você pode fazer uma doação clicando aqui.

Postado por Andrew Sousa Formando-se em Jornalismo justamente pela paixão pelo esporte, sente enorme prazer em poder escrever sobre o que ama. Apaixonado por um bom domínio e alguns jogadores ruins, vive o futebol desde o primeiro dos seus vinte anos.