Emiliano Sala: a história de um talento que nos deixou cedo demais
8 de fevereiro de 2019
Categoria: 4-3-3 e Futebol e Internacional

 

No dia 22 de Janeiro o mundo do futebol prendeu a respiração. O avião que levava o atacante argentino Emiliano Sala da França para o País de Gales, onde se juntaria aos novos companheiros do Cardiff City, desapareceu dos radares. Na última quinta-feira, 7 de Fevereiro, o reconhecimento de seu corpo trouxe a confirmação da já esperada tragédia. Como forma de homenagem à vida de Emiliano Sala, o Blog 4-3-3 decidiu contar toda (e não só alguns poucos detalhes que são relevantes para a grande mídia) a história de sua carreira, do começo ao fim.

Nascido na cidade de Cululú, na província de Santa Fé, Argentina, Emiliano é filho de Horacio Sala e Mercedes Taffarel, tendo um irmão, Dario, e uma irmã Romina. Durante a infância, teria sido torcedor do Independiente e tinha como ídolo o grande Gabriel Batistuta.

Poucos anos depois de seu nascimento, a família se mudou para a pequena comuna de Progreso, onde começou a jogar pelo clube local, o San Martín de Progreso, por onde esteve até os 15 anos de idade. Rapidamente chamou a atenção de um olheiro, que o levou para a cidade de San Francisco, em Córdoba, para atuar no Proyeto Crecer (Projeto Crescer), que servia como uma espécie de captação de jogadores para o Real Mallorca, da Espanha, e o Bordeaux, da França. 

Mas antes de chegar no futebol francês, onde faria praticamente toda a sua carreira, Sala viveu uma experiência pra lá de aleatório e muito pitoresca. Na temporada 2009/10, foi convidado por Maurício Vaschetto, um companheiro argentino que também fora formado do Proyeto Crecer, para atuar no modestíssimo FC Crato. O pequeno clube português da região de Alentejo disputava na época (e ainda hoje) a primeira divisão do Campeonato Distrital da Associação de Futebol de Portalegre, equivalente ao quarto nível do futebol em Portugal. Com apenas 19 anos, Sala ficou pouco tempo, mas deixou sua marca no Crato. Fez alguns jogos amistosos e um único e memorável jogo oficial, um dérbi contra o Gatefense que acabou em 4-0, com dois gols do argentino.

O modesto FC Crato, onde Sala desfilou seu bom futebol

O treinador-jogador do clube na ocasião, Luís Leandro, em entrevista sobre o caso, declarou que Sala foi “o melhor avançado” que viu em sua carreira, brincando ainda que “percebia-se logo que estava perdido no Alentejo”. Apesar do grande sucesso (e talvez até por causa dele), o jogador ficou muito pouco no clube, deixando-o cerca de dois meses após sua chegada ao alegar que voltaria para Argentina para resolver problemas com sua namorada. Em 2010-11, porém, ele se mudou para a França, ingressando no Bordeaux e dando início a sua trajetória em território gaulês.

Primeiros passos do argentino na França foram no Bordeaux.

Na chegada ao novo clube, ele passou um pequeno período vivendo com o companheiro de equipe Valentín Vada, e seu pai, Marcelo, treinador da equipe jovem, sendo ambos oriundos da mesma região da Argentina. Apesar de se destacar com a equipe reserva, Sala não conseguia muitas chances na equipe principal, e após tentativas falhas de empréstimo fez finalmente sua estreia na temporada 2012-13, em um jogo contra o Lyon pela Copa da França perdido por 3-1, em que ele entrou no minuto 105 no lugar do brasileiro Jussiê. Na sequência, após quase acertar um empréstimo para o futebol espanhol, uma mudança de planos fez com que ele acertasse com o US Orléans, do Championnat National, equivalente a terceira divisão francesa.

Com o modesto clube, Sala viveu sua primeira temporada de destaque no futebol profissional, marcando 19 gols em 37 aparições pela Liga e ajudando o Orléans a conquistar um confortável oitavo lugar na tabela. O treinador Oliver Frapolli, que havia pedido sua contratação, descreveu o argentino como “o melhor jogador do time, sem dúvidas”. De volta ao Bordeaux, ele foi novamente emprestado, subindo um nível e indo representar o Chamois Niortais, também conhecido como Niort, da Ligue 2.

A diferença de nível entre as duas competições foi um empecilho para Sala na primeira metade da temporada, mas ele logo achou sua forma e marcou, em suas últimas 12 partidas pelo clube, 11 gols, incluindo seu primeiro hat-trick. No total, foram 20 gols na temporada, sendo 18 deles na Liga, estabelecendo um novo recorde de gols em uma única temporada pelo Niort, que terminou a competição em 5° lugar, a apenas 6 pontos da promoção para a Ligue 1, campanha que até então passou longe de ser repetida.

A boa temporada não passou despercebida pelo Bordeaux, e ele foi recompensado com uma extensão contratual de dois anos e sendo chamado pelo treinador Willy Sagnol para iniciar a temporada 2014-15 com a equipe principal. Em sua primeira partida como titular, contra o Monaco, ele marcou seu primeiro gol pela equipe, convertendo um pênalti na vitória por 4-1. Esse, no entanto, acabou por ser seu único gol em 11 partidas pelos Girondinos.

Seguiu-se assim mais um empréstimo para Emiliano, que foi cumprir o restante da temporada no recém-promovido Caen, com a missão de substituir Mathieu Duhamel, transferido do clube. Lá ele teve a companhia de jogadores muito talentosos, como Thomas Lemar e N’Golo Kanté, e se encaixou bem. Seu primeiro gol pela equipe veio num memorável empate por 2-2 contra o PSG, e no total foram cinco tentos em 13 partidas, ajudando o clube a garantir a permanência e um confortável 13° lugar.

No Caen, começou a dar bons indícios do que estava por vir.

De volta ao Bordeaux, ele não permaneceu no clube, mas suas atuações não passaram despercebidas e o Nantes, também da Ligue 1, o contratou pela pechincha de cerca de 1 milhão de euros. Em 2015-16 a sua trajetória no Nantes começou um pouco lenta, mas ainda sim ele terminou a temporada como o maior artilheiro da equipe, com cinco gols. O Nantes teria recusado, ainda em janeiro, uma proposta do Wolverhampton que levaria Sala para a Inglaterra já naquele momento por 3 milhões de euros. Mas a aposta em manter o jogador se provou certeira, e na temporada seguinte ele marcou 12 vezes pela Ligue 1, maior marca no clube desde Olivier Monterrubio, em 2000-01. Em 2017-18 Sala repetiu a marca da temporada anterior, garantindo-se como artilheiro da equipe nas suas três temporadas consecutivas.

Em 2017-18 as coisas não começaram da melhor forma para Sala, que não contou desde o princípio com a confiança do recém-chegado treinador Miguel Cardoso, que preferia dar a Kalifa Coulibaly a posição no comando do ataque. Após marcar gols vindo do banco, porém, ele recuperou a posição e se manteve em boa forma. Em outubro, no último dia da janela de verão, ele quase rumou aos turcos do Galatasaray, mas o negócio acabou dando errado. Miguel Cardoso deixou o Nantes, sendo substituído por Vahid Halilhodzic, mas o prestígio e a forma de Sala se mantiveram em alta. Ainda em Outubro ele marcou um hat-trick contra o Toulouse em uma vitória por 4-0, o primeiro jogador do Nantes a fazê-lo desde Mamadou Diallo em 2006. No fim deste mês ele foi votado o “Jogador do mês”, com quatro gols marcados em três partidas. No início de Dezembro ele estava empatado com Kyllian Mbappé na artilharia da Ligue 1, ambos com 12 gols.

No Nantes, Sala virou uma estrela

No dia 19 de Janeiro de 2019, Sala assinou com o Cardiff City, da Premier League, por cerca de 15 milhões de libras e um contrato de três anos e meio. O atacante se tornou a contratação mais cara da história do clube galês, superando a contratação do chileno Gary Medel, contratado por 11 milhões de libras junto ao Sevilla, em 2013. Alguns jornais especularam que uma cláusula no contrato de Sala com o Nantes resultaria em 50% do valor da transferência indo para os cofres do Bordeaux, seu primeiro clube profissional, mas essa informação foi negada pelo próprio clube.

Completados seus exames médicos com o Cardiff, Sala voou de volta para Nantes na manhã do mesmo dia 19, num voo arranjado pelo agente Mark McKay. Apesar de ter sido convidado pelo treinador Neil Warnock para assistir a partida do Cardiff contra o Newcastle, ele decidiu ir à França para se despedir dos companheiros pela última vez e buscar alguns bens pessoais. A intenção do jogador era retornar ao País de Gales no dia 21, visando participar de sua primeira sessão de treinamento com o novo clube.

No dia 22, porém, foi confirmado que o avião que transportava Sala e o piloto, os mesmos que fizeram a viagem de ida à Nantes, estava desaparecido. Ao longo das pouco mais de duas semanas desde o acidente, buscas foram encerradas, retomadas, sem nenhum sucesso. Um áudio perturbador, enviado pelo jogador antes do desastre, foi revelado de forma polêmica pelo jornal argentino Olé. As buscas submarinas começaram, e no dia 3 de fevereiro foram encontrados os destroços do Piper Malibu que transportava o jogador e o piloto. No dia seguinte, foi confirmado que havia um corpo entre os destroços, que foi resgatado.

No dia 7, quinta-feira, a polícia do condado de Dorset, da Inglaterra, confirmou o corpo como sendo Emiliano Sala. O luto que se estende por Emiliano Sala é global. Não só sua família e amigos, os torcedores do Nantes, do Cardiff, e de todos os outros clubes onde deixou sua marca choram, mas todos os apaixonados por futebol ao redor do globo, que sentem mais uma vez a partida daqueles responsáveis por nos trazer a maior alegria da vida.

Descanse em paz, Emi.

Nos deixa um jogador que teve interrompida uma carreira que ainda prometia muito, prestes a tornar realidade um sonho. Mas nos deixa também um ser humano humilde, trabalhador e querido, que vai deixar imensas saudades. Que descanse em paz, Emiliano Sala.

Postado por Bernardo Dornela 18 anos, nascido e criado em Belo Horizonte e atleticano desde o berço. Com o tempo tornou-se também um fã do Liverpool e do Portimonense, de Portugal. Apaixonado por tudo que há de alternativo no futebol, em especial o praticado nos países nórdicos.