Doença futeboleira
17 de julho de 2018
Categoria: 4-3-3 e Futebol e Seleções

Reprodução/Gazeta do Povo

Mediu a pulsação pela terceira vez em menos de um minuto, depois voltou a se concentrar nas batidas do coração, dessa vez já bem mais acelerado. Percebia que também suava, muito mais do que nos dias anteriores; mas não sentia febre – e isso poderia ser um bom sinal. Também andava mais irritadiço, bem mais impaciente do que fora a vida toda. Dava invertidas grosseiras nos amigos que tentavam uma gracinha, desconversava com certo asco quando alguém perguntava como foi o dia no trabalho, e estava até parando de comer pizza – seu prato favorito – aos sábados, como de costume.

“Qual era o problema?”, perguntava a si mesmo. Já estava há três meses sem ingerir tanto açúcar, começara a fazer exercícios, dois litros de água estavam sendo poucos no dia… “Ah, deve ser a pizza, isso é pressão alta”, pensava. “Não, isso não é. Pressão não faz alguém suar desse jeito”, argumentava contra si mesmo.

Decidiu então procurar um médico, a incerteza estava deixando tudo muito pior. Marcou a consulta e foi ao encontro de alguém que pudesse dar uma resposta. Quando chamado à sala do doutor, entrou rapidamente e já sentou em uma das cadeiras. “Já vem sentindo os sintomas há quanto tempo?”, perguntou o médico, com certa tranquilidade na voz. “Há duas semanas, mais ou menos. Cada vez fica pior.” “E piorou no último domingo, certo?” – o médico já falava com um discreto sorriso no rosto. “Sim, foi o dia em que os sintomas aumentaram”, confirmou o rapaz.

O doutor escrevia no receituário com calma, mas parou quando o paciente perguntou qual era o nome da doença que possuía. “Fica tranquilo, casos como esse seu aumentaram muito nos últimos dias. Não vai te matar.” O médico levantou a cabeça e fez a pergunta que evitaria qualquer exame posterior, laboratorial ou de imagem. “Por acaso, tudo isso começou no dia 29 de junho, aquele primeiro dia sem jogos da Copa do Mundo?” O rapaz estava confuso, mas acenou a cabeça positivamente para o doutor. “E nos dias doze e treze de julho tudo ficou insuportável, não é mesmo?” Novamente, sem mover os lábios, confirmou o que o clínico suspeitava. “O senhor está sofrendo de Acopalite moderada, como outros que vieram hoje mesmo em meu consultório.” “É grave?”, antecipou o paciente, preocupado. “Há vários níveis, o seu ainda está em um estágio médio. Quando a fase de grupos da Copa começou e havia partidas todos os dias, os sintomas não se manifestaram. Quando não houve jogos, eles atacaram impiedosamente. Já adianto que não tem cura, mas há tratamento e uma trégua temporária acontecerá daqui há mais ou menos quatro anos. Com o fim do mundial, a Acopalite ataca como um vírus, desordenadamente; um verdadeiro martírio pra quem ama futebol…”

“Como posso fazer o tratamento? É caro?” – interpelou o paciente. “Não, não. Vou receitar alguns remédios genéricos para você. É só consumir Copa do Rei, duas partidas por semana, Copa da Inglaterra, três vezes, e Copa do Brasil, somente às quartas-feiras. Isso já deve dar uma aliviada. E nada de rever as partidas da Copa do Mundo, elas trazem nostalgia e os sintomas atacam!”, sentenciou o médico, enquanto terminava de escrever os nomes dos medicamentos.

“Bom, então vou seguir o tratamento, já que essa tal de Acopalite é incurável. Vou sentir falta do mundial da Rússia, doutor”. O médico encarou o rapaz de olhar tristonho, cerrou os lábios e soltou um saudoso “eu também”. O paciente pegou a receita médica, agradeceu pelo diagnóstico, deu as costas e abriu a porta para sair, quando o doutor pediu para que respondesse apenas mais uma coisa. “Ei, você acha que em 2022 o hexa vem? O que achou das atuações do Paulinho? Senta aí, vamos conversar!”.

Postado por Rudiney Freitas Estudante de Jornalismo apaixonado por esportes, em especial pela mais imperfeita perfeição criada pelo homem, o futebol. Procura entendê-lo também como fenômeno social e nega até a morte que tudo “é só um jogo”. Twitter: @rud1ney