Do campo aos palcos – brasileiro vira celebridade na Letônia com futebol e rap
2 de abril de 2018
Categoria: Entrevistas

 

Disputar competições internacionais por toda a Europa, se profissionalizar no interior paulista e trilhar a carreira na Letônia, se tornando campeão da copa local e conquistando a fama pioneira no rap em território báltico. Um cenário bastante peculiar que rende ótimas histórias. O brasileiro Felipe Gabriel dos Santos Xavier passou por todas essas etapas, e com apenas 23 anos se consolida como um dos bons valores do futebol letão.

A trajetória de Felipe começou aos nove anos em uma escolinha de futebol paulistana, a Corinthians do Butantã. Aos 12 anos entrou para o conhecido projeto paulistano Pequeninos do Jockey, famoso por revelar jovens talentos. Ficou de 2007 a 2011 no grupo, que disputa as principais competições da base no mundo todo. Atuou em torneios pela Finlândia, Suécia, Noruega e Dinamarca, se sagrando campeão da Sunder Cup, vice da Helsinki Cup e uma excelente campanha pela Gothia Cup, considerada a maior competição de base do planeta. Além disso, venceu a Taça São Paulo em 2012 no Pacaembu.

Em 2012 também disputou torneios pela Europa, dessa vez pelo projeto Oeste Solidária. A equipe se sangrou vice-campeã da Helsinki Cup e da Gothia Cup e ficou em terceiro lugar na Barcelona Cup. Natural de Ribeirão Preto (SP), disputou o Paulista sub-20 pelo Cotia FC em 2013 e pela Matonense em 2014. Se profissionalizou pelo Lençoense (SP), mas nem chegou a atuar pela equipe principal.

Sua vida mudaria completamente no segundo semestre de 2014. Em contato com um amigo que atuava na Letônia, Felipe teve a oportunidade de rumar ao país em busca de espaço. Localizado no noroeste da Europa, com pouco mais de dois milhões de habitantes, a Letônia é conhecida pelo frio extremo no inverno, pelas vastas florestas e pela beleza arquitetônica em seu território. O futebol é um dos esportes mais populares do país, junto ao basquete e ao hóquei.

O pensamento inicial era de utilizar a Liga Letã como “ponte”, buscando as ligas maiores do continente europeu. Após um mês no país, o sentimento era bem positivo. Apesar do frio enorme no inverno (sensação térmica chegando a incríveis -28ºC), o clima não chegou a ser um fator que desanimasse a adaptação.

Depois de um mês no país báltico, os rumos mudariam novamente. Mesmo com a experiência positiva, Felipe se transferiu para o Deportivo Silva, clube da terceira divisão espanhola. A passagem pelo clube acabou sendo abreviada por problemas no visto de trabalho espanhol no final do ano. No início de 2015 retornaria a Letônia para atuar no AFA Olaine e disputar a Pirma Liga, equivalente ao segundo campeonato mais importante do país.

Durante sua estadia na cidade de Olaine, os treinos no clube se realizavam apenas a noite. Durante o período diurno, o clube disponibilizou cursos dos idiomas letão e russo. Além disso, Felipe iniciou a faculdade de Turismo, também disponibilizada pela equipe. Na primeira temporada no clube, terminou a competição em oitavo e atuando pela ponta. E aos poucos ia se adaptando ao futebol local, aprendendo o idioma e fazendo amizades.

Algumas dessas amizades mudariam todo o rumo de sua vida nos meses seguintes. O brasileiro conheceu Žanis e Reiks, dois membros de um famoso grupo de rap letão chamado Olas, e logo viraram grandes amigos. Se comunicavam muito pelo idioma local e inclusive gravavam pequenos vídeos entre si, apenas por diversão. Isso daria o pontapé inicial para uma carreira inesperada de Felipe.

Felipe e um dos integrantes do Olas (ao centro)

Por ser um dos pouquíssimos negros no país, chamava atenção. Aos poucos dominava o idioma, algo bastante raro para os estrangeiros que viviam na Letônia. Foi ganhando seguidores nas redes sociais, quando resolveu gravar um rap no idioma local, também apenas por diversão. Não tinha a mínima ideia da proporção que o vídeo tomaria.

Enquanto esteve de férias no Brasil, seus amigos do Olas lançaram o vídeo no canal do Youtube do grupo, que conta com 51 mil inscritos. Ao retornar para a Letônia, as pessoas paravam Felipe na rua para tirar fotos e pediam autógrafos. O vídeo atingiu um milhão de visualizações e tornou o brasileiro uma celebridade local. Mesmo sem ter qualquer contato com o rap no Brasil, o sucesso foi estrondoso – confira o vídeo abaixo.

Vieram contatos para shows em grande escala, começando por bares e baladas. Quando caiu por si, o brasileiro estava se apresentando nos dois maiores festivais de música do país, o SummerSound Festival e o Positivus Festival. Conheceu grandes nomes da música internacional, como Nelly, Afrojack, Eve e Fatscoopy.

Felipe também se tornou amigo de uma das maiores celebridades da Letônia, o astro da NBA Kristaps Porzingis. O ala-pivô do New York Knicks tinha amizade de longa data com Žanis e Reiks e ficou sabendo da história do brasileiro. Ao fim da temporada da NBA, o jogador voltou para a Letônia em férias, se reuniu com a dupla de rappers e pediu para conhecer Felipe. Algo que parecia inimaginável, já que Porzingis é uma das maiores estrelas do país.

Uma amizade inesperada.

A comunicação entre ambos foi bem tranquila, já que o brasileiro falava letão e Porzingis era fluente em espanhol. Demonstrou muito respeito por Felipe pela dominância do idioma local, já que os estrangeiros e mesmo boa parte dos nativos ainda falavam russo. A amizade se intensificou e Felipe inclusive já conheceu o Madison Square Garden, ginásio do New York Knicks.

A fama na música foi tanta que o brasileiro precisou se afastar dos campos em 2016. Retornou em 2017, iniciando a temporada em um pequeno clube da terceira divisão, onde marcou 14 gols em 8 jogos. O bom nível apresentado chamou a atenção do seu antigo clube, que tinha novo nome: o FK Progress Olaine.

Os shows chegaram a tirá-lo dos gramados.

A campanha da equipe foi muito boa, com o vice campeonato da Pirma Liga. Além do vice, foram campeões da Riga Cup, um sonoro 5 a 1 sobre o FK Monahrs. A temporada de Felipe foi coroada com o prêmio “Progress of the Year”, o jogador que mais evoluiu na liga.

O roteiro que beira o surrealismo teve grandes desdobramentos, mas nem tudo foram flores. O brasileiro sofreu alguns casos de racismo vindo de russos que residem no país. No entanto, as coisas boas foram muito maiores. As conquistas (no futebol e na música) e até mesmo um novo relacionamento. Felipe namora Rezija, letã e nascida em Olaine. Se conheceram em 2015 e se relacionavam sem compromisso. Ambos tinham muito medo de assumir o relacionamento, principalmente por causa da família de sua namorada. No entanto, sua mãe e irmãos o receberam muito bem, o que facilitou as coisas. Rezija inclusive já conhece o Brasil, onde comemorou o ano novo em 2017. Ela, inclusive, já sente saudades da culinária brasileira.

Em 2017, a namorada de Felipe conheceu o Brasil.

A epopeia de um sul-americano em um país completamente diferente de sua origem é uma história espetacular. Apesar de todas as dificuldades, a gratidão por boa parte da população local é muito grande. Também conheceu estrangeiros e outros brasileiros que facilitaram muito as coisas. Do alto de seus 23 anos, pode se dar ao luxo de dizer que superou desafios que pareciam completamente improváveis, em um antigo antro da União Soviética. Uma trajetória para se orgulhar.

Postado por Willian Bizarro 23 anos, formado em Comunicação Social (Jornalismo) pela Universidade de Araraquara (UNIARA). Afeano, palmeirense e torcedor do Liverpool, grande amante do futebol inglês e do interior paulista.