• Cultural FC #03 – O Drible
    13 de novembro de 2017
    Categoria: Cultural FC

    Foto de Salvador Cordaro.

    México, Copa de 1970. A Seleção Brasileira está em busca de seu tricampeonato e tem como adversário na semifinal o Uruguai. O esquadrão brasileiro tem nomes consagrados como Carlos Alberto Torres, Clodoaldo, Gérson, Jairzinho, Rivellino, Pelé e Tostão. Em uma quarta-feira quente de Guadalajara, duas seleções que se enfrentavam em Copas do Mundo pela primeira vez após o Maracanaço.

    O resultado do jogo já se sabe hoje em dia, 3 a 1 para os brasileiros, que se classificaram para a final, venceram a Itália e entraram para o rol dos imortais. O que ninguém sabia mesmo era o lance inesquecível que aquele confronto proporcionaria. E não foi um gol.

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    Com a camisa 7 às costas Jairzinho está com a bola na ponta esquerda do ataque e é impedido por um defensor uruguaio de avançar o campo. Para, olha para o marcador (como se dissesse “você não vai impedir o que entrará para a história”), ginga e rapidamente passa a redonda mais ao centro do campo para Tostão. O camisa 9 domina com sua perna esquerda, a adianta com dois toques, vê que dois marcadores se aproximam para interceptar, levanta então a cabeça e vê a entrada em diagonal de Pelé, que já passa como um foguete na ponta direita. Rapidamente toca para o Rei e espera qual genialidade ele fará mais uma vez. Mesmo rápido como uma flecha, Pelé percebe que o arqueiro Mazurkiewicz sai do gol para interceptar a jogada. Edson então prefere não dominar a bola que agora corre pelo gramado esperando o inédito.

    O atacante brasileiro mantém sua corrida em diagonal e deixa a esfera que vem em sentido contrário passar por ele e pelo goleiro, enquanto sem ninguém tocar na pelota, está livre para marcar o gol. É aí que o inédito de fato acontece. Pelé corre atrás da redonda para chutá-la enquanto um defensor adversário tenta chegar debaixo das traves para evitar o arremate certeiro. O brasileiro chuta, a bola dá dois quiques e caprichosamente beira a meta e sai pela linha de fundo. Um lance que talvez seja ainda mais marcante por não ter sido gol.

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    É com essa jogada que Murilo Filho, famoso cronista da década de 70, tenta se reaproximar de Neto, seu filho, que guarda do pai muitos ressentimentos. Não se veem há muito tempo e, por parte de Neto, essa distância duraria ainda mais. As coisas começam a mudar quando recebe a notícia que Murilo está com uma doença séria e prestes a morrer. Prevendo o remorso que seria saber da iminente morte do pai e nem ao menos olhar em seus olhos pela última vez, o filho parte ao encontro de seu genitor.

    De início ele encontra seu pai enfermo, que a essa altura, só fala de futebol e do lance de Pelé contra Mazurkiewicz. Chega a pensar que o homem está gagá, mas ainda parece demonstrar lucidez em seus olhos. Murilo Filho, que nos tempos áureos foi colega do também cronista Mário Filho nas tribunas do velho Maracanã, pede para Neto ler um livro que ele mesmo escreveu recentemente, chamado “Porque Peralvo não jogou a Copa”. Em meio a história de um rapaz que “teria sido maior do que Pelé se não fosse o que aconteceu com ele”, Neto irá descobrir segredos de família e muitas das respostas que sempre desejou.

    “O Drible”, livro do escritor e jornalista Sérgio Rodrigues, é mais do que uma narrativa futebolística ou mesmo um romance que descreva a jornada de um menino que um dia sonha ser jogador de futebol. De forma genial, o autor utiliza o esporte mais amado de todos como pano de fundo para contar a história de um pai e um filho tão distantes um do outro, as causas e consequências disso. As descobertas e reviravoltas dentro do romance são de dar inveja às mais emocionantes viradas futebolescas.

    Em pouco mais de duzentas páginas e com uma narrativa envolvente, Sérgio Rodrigues consegue reunir em torno de sua obra tanto aqueles apaixonados pela “mais imperfeita perfeição criada pelo homem”, o futebol, quanto aqueles que não dominam ou mesmo não gostam do esporte bretão.

    De acordo com Tostão, personagem diretamente envolvido na jogada inesquecível contra o Uruguai, “faltava à literatura brasileira um grande romance como este, que perpassa pela história do futebol. É espetacular a descrição do drible de Pelé no goleiro Mazurkiewicz, do Uruguai, na Copa de 1970. É o livro que eu gostaria de ter escrito.”

    Fazendo uma tabelinha com o camisa 9, Luis Fernando Verissimo, craque da literatura, questiona a finitude do tempo: “Quem diria que nos dois segundos que levou Pelé para dar aquele drible no Mazurkiewicz cabia uma vida – e um romance?”.

    “O Drible” vem para mostrar que é possível uma história fora das quatro linhas, além do óbvio. É um livro que abre espaço para esse mercado ainda com tanto potencial para ser desenvolvido. Assim como Neto, que não entende do esporte, o leitor poderá ter grandes descobertas e se deliciar com uma experiência agradável e marcante. Qualquer semelhança com o lance de Pelé não será mera coincidência.

    Postado por Rudiney Freitas Estudante de Jornalismo apaixonado por esportes, em especial pela mais imperfeita perfeição criada pelo homem, o futebol. Procura entendê-lo também como fenômeno social e nega até a morte que tudo “é só um jogo”. Twitter: @rud1ney