Ensaio: Copa do Mundo e o resto dos dias
4 de julho de 2018
Categoria: Futebol e Seleções

 

Estamos de volta com a série “Ensaio”. Desta vez, para tratar do maior acontecimento que pode existir no futebol:  a Copa do Mundo.

Apresentaremos duas realidades: como é estar na copa do mundo e como é estar fora dela. O Êxtase sem fim e a tristeza dos dias sem ela enquanto se aguarda o passar de uma fase. O estar em copa e não haver jogo.

O VIVER COPA

Já comentei, num texto de outrora, que minha relação com o futebol é algo meio místico. De fato, independente dos times que estão em campo, sou absorvido pela magia das linhas e da bola, me conecto de um jeito simples e primal com o Esporte, flutuo pelo campo sentindo o cheiro macio de grama cortada e suor. Ouço os gritos mágicos que vêm das arquibancadas, empurrando fisicamente os times que entraram em campo, prontos para uma batalha eterna de noventa minutos que, idealmente, nunca terá fim. Cada jogo representa uma batalha de ideias, de modos de ver a vida e de maneiras de ser, seja dentro ou fora das quatro linhas.

Mas é mês de Copa. Copa não é futebol, amigos. Futebol é aquilo que já descrevi acima. Uma maluquice, um devaneio de um santo que, um dia, elaborou um conjunto mágico de regras numa universidade e, enfim, obteve sucesso no processo alquimístico mais marcante da história humana: bola, trave e grama transformam-se em alegria, sentimentos e ansiedade. A Copa não, a Copa não é um devaneio.

Copa do Mundo, na visão deste que vos fala, é um retrato importante que você tira depois de passar oito horas debaixo do sol escaldante do alto mar para pegar um peixe premiado. É seu primeiro filho. É realizar o sonho da casa própria. É, por que não, terminar de pagar as prestações do Playstation que você comprou. É perder o pai, a mãe, a avó ou o cachorro. Copa do Mundo é, na verdade, uma série de momentos importantíssimos da sua vida que ficam marcados no seu consciente como um ferro marca uma vaca no pasto.

Se o futebol é um paralelo pra vida, a Copa do Mundo seria um paralelo para os grandes feitos que se dão no pouco tempo que temos. Copa é legado. Copa é memória.

A Copa é sorriso. E é lágrima.

Sim, ninguém vai se lembrar do dia no qual você chutou com o dedinho a quina do móvel. Mas do seu primeiro filho, irão. E, principalmente, você irá se lembrar. São eventos tão marcantes quanto sua própria existência. E é por isso que a gente ama essa maravilha.

– Lucas Vasconcelos

COPA DO MUNDO É UMA DROGA!

O dia não passa. O café esfria e a TV se torna cada vez mais repetitiva. Segundo a segundo, meu tédio se expande na medida em que realizo o que não quero acreditar. Hoje não tem jogos de Copa do Mundo. Jogos. Que diabos. Estava acostumado com três.

Preparava meu cafézinho, tostava meu pão com manteiga, me aconchegava no moletom e coberta e despertava com o jogo das 9. Fazia meu prato, nada muito pesado pra não dar sono, olhos no garfo e olhos na TV para o jogo das 12. Pipoca de microondas, refrigerante gelado e a delícia do jogo das 15.

Mas que diabos, hoje não tem. Isso me inquieta, me irrita. Meu bom dia sai mais amarrado. Sai sem gás. Que dia pode ser bom sem Golovin, Suarez, Neymar ou Harry Kane? Dia que na verdade não é dia, é só um amontoado  de tempo feito unicamente para entristecer. Pra gerar ansiedade. Um amontoado de horas que não serve para nada a não ser pra me fazer pensar mais em Copa.

Hoje não tem Neymar. Não tem Brasil. Não tem Copa.

Procuro em todos os programas, folhetins, algo dela. Algo que me remeta a aqueles momentos. Os replays e VTs até anestesiam a dor. Mas o fato de me lembrar da emoção do gol de Kroos ao 49 minutos me faz quer sentir aquilo de novo. E aí me martirizo em dobro. Dizem que as lembranças ou expectativas dos sentimentos bons são mais viciantes que drogas. Estou entorpecido. Copa do Mundo é uma droga e sua abstinência não é controlável. Uma droga que quando aplicada, diretamente na veia, faz me sentir infinitamente completo.

Mas hoje não tem. Amanhã também não. Diabo! Me assusta ainda mais a ideia de que em poucos dias nem a expectativa de esperar por ela exista mais. Tem data para acabar. Acho que é por isso que não sabemos a data de nossa morte, a existência seria um fardo ainda maior. A certeza que em determinado amontoado de horas tudo termina. Que medo!

Volta logo, porra.  Não aguentamos mais alguns programas falando de você sem poder ver um sequer jogo. Volta logo, cacete.

Mais uma vez peço desculpas aos descrentes que não sentem o que eu sinto. Peço-os perdão sabendo que deve doer demais não sentir futebol.

– Igor Varejano

Postado por Igor Varejano 18 anos. Do interior de São Paulo. Vivo em ódio por amar o Palmeiras e o Liverpool. Futebol é o que move a humanidade. Bom, pelo menos a minha.