Conquistadores da América
4 de dezembro de 2018
Categoria: Futebol e Internacional

 

No último sábado do mês de novembro deste ano, datado em 24, meu dia havia começado de uma maneira um pouco diferente do que de costume. Estranhamente acordei mais cedo e ainda assim razoavelmente disposto, tomei alguns goles de café — o que geralmente não faço devido ao intransigente gosto da bebida —, me aprontei para ir ao curso com relativa antecipação e já organizava o que deveria ser feito durante o dia. Afinal, às 18h, o mais importante compromisso seria em frente à televisão, assistindo ao jogo da finalíssima da Libertadores entre River Plate e Boca Juniors.

A empolgação não era injustificada. O embate, tratado pela mídia portenha como “A Final do Mundo”, reuniria em campo os responsáveis pelo maior clássico do futebol argentino, as equipes com mais torcedores no país, nove títulos do certame continental, e, de quebra, seria a despedida da final disputada em dois jogos.

O torcedor, fanático e responsável pela festa dentro e fora do estádio, era descrito como um dos principais componentes de um jogo que já havia entrado para a história. Eduardo Galeano, renomado escritor uruguaio — e aficionado pelo Nacional —, costumava dizer que o torcedor é o responsável por “ondular bandeiras, soar as matracas e os tambores”; afirmava que “o estádio é o único espaço para a religião que não tem ateus e exibe suas divindades”.

Na tarde do dia 24, entretanto, alguns figurões do River Plate resolverem se tornar hereges. Desprovidos de qualquer racionalidade e motivados por um ódio bestial contra os xeneizes, atacaram o ônibus em que estava a equipe Azul y Oro. O resultado? Partida postergada diversas vezes antes do adiamento definitivo, para o domingo. E mais uma pitada de frustração em um torneio destemperado há muito tempo.

A Libertadores da América, gerida pela Conmebol, nunca foi sinônimo de organização, justiça, atratividade, ou até mesmo bom futebol. Quem torce para algum clube que está disputando a edição do ano, vibra e lamenta. Quem não tem o prazer de acompanhar o time do coração no torneio, assiste aos jogos de maior calibre. Cachorros invadem o campo constantemente, jogadores irregulares disputam partidas, há confusões durante os jogos — dentro e fora das quatro linhas —, objetos atingem atletas que vão cobrar escanteio (e precisam de proteção policial), as punições são brandas quando deveriam ter severidade, e ainda volta e meia estouram escândalos de corrupção. São muitos os motivos para a Taça Libertadores caminhar aos poucos rumo ao ostracismo. O que a sustenta, ainda, é sua tradição e a valorização que os clubes — e torcedores — dão ao torneio.

Desta vez, com a bomba “River-Boca” nas mãos e a incapacidade em preservar a integridade do esporte, a Conmebol resolveu inovar: mandou a final da Libertadores da América para o estádio Santiago Bernabéu, na Espanha, multou os Millonarios de maneira ridícula e determinou dois jogos a serem disputados com portões fechados. O torneio, nomeado “Libertadores” em alusão aos líderes da independência de nações da América do Sul, como Simón Bolívar, José Artigas e José de San Martín, agora terá a edição deste ano decidida em terras europeias, o solo dos conquistadores da América. Talvez fosse até pior. Havia possibilidade de a partida acontecer em Doha, no Catar. Seria realmente o jogo do “fim do mundo”.

A final está marcada para acontecer no dia 9 de dezembro, às 17h30. Não acordarei com o mesmo entusiasmo como no ensolarado dia 24 do mês anterior. Não tomarei café e também não irei planejar o dia baseado no confronto entre River e Boca. Jogarei bola com os amigos pela manhã, almoçarei com a família ao meio dia, e à tarde tentarei arrumar algo interessante para fazer, talvez alguma coisa que prenda minha atenção até às 20h.

Postado por Rudiney Freitas Estudante de Jornalismo apaixonado por esportes, em especial pela mais imperfeita perfeição criada pelo homem, o futebol. Procura entendê-lo também como fenômeno social e nega até a morte que tudo “é só um jogo”. Twitter: @rud1ney