Chorar é verbo de ação
22 de junho de 2018
Categoria: Seleções

AFP PHOTO / GABRIEL BOUYS

Chorar: verbo intransitivo; derramar lágrimas, soluçar; pode ocorrer em situações de vitória e derrota, alegria ou dor.

No dia 22 de junho de 2018, na cidade histórica de São Petersburgo, foi disputada a peleja entre Brasil e Costa Rica. Ao soar do apito final do árbitro holandês Björn Kuipers, Neymar abriu o dicionário, foi direto na seção C do espesso livro, e escolheu a primeira palavra que encontrou naquele momento. Chorar.

Após a simbólica cena de um camisa 10 da seleção canarinho ajoelhado em campo e derramando lágrimas, diversas mensagens começaram a pipocar nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp. “Lágrimas de crocodilo!”, sentenciou um primeiro, enquanto avidamente já digitava outra mensagem que viria a seguir. Outro integrante do grupo gastou três longos minutos de digitação para levantar sua tese mais racional. “Está chorando por recomendação dos patrocinadores, só não enxerga quem não quer!”.

Um dia antes, no embate entre Argentina e Croácia, outro craque do futebol mundial escolheu sua palavra do dia. Não foi um verbo, não indicava ação. Messi não titubeou ao escolher apatia como seu substantivo. Não demorou a surgir a onda de críticas nos mesmos grupos do aplicativo de mensagens. “Não se importa com a seleção, extremamente desinteressado, é um jogador indiferente à pátria”.

A humanidade que se pede de um atleta em um meio tão complexo como o do futebol, não pode ser utilizada de maneira oportunista, como é esbravejada por todos os cantos. Messi, perdido pela desorganização tática e mental de sua equipe, desapareceu. Deu menos passes do que seu goleiro, demonstrou abatimento e viu seu plantel sucumbir diante de uma Croácia intensa, arrasadora.

Neymar, por sua vez, gritava. Xingava os adversários e, irresponsavelmente, também o árbitro. Correu, errou, acertou, chorou. Todos verbos de ação.

Neymar agiu. De todas as formas.

Muitas pessoas desejam ter no esporte seu entretenimento sem, ao menos, considerar os humanos que trazem às suas telas o divertimento e os gols. Neymar se mostra cada vez mais ser humano; é intenso, frágil, experiente, imaturo, escorraçado, mimado. São múltiplas facetas de um homem que ainda quando criança recebeu a responsabilidade de dar resultados com seu talento, através de taças e muito dinheiro.

Neymar mostra vontade de agir, de driblar, de marcar gols. Não faz corpo mole para ficar fora dos jogos; nem no Santos, Barcelona, PSG, ou Seleção Brasileira apresentou tal comportamento. Se mostra perdido quando tenta usar as redes sociais para defender sua imagem, às vezes arranhada por oportunistas. Tem nove anos de carreira no futebol profissional, dezenas de taças e premiações individuais; ao mesmo tempo, coleciona chiliques em campo, expulsões bobas e cartões vermelhos demais para um atacante. É muitas vezes mimado, tratado como não deveria ser por muitos, que tentam ajudá-lo e acabam colocando-o em uma bolha; outros, na tentativa de desmoralizá-lo, se referem a Neymar como um vilão. Parece que o odeiam, desde sempre.

Não há ser humano que resista. Já havia chorado na final dos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016. O choro de Neymar hoje, na Rússia, expressa o que dentro dele está guardado: a cobrança feita por si mesmo, pela imprensa, pelo mercado, pelo jogo, pela superação de uma contusão, por estar em uma Copa do Mundo e saber que pode ser melhor, e que ainda não está nas suas condições físicas ideais.

Ao chorar e verbalizar seu sentimento, Neymar não se torna um herói do povo brasileiro. Não será um mártir na busca pelo hexacampeonato da seleção, muito menos um amado por seu próprio povo, afinal, as próprias redes sociais mostram o contrário. Neymar também não é vilão por isso, não se omitiu no jogo, deu o que melhor pôde. Apenas expressou o que era possível após o apito final em uma partida de Copa do Mundo.

Neymar, ao se ajoelhar e cair em prantos, foi apenas ele mesmo. Um ser humano que é um craque dentro das quatro linhas e ainda desafinado fora delas. Um indivíduo que tem sentimentos, sem maniqueísmos. Neymar é simplesmente alguém que também chora.  

Postado por Rudiney Freitas Estudante de Jornalismo apaixonado por esportes, em especial pela mais imperfeita perfeição criada pelo homem, o futebol. Procura entendê-lo também como fenômeno social e nega até a morte que tudo “é só um jogo”. Twitter: @rud1ney