Boris Rotenberg Jr. e como o nepotismo transformou um pereba em campeão russo
19 de novembro de 2018
Categoria: Futebol e Internacional

 

Quem decidir dar uma olhada no elenco dos atuais campeões russos do Lokomotiv Moscow, irá se deparar com o nome de Boris Rotenberg, com uma solitária bandeirinha finlandesa em meio aos companheiros. Uma análise mais profunda em torno do jogador revelará uma carreira pra lá de curiosa, além do patronímico (um componente do nome que faz menção ao nome do pai, como no sobrenome dos jogadores islandeses, por exemplo) “Borisovich”. Com isso, se permite uma rápida relação entre o jogador e Boris Romanovich Rotenberg, seu pai, que além de um dos homens mais ricos e poderosos da Rússia, é desde os anos 60 um amigo pessoal de Vladimir Putin, presidente do país desde 2012.

O empresário de 61 anos é co-proprietário (junto ao irmão Arkady) do grupo SGM (StroyGazMontazh), a maior companhia de construção de gasodutos e linhas de fornecimento de energia elétrica em toda a Rússia. É também, e novamente junto ao irmão, dono do banco SMP, que atua em 40 cidades russas e tem mais de 100 filiais espalhadas pelo país. Além disso, é o atual presidente da federação russa de judô, arte marcial em que é mestre e que, praticou com Putin, outro faixa-preta, entre o final das décadas de 60 e 70 (o irmão de Boris, Arkady, era inclusive o treinador de Putin). A extensão do poder dos Rotenberg não para por aí e ainda será mencionada mais pra frente, mas vale mencionar que os irmãos já estiveram na lista negra dos Estados Unidos e da União Europeia, já sofreram boicote de Visa e Mastercard, além de serem citados no famoso escândalo conhecido como Panama Papers.

Arkady Rotenberg e Vladimir Putin, companheiros no judô.

Retomando a trajetória de Boris Rotenberg Jr., o jogador nasceu em Leningrado, em 19 de maio de 1986, mas passou boa parte da sua infância na Finlândia, onde seu pai treinava judô e onde deu seus primeiros passos na carreira, ingressando na base do HJK Helsinki. Atuando como lateral-direito, ele logo se juntou ao FC Jokerit, outro clube de Helsinque, participando inclusive da última temporada do clube antes de ser vendido e passar a atuar como time reserva do HJK. Mesmo sem conseguir impressionar por lá, em 2004 ele foi convidado a passar uma semana no Chelsea, que tinha sido apenas seis meses antes adquirido pelo também oligarca russo Roman Abramovich, retornando ao país nórdico em seguida. Em 2006, sem aparentemente nenhum sucesso no futebol finlandês(sequer chegou ao time principal do HJK), ele voltou a Rússia para atuar no Zenit St. Petersburg, o clube mais promissor do futebol russo naquele momento e recém-adquirido pela gigante companhia de gás Gazprom. Curiosamente, na mesma época, Rotenberg ingressou na Universidade Estatal de São Petersburgo, e ainda mais curioso, para não dizer outra coisa, é que seu tio Arkady, junto ao seu pai, tinham à época lucrativos negócios com a Gazprom, enquanto seu irmão, Roman, trabalhava na divisão de exportação da própria empresa.

Rotenberg, então, começou a jogar com as equipes jovens do Zenit, onde tampouco impressionou. Um blogger russo e torcedor da equipe, atendendo pelo nome de ssmirnoff, relatou que “a bola constantemente fugia dele”, e que o mesmo “perdia sua posição frequentemente”. Na casa dos 22 anos e ainda jogando apenas na base do Zenit, ele foi emprestado para o FC Shinnik Yaroslavl, na época figurando na Premier League russa. Tendo chegado ao clube em janeiro de 2008, passou seis meses com a equipe, onde só conseguiu atuar por cinco minutos, mesmo com a equipe sendo rebaixada ao final da temporada na penúltima posição. Ainda assim, o fraco desempenho foi suficiente para “chamar a atenção” do FC Saturn Ramenskoye, também da primeira divisão russa, onde Rotenberg “disputou” a segunda metade da temporada, sem conseguir entrar em campo nem uma única vez.

O grande momento na carreira de Rotenberg até aquele momento veio na temporada seguinte. Apesar de não ter conseguido mostrar seu talento em nenhum de seus clubes até ali, seguiu na Premier League russa e foi contratado pelo FC Khimki, um clube dos subúrbios de Moscow. Curiosamente, o comando técnico da equipe acabara de ser assumido por Konstantin Sarsania, diretor de esportes do Zenit entre 2006 e 2009, época em que Rotenberg havia ingressado na equipe. Outro fator “curioso” é que, apesar da grave crise financeira encontrada pelo clube, um patrocinador em específico chamava a atenção: o SMP Bank, que como já citamos aqui, foi fundada por ninguém menos que Boris Rotenberg Sr., junto, sempre, ao seu irmão Arkady.

Rotenberg atuando pelo Khimki, na grande “virada” da sua carreira.

Pelo Khimki, o nosso fenômeno fez impressionantes 13 partidas… mas a equipe acabou rebaixada na última posição, com apenas 10 pontos conquistados (até hoje a segunda pior marca da história do campeonato russo) e sendo considerada uma das piores a disputar o campeonato. Rotenberg não escapou das críticas e o jornal esportivo russo Sport Express o incluiu no top 10 de piores jogadores da temporada, com uma nota média de 4,88. A essa altura, com 3 empréstimos mal-sucedidos e um vergonhoso rebaixamento (já o segundo na carreira), era de se esperar que a carreira de Rotenberg entrasse em algum tipo de declínio, e que ele, talvez, tivesse que jogar numa divisão inferior, mas a temporada 2010 chegou e com ela, mais um clube da Premier League russa interessado no futebol de Boris. Dessa vez o Alania Vladikavkaz, campeão nacional em 1995 e atual Spartak Vladikavkaz, após ser refundado devido a falência sofrida no ano passado.

Pelo Alania, o jogador conseguiu ganhar a vaga com o campeonato em andamento e participou de 15 jogos, exatamente metade da campanha que culminou no segundo rebaixamento consecutivo para Rotenberg, terminando na penúltima posição, empatado em 30 pontos com o Amkar Perm, que se safou. Como esperado, também não foi dessa vez que o jogador escapou das duras críticas dos torcedores, que alegaram inclusive que ele parecia sempre fugir da bola, crítica recorrente desde seus tempos na base do Zenit. Em 2011, após cinco anos de contrato com o Zenit, quatro empréstimos para equipes diferentes e três rebaixamentos no currículo, Boris não teve seu vínculo renovado, e aqui era certo que, enfim, ele teria de encontrar um clube mais compatível com seu nível, não é mesmo?

Para se ter uma ideia de como é difícil a vida de um jovem jogador na Rússia, um dos companheiros de Rotenberg no Khimki, Oleg Kozhanov, nunca mais recebeu uma chance na primeira divisão russa após o vexaminoso rebaixamento no clube, apesar de ter atuado um considerável número de vezes pela equipe principal do Zenit e pela seleção sub-21 da Rússia, além de estar ainda, na época, no auge dos seus 22 anos. Mas a resposta para o caso de Rotenberg é um sonoro não, e ainda em 2011 ele assinou com o tradicionalíssimo Dynamo de Moscow, detentor de 11 títulos do campeonato russo. Questionado sobre sua contratação, o então presidente do Dynamo, Yuriy Isaev disse apenas “vamos falar das novas contratações somente no final da temporada, quando eles tiverem a chance de se provar”.

Bem, pode ser só coincidência o fato de que seu tio Arkady era o presidente da equipe de hóquei do Dynamo na ocasião, ou ainda que seu pai se tornaria o próprio presidente do clube de futebol dois anos depois, mas fato é que lá estava Rotenberg, novamente em um clube de grande prestígio. Ainda na sua primeira temporada, ele acabou sendo emprestado ao Kuban Krasnodar, onde somou mais uma passagem sem fazer nenhum jogo por um clube, que acabou o campeonato num respeitável 6° lugar. Na temporada seguinte, 2012-13, Rotenberg viveu novamente uma experiência fora da Rússia, e foi respirar novos ares no Olympiakos Nicosia, da Primeira Divisão Cipriota. Aqui, percebemos um fenômeno um tanto quanto interessante sobre seu tempo de jogo. Pelo clube do Chipre, ele fez um total de 13 partidas, entre a temporada regular e uma espécie quadrangular final de rebaixamento, mas ao invés de um número de minutos próximo a 1170, que seriam os 90 minutos regulares em cada partida, ele terminou com apenas 793 minutos jogados, pouco mais de dois terços do total. Em seus nove jogos na fase regular do campeonato, ele foi substituído em seis oportunidades (uma por lesão, logo aos 15 minutos), entrou no decorrer da partida em duas (em uma delas por apenas 1 minuto), e conseguiu terminar um único jogo, dados bastante estranhos para um lateral-direito, uma posição que normalmente não é trocada durante o jogo. Nos seis jogos restantes do quadrangular, ele melhorou sua marca, atuando os 90 minutos em três oportunidades e entrando no decorrer de uma partida, além de ficar no banco em outras duas numa campanha que terminou com, como já não era novidade para Boris, um rebaixamento.

A temporada regular de Rotenberg no Chipe – Transfermarkt.

Assim, com o currículo renovado com mais um rebaixamento e uma passagem sem brilho, dessa vez numa liga bastante inferior, o nosso herói retornou ao Dynamo, pronto para mostrar seu valor com a equipe principal. Foi justamente nessa temporada, 2013-14, que Boris Rotenberg Sr. assumiu a presidência da equipe de futebol do Dynamo de Moscow, e Rotenberg Jr. começou a integrar o banco de reservas da equipe de forma frequente. Ele fez sua estreia pelo Dynamo no dia 16 de setembro de 2013, numa partida fora de casa contra o Ural, substituindo o experiente Andriy Voronin, que marcou um hat-trick na partida, aos 78 minutos. O Dynamo vencia a partida por 4-0 no momento de sua entrada, mas acabou sofrendo um gol aos 87, fechando o placar em 4-1. A partir daí, Boris esteve no banco em praticamente todas as partidas do campeonato russo, entrando em campo apenas mais uma vez, aos 85 minutos, contra seu ex-clube Zenit, substituindo o lesionado Leandro Fernández, já na penúltima rodada do campeonato.

Na temporada seguinte, o prestígio de Rotenberg pareceu melhorar, e logo no início da temporada ele foi titular na vitória por 2-1 sobre o Arsenal Tula pelo campeonato russo (novamente, ele foi substituído mesmo atuando na lateral-direita, dessa vez aos 61 minutos). Sua próxima partida como titular ocorreu no mês seguinte, quando uma formação mista do Dynamo enfrentou o Shinnik, outro ex-clube de Boris, pela Copa da Rússia, sendo eliminado ao perder por 2-0 e tendo Rotenberg (novamente!) substituído, dessa vez aos 67 minutos. Ainda em 2014, ele fez sua estreia em partidas europeias, entrando em campo aos 89 minutos contra o Estoril, pela fase de grupos da Europa League, e mais tarde participando dos 90 minutos na vitória por 2-1 sobre o Panathinaikos, também na fase de grupos da competição continental. Por fim, ele fez seu segundo jogo no campeonato russo em dezembro, entrando nos quatro minutos finais na vitória por 5-0 sobre o Amkar Perm.

Boris Rotenberg Jr. fazendo o que sabe de melhor: ser substituído.

Foi em abril de 2015, na reta final do campeonato russo, que a maior polêmica relacionada a carreira de Boris Rotenberg aconteceu, quando o treinador do Dynamo, Stanislav Cherchesov (o mesmo que treinou a seleção russa no mundial de 2018), decidiu lançar Rotenberg no 11 inicial em detrimento de Aleksei Kozlov, que na época era titular na lateral-direita da própria seleção russa. Rotenberg atuou como titular nos primeiros cinco jogos daquele mês, num período em que a equipe permaneceu invicta, com três empates e duas vitórias. Ainda assim, a “sina” de Boris persistiu, e ele foi substituído em cada um das cinco partidas, uma delas logo nos primeiros 35 minutos de jogo por lesão.

Nesse mesmo mês, o meio-campista do Dynamo e da seleção Igor Denisov foi afastado da equipe e colocado na lista de transferências após insultar e discutir com o treinador Cherchesov. Nunca foi oficialmente confirmado, mas os rumores que circularam na imprensa russa na época davam conta de que a escolha de Rotenberg para o time principal fora o motivo do conflito. Ele acabou retornando a equipe em julho do mesmo ano, quando ambos, Cherchesov e Boris Rotenberg Sr., deixaram o clube. Denisov, que é hoje novamente companheiro de Rotenberg no Lokomotiv, negou que o companheiro tivesse qualquer envolvimento no incidente com seu ex-treinador, enquanto o próprio Boris preferiu nunca comentar tais assuntos.

Na onda dessa polêmica, uma das estrelas do Dynamo, o francês Mathieu Valbuena, declarou que “Rotenberg, como todos os jogadores do Dynamo, joga com paixão. Ele dá tudo de si para alcançar o resultado esperado. Eu não posso dizer nada de ruim sobre ele”. Rotenberg fez ainda mais três jogos no complemento do campeonato, atuando os 90 minutos na vitória de 2-1 sobre o Kuban Krasnodar e no empate com o Krasnodar por 1-1 na última rodada, e sendo substituído no intervalo do empate em 0-0 com o Torp

edo Moscow. Suas atuações aparentemente chamaram a atenção do treinador da Finlândia, o ex-atacante Mixu Paatelainen, que o convocou (vale lembrar que Rotenberg possui cidadania finlandesa, tendo crescido no país nórdico) para um amistoso contra a Estônia e um jogo das eliminatórias da Eurocopa de 2016 contra a Hungria, em 9 e 13 de junho respectivamente. Apesar disso, ele atuou apenas os 45 minutos na derrota para os estonianos por 2-0, sendo substituído no intervalo e cortado da comitiva que perdeu para a Hungria dias depois. Essa foi a única vez que Boris vestiu as cores da seleção finlandesa, mas de toda a forma, ele havia declarado antes, sobre a convocação o seguinte: “Eu me considero russo, mas no momento parece que a seleção da Rússia não está interessada nos meus serviços”. É quase uma surpresa que o treinador da seleção na época, Fábio Capello, não tenha repensado suas decisões naquele momento e dado uma chance para Rotenberg na equipe nacional, mas esse dia, pelo menos até hoje, ainda não chegou.

Cherchesov e Boris Rotenberg Sr., em entrevista coletiva do Dynamo de Moscow.

 

A temporada 2015-16 chegou, e apesar de ter terminado a temporada anterior como “titular”, as chances de Rotenberg no Dynamo pareceram morrer com a ausência do pai (que deixou a presidência em julho de 2015) no clube, e ele passou os primeiros seis jogos do campeonato observando os companheiros do banco, até ser emprestado para o Rostov. Curiosamente, aquela foi uma temporada bastante especial para o Rostov, que terminou em segundo lugar apenas dois pontos atrás dos campeões do CSKA Moscow, mas o foco aqui é analisar a participação de Boris, então vamos lá.

Pelo novo clube, Rotenberg atuou em 15 partidas do campeonato russo, precisamente metade da competição. Em 13 delas ele iniciou jogando, e em todas essas 13 partidas, sem exceção, ele foi substituído, passando apenas duas vezes dos 70 minutos em campo (saiu aos 74 contra o Ufa, empate por 1-1, e aos 81 contra o Rubin Kazan, vitória por 1-0). Em uma dessas ocasiões a razão foi uma lesão, já na última rodada contra o Terek Grozny, quando foi substituído aos 24 minutos de partida. As suas duas outras aparições foram vindo do banco, entrando aos 84 contra o Anzhi e aos 89 contra o Mordovia. Vale também registrar que ele recebeu seis cartões amarelos nessas partidas (incluindo quando entrou no último minuto contra o Anzhi), um número consideravelmente alto e que correspondeu a cerca de um cartão a cada 127 minutos em campo.

Ao final de sua passagem pelo Rostov, o contrato de Rotenberg com o Dynamo Moscow expirou e não foi renovado pelo clube, mas é claro que isso não representou um problema na carreira do jogador. Em 31 de agosto de 2016, o Lokomotiv Moscow anunciou sua contratação através do seu site oficial, se tornando o terceiro clube de grande expressão na Rússia a contar com seus serviços. Ao site do clube, Rotenberg saudou os fãs, os funcionários e jogadores do Lokomotiv e destacou sua admiração pelos “Vermelhos e verdes” desde a infância, finalizando ainda a dizer que não estaria apto a se juntar a equipe logo no primeiro dia de trabalho devido a uma lesão. Ainda assim, ele não demorou a figurar no banco de reservas pelo novo clube, apesar de não sair muito de lá. Na primeira temporada pelo Lokomotiv, ele esteve relacionado para 17 partidas de 30 pelo campeonato russo, mas só entrou em campo duas vezes, por oito minutos na vitória de 3-0 contra o Arsenal Tula na 23° rodada e por nove em outra goleada, desta vez contra o Orenburg por 4-0 na 28°. A temporada marcou ainda o primeiro título na carreira de Boris, que ficou no banco nas oitavas, na semi e na final da Copa da Rússia vencida pelo Lokomotiv ainda em 2017, sem ter pisado em campo nem uma única vez.

Boris em ação pelo Rostov contra o seu futuro clube, o Lokomotiv.

 

Mas sabemos que o trabalho duro sempre foi recompensador na trajetória de Rotenberg, e em 2017-18 ocorreu a sua grande “afirmação” com a camisa do Lokomotiv. Para começar, ele fez sua primeira partida como titular em setembro, “ajudando” sua equipe a ser eliminada logo na primeira rodada da Copa da Rússia ao perder para o Krylya Sovetov por 3-2 dentro de casa e após prorrogação. Como você já deve ter adivinhado, Rotenberg não terminou a partida em campo, sendo substituído com 56 minutos de bola rolando. Ele também participou novamente de competições europeias, atuando dois minutos contra os tchecos do FC Zlin, e depois nove minutos contra essa mesma equipe, pela fase grupos da Europa League. Por fim, ele esteve relacionado para todos os 30 jogos que consagraram o Lokomotiv Moscow como campeão russo em 2017-18, mas dentro de campo teve uma contribuição bem restrita.

Das seis vezes em que Rotenberg entrou em campo saindo do banco, quatro foram aos 89 minutos de partidas, além de oito e 10 minutos atuados no primeiro e no segundo turno contra seu ex-clube, o Dynamo de Moscow. Na última rodada, já com o título garantido, ele foi titular na derrota por 2-0 para o Arsenal Tula, levando um cartão amarelo aos 57 e sendo substituído aos 64 minutos de partida. No total foram 82 minutos disputados na campanha do título, menos do que uma partida inteira, tendo o jogador estabelecido ainda um novo recorde na Premier League Russa. Em 31 de março de 2018, contra o Amkar Perm, Boris Borisovich Rotenberg se tornou o jogador que mais vezes esteve no banco na história da competição, com 131 aparições, que já aumentaram desde então. Já essa temporada segue em ritmo lento para Rotenberg, que só atuou nove minutos no campeonato russo até aqui, na vitória de 2-1 sobre o Anzhi, apesar de ter jogado como titular os dois confrontos do Lokomotiv pela Copa da Rússia, sendo substituído aos 67 na vitória sobre o Baltika, da segunda divisão, e completando um jogo inteiro contra o recém-promovido Yenisey, vencido por 4-1. Boris sonha ainda em fazer sua primeira aparição na maior competição de clubes da Europa, uma vez que o Lokomotiv perdeu todos os seus jogos até aqui (Rotenberg esteve no banco em todos eles) na UEFA Champions League e tem chances remotas de classificação mesmo para a Europa League, mas se ele vai conseguir ou não é uma história pro futuro.

Rotenberg celebrando o título de campeão russo de 2017-18.

Na Rússia, ele é tratado como piada. Em uma conversa com um jornalista russo, ele me garantiu que Rotenberg havia sido horrível em todos os clubes em que atuou, especialmente no Rostov. Disse ainda que, por lá, correm boatos de que a única razão para Boris ter atuado em todos esses clubes é que seu pai e tio estariam ajudando-os financeiramente, de forma não oficial (exceto nos casos onde já vimos que o financiamento ocorreu de fato). É verdade que não poderíamos confirmar de forma alguma esses boatos, mas é também verdade que os Rotenberg, como tantos outros oligarcas russos, são cercados por polêmicas bem difíceis de explicar.

De acordo com o site Transfermarkt, Rotenberg é, junto ao ucraniano Taras Mykhalyk, de 35 anos, o jogador menos valioso do elenco do Lokomotiv, tendo um valor de mercado de irrisório 100 mil euros. No game FIFA 19, ele é o único jogador do Lokomotiv Moscow a possuir uma carta de bronze, tendo um overall de apenas 60, cinco pontos abaixo do segundo jogador de menor nível do elenco. Em abril de 2015, o famoso ex-jogador russo Aleksandr Mostovoi, que brilhou com as camisas de Spartak Moscow e Celta de Vigo entre o final das décadas de 80 e 90, disse que “Rotenberg não é, em campo, um jogador para a Premier League Russa, e ele provavelmente sabe isso”. Também ex-jogador e atualmente analista, Aleksandr Bubnov declarou, em maio de 2016 o seguinte: “Eu não entendo o motivo de Kurban Berdyev (treinador do Rostov em 15-16) insistir em Rotenberg. Quando ele joga, a equipe na verdade joga com 10 jogadores, porque ele nunca participa dos ataques”. Ainda assim, Rotenberg parece ser muito apreciado por companheiros e treinadores, por sua grande dedicação nos treinamentos e no dia a dia como jogador.

Se Boris Rotenberg Jr mereceu ou não disputar as partidas que disputou, especialmente por Dynamo e Lokomotiv Moscow, já depois de ter estado nos clubes e treinado junto aos companheiros, é uma outra discussão, mas analisando os fatos sobre tudo que cerca a sua carreira, e especialmente, vendo-o atuar, fica claro que ele não teria chegado onde chegou não fosse filho de quem é e não tendo as fortes ligações que tem. De fato, a carreira de Rotenberg é com certeza melhor que a que qualquer jogador com o mesmo nível de talento pode sonhar em alcançar. Três escudos pesados e imponentes do futebol russo carregados no peito, títulos importantes e a chance de jogar por anos e anos numa liga profissional de primeiro nível é algo que uma imensidão de jogadores melhores lutaram muito para não chegar nem perto de alcançar. É inegável que nos dias de hoje, e mesmo em todo o passado do esporte bretão, conhecer alguém importante ou ser bem empresariado são fatores importantíssimos, que podem muito bem ser determinantes para o sucesso ou o fracasso de um jogador de futebol. É por isso que é tão revoltante observar como alguém como Boris Rotenberg Jr. chegou tão longe na carreira, sem a menor vergonha de esconder os pormenores por trás do seu “sucesso”, enquanto tantos jovens talentosos vêem seus sonhos morrerem por falta de oportunidades de demonstrar do que são capazes.

Aos 32 anos, Rotenberg ainda não deu indícios de que pretende encerrar sua carreira, então é possível que vejamos mais episódios incríveis na sua grande trajetória. Eu, pessoalmente, não ficaria surpreso se daqui alguns anos o Spartak Moscow ou o CSKA virem o jogador, com seus 35, 36 anos de idade, como uma grande oportunidade de negócio, mas isso é algo que vai ficar pro futuro…

A lição de hoje fica então no ar: se você sonha em ser um jogador de futebol de sucesso, basta seguir o exemplo de Boris Borisovich Rotenberg. Trabalhar duro, nunca desistir e claro, ser parte de uma perigosa e influente oligarquia russa com laços estreitos junto ao polêmico presidente do país.

Postado por Bernardo Dornela 18 anos, nascido e criado em Belo Horizonte e atleticano desde o berço. Com o tempo tornou-se também um fã do Liverpool e do Portimonense, de Portugal. Apaixonado por tudo que há de alternativo no futebol, em especial o praticado nos países nórdicos.