• Ânimo e coragem para fazer história – Isabelly Morais
    10 de novembro de 2017
    Categoria: Entrevistas

    Foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press

    O estádio estava em festa e a torcida eufórica. Era mais uma vitória do América Mineiro na segunda divisão do Campeonato Brasileiro, cada vez mais próximo do acesso à elite do futebol nacional e agora empatado em número de pontos com o líder da competição, o Internacional de Porto Alegre. O resultado era importante para o time e para a torcida. Os gols foram importantes para os artilheiros, e desastrosos para os defensores, como é de costume. No entanto, a partida como um todo, teve uma nova personagem. Seu maior instrumento não eram as chuteiras, tampouco o uniforme, mas sim a voz. Ali, em uma das cabines do Estádio Independência, Isabelly Morais, escrevia, ou melhor, narrava um novo marco na história. Naquela terça-feira à noite, tornara-se a primeira mulher a narrar um jogo de futebol em seu estado, Minas Gerais.

    “Assim que o árbitro encerrou a partida, eu me senti muito aliviada. Olhei para o campo do Independência e para o meu chefe, que estava ao meu lado, e não conseguia acreditar no que tinha acabado de acontecer. Eu fiquei perplexa”, conta Isabelly ao lembrar da noite histórica do último dia 7 de novembro – data em que se comemora o Dia do Radialista.

    Natural de Itamarandiba, cidade do interior de Minas Gerais, Isabelly desenvolveu sua paixão pelo futebol ainda muito cedo, por influência do avô, já falecido. “Eu ia para a casa do  meu avô aos fins de semana e ele sempre estava assistindo alguma partida, então eu acabava acompanhando também, mesmo sem entender muito bem”, relembra a jornalista de 20 anos. Com o passar dos anos, o interesse de Isabelly pelo futebol, assim como por outros esportes, ultrapassou os limites dos fins de semana na casa do avô. A paixão foi tamanha que ainda no Ensino Médio, a mineira decidiu cursar Jornalismo, com todo o seu foco voltado para a área de Jornalismo Esportivo. Em abril de 2016 teve sua primeira experiência profissional, na Vavel Brasil, onde começou com a cobertura do futebol mineiro. Hoje, também escreve sobre vôlei no portal de jornalismo colaborativo. Em julho deste ano começou seu estágio na Rádio Inconfidência, onde atuou em diversas áreas, até a estreia como narradora.

    Isabelly atuando como repórter de campo

    Não há como negar que a decisão de ser a primeira mulher a narrar uma partida de futebol em seu estado tenha sido extremamente corajosa. No entanto, Isabelly conta que a decisão não partiu dela, mas sim de seu chefe, José Augusto Toscano. “Ao meu primeiro pedido de estágio na rádio, ele já me perguntou se eu toparia narrar uma partida. Foi um susto, porque eu pedi apenas um estágio e já recebi uma oferta como essa”. A partir daí, Isabelly seguiu cumprindo suas obrigações como estagiária, fazendo de tudo um pouco, atuando como repórter de campo, fazendo comentários, até que, duas semanas antes da partida entre América Mineiro e ABC, recebeu o convite de seu chefe para fazer história. “Eu já sabia que esse dia chegaria, só não sabia ao certo quando seria”, conta a repórter e, agora, narradora da Rádio Inconfidência.

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    Chegado o grande dia, Isabelly precisou lidar desde cedo com a ansiedade e com as diversas mensagens que chegaram junto com o anúncio de que narraria a partida. Isso, claro, até o apito inicial, já que a jovem jornalista conta que ficou completamente desligada do mundo externo assim que a bola rolou. “Foi uma situação até engraçada, porque mesmo com pessoas ao meu lado, parecia que eu estava sozinha. Meu foco era somente no campo. Somente na bola”.

    Foto: Mourão Panda

    Ao fim da partida, a vida de Isabelly mudou completamente de patamar. Por ter uma noção do tamanho de seu feito, a mineira, com certeza, já esperava por uma certa repercussão. Mas ainda assim, se diz surpresa com tamanha reverberação. “Eu estou bem confusa ainda, pra falar a verdade. Eu já esperava uma repercussão grande, mas não nesse nível. É até um pouco difícil de lidar, mas têm sido muito surpreendente tudo o que está acontecendo”.

    A repercussão trouxe consigo diversos comentários e críticas. Alguns positivos, outros nem tanto, mas ambos considerados importantes para Isabelly, que vê nas críticas construtivas uma ótima oportunidade para avaliar seu desempenho na estreia como narradora. “Tenho recebido críticas tanto positivas quanto negativas, e estou tentando extrair o melhor disso tudo para o meu crescimento profissional. Eu acho muito interessante poder olhar para a minha prática e ir me aperfeiçoando através do conselho de outras pessoas, porque eu ainda sei muito pouco sobre rádio. Esse feedback é muito importante para analisar o que eu já fiz e o que eu ainda posso fazer nesse meio”.

    No entanto, Isabelly não baseia sua carreira apenas nas críticas e nos elogios. Algumas mulheres foram – e ainda são – importantes no desenvolvimento da jovem no meio do jornalismo esportivo. Natalie Gedra, correspondente internacional da ESPN Brasil, Gabriela Moreira, também repórter da ESPN Brasil, Tatiana Mantovani, dos canais Esporte Interativo e Lorrana Lima, da Rádio Super, de Belo Horizonte, são apenas alguns dos nomes citados por Isabelly como exemplos de mulheres nas quais ela se espelha para crescer dentro da profissão de jornalista esportiva.

    Para o futuro, Isabelly diz que pretende ir se aperfeiçoando na função de narradora, mas que não quer fazer disso seu principal objetivo. Pelo menos, não por agora. “Pretendo, sim, me aperfeiçoar na narração, mas também continuar de braços abertos à outras funções que eu já gosto, como o trabalho de repórter de campo. A ideia é focar na minha carreira, continuar me dedicando e me esforçando ao máximo. O jornalismo esportivo é a minha vida e eu não posso deixar passar a oportunidade de seguir crescendo e me aperfeiçoando dentro da profissão”.

     

     

    Mesmo com todos os holofotes sob ela, a jovem jornalista mineira não se considera nenhuma estrela, mas deseja servir de inspiração para as mulheres que desejam trabalhar com o futebol. Isabelly é a prova de que o espaço para as mulheres no esporte, bem como na mídia, deve ser melhor distribuído. Ânimo e coragem parecem ser suas armas na luta por espaço no meio do futebol, que, infelizmente, ainda se encontra como um ambiente machista.

    “Eu quero agradecer o contato de vocês. Pra mim têm sido uma honra poder conversar com tanta gente, como eu tenho feito. Eu gostaria de aproveitar o espaço para dizer que em muitos momentos, muitas situações acabam nos desencorajando, mas a gente precisa enfrentar essas situações e dar as caras para fazer o que a gente gosta. Eu amo o futebol e acredito que muitas mulheres também, então nós precisamos ter coragem para alcançar nossos objetivos. Quando a gente ama o futebol e ama o esporte é muito difícil tirar o pé dessa área”, assim, Isabelly finalizou a entrevista concedida ao Blog 4-3-3.

    Agradecemos a disponibilidade de Isabelly para nos responder, mesmo em meio a toda a correria que têm enfrentado após a partida da última terça-feira. Torcemos pelo contínuo sucesso em sua carreira e esperamos que ela não tenha sido a última mulher a fazer história no futebol, em qualquer função, seja nas cabines ou dentro de campo, com os microfones em mãos ou com chuteiras nos pés.

     

    Postado por André Oliveira Estudante de História, torcedor são-paulino, clubista e corneteiro.