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Do sequestro do ônibus 174 até a cobertura da Eurocopa na Polônia, a carreira de Vanessa Riche é rica em detalhes e complexidade. Inicialmente enfrentando um ambiente majoritariamente masculino e uma certa resistência de um público acostumado com outro tipo de abordagem, ela cresceu dentro do meio após muito trabalho e suor. Hoje, já consolidada no cenário, ajuda na inserção e inclusão de outras mulheres em um segmento que tem cada vez mais percebido o potencial feminino para o jornalismo esportivo. Confira a interessantíssima entrevista na íntegra:

1 – Você começou sua carreira trabalhando na rádio e sempre fala com muita gratidão deste período, qual foi o legado que o rádio deixou no seu modo de trabalhar?

O Rádio é o primeiro veículo onde todos os jovem que querem trabalhar com comunicação deveriam iniciar a carreira. O Rádio ensina o improviso, a rapidez de raciocínio, ainda hoje eu amo fazer rádio, ter essa oportunidade de estar no ar na Rádio Globo é um presente. Foi a experiência em rádio que me ajudou muito na cobertura do  Sequestro do ônibus 174, quando fiquei 3h30 no ar na Globo News. Eu narrava o que a câmera não mostrava, ou seja , todo o entorno do Ônibus e da área que não foi isolada.

2 – Após 18 anos na Rede Globo, você foi demitida. Como foi deixar a empresa que você chamou de casa por tanto tempo? Assistir você no Sportv News já tinha virado tradição.

A Globo News foi a minha grande escola no jornalismo, um aprendizado único. Ter a oportunidade de me tornar narradora no Sportv e participar de grandes coberturas no esporte foi uma experiência fantástica. Apresentar o Sportv News foi um grande desafio que deixou saudade. Fechei um ciclo na TV Globo, atingi a maturidade em uma empresa que me ofereceu todas as possibilidades de realizar meus projetos, só posso agradecer. Foi a experiência de 18 anos lá que me permitiu partir para um projeto gigante de narração feminina na Fox, onde pude trabalhar com gestão pela primeira vez.

3 – Dentre tantos eventos importantes e marcantes que você cobriu, destaque o que mais gostou de estar e porque.

A Eurocopa na Polônia foi um evento desafiador por conta da língua, da diferença cultural. Foram 34 dias de uma cobertura intensa. Fazia entradas ao vivo da entrada do estádio onde presenciei muitas brigas ao vivo. Mas, poder cobrir uma Copa e uma Olimpíada no Brasil também foi enriquecedor, foi possível trabalhar, acompanhar os jogos e ainda ter a família por perto, muito marcante. Levei meus filhos em todas as modalidades olímpicas que consegui. Inesquecivel!

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Eurocopa de 2012.


4 – Desde que te acompanho, você sempre apoia questões de inclusão da mulher no segmento e quando questionada, comenta da dificuldade que foi se consolidar quando entrou no ramo esportivo. Você sempre teve essa consciência de lutar pela inclusão das mulheres em um ambiente majoritariamente masculino? Porque?

Quando cheguei na Redação do Sportv encontrei uma equipe muito mais masculina do que feminina, no Sportv News  só tinha uma mulher. Mas eu fui bem recebida desde o período de treinamento com as equipes de esportes da Globo até no dia a dia na Redação!  As mulheres têm uma cultura de esporte muito diferente dos homens, não éramos incentivadas a acompanhar o futebol, por exemplo, observando a tática ou as escalações. Então ter a oportunidade de realizar o projeto de narração feminina na Fox foi um belo desafio. Hoje os estádios estão cheios de mulheres trabalhando, as meninas são incentivadas a jogar futebol na infância, acredito que no futuro o ambiente do esporte para as mulheres terá menos preconceito arraigado.

5 – Ainda é bastante incomum ver mulheres narrando partidas e eventos esportivos no Brasil (e acredito que no mundo), como uma das primeiras que obtiveram destaque nesse sentido, quais são as diferenças que você identifica entre a época em que você começou a narrar e hoje em dia?

Não havia um modelo de narração feminina, e isso era muito bom. Assim, criamos o nosso estilo. A mulher é mais detalhista, as transmissões tem sempre um conteúdo diferenciado. Na Copa, por exemplo, eu observei que  7 jogadores da seleção principal foram criados sem o pai, em um país onde é o pai que leva o filho para jogar futebol, esses jogadores chegaram a seleção através das mães. Hoje é muito mais fácil, temos mais oportunidades. Demorou mas tivemos narração feminina na Copa, eu ancoro uma mesa redonda de mulheres, mas ainda temos uma longa estrada pela frente.
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A tendência é que mulheres estejam cada vez mais inseridas no meio.

6 – Em gancho com a pergunta anterior, você foi mentora do projeto “Narra quem Sabe”, promovido pela Fox Sports e com o objetivo de trazer mulheres para narrar a Copa do Mundo do ano passado. Como foi participar do projeto? Considera ele um sucesso? Haverão outros na mesma linha?

A Fox me ofereceu todas as condições de realizar esse projeto inovador. Levei as meninas para uma cabine na Arena Palmeiras em um jogo de Libertadores, treinamos em cabines paralelas com jogos que estavam no ar na voz dos homens. Tínhamos 4 patrocinadores na Copa, incluindo a Coca Cola, é um novo mercado que se abre. O projeto teve repercussão internacional, dei entrevista para os principais jornais do mundo. Fiquei muito feliz com o resultado, erro zero é uma audiência maravilhosa.

7 – Dentro do jornalismo esportivo, quais são suas principais referências femininas no meio? Porque?

Acho que a Luciana Mariano, que foi casada com o Luciano do Vale e que foi uma das primeiras mulheres a narrar, inspirou muita gente. Mas a Fátima Bernardes que não era uma jornalista de esportes, mas fazia as coberturas de Copa foi uma fonte de inspiração pela maneira alegre e descontraída com que fazia as coberturas.

8 – Você costuma ministrar aulas, fazer vídeos e coordenar cursos acerca da profissionalização do jornalismo digital, da comunicação através da mídia e afins. O quão importante é incentivar essa especialização técnica em um ramo que cresce consideravelmente a cada ano? O que te motiva a ajudar nisso?

As universidades não conseguem oferecer a prática do jornalismo ao vivo, e só fazendo na prática é que o jornalista vai ganhando segurança. Eu acabei descobrindo grandes talentos, tive a grata surpresa de receber como aluna a Fernanda Gentil que eu levei para a Globo na primeira oportunidade. Ela é muito talentosa, sempre que vejo um aluno no ar me dá um orgulho danado.

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Fernanda Gentil se tornou um grande nome do jornalismo esportivo nacional.

9 – Quais são seus planos pra o futuro? Seus projetos e metas a serem cumpridas.

Gostaria que a mesa redonda que eu apresento fosse diária. Espero que esse ano seja promissor para o futebol feminino, que os patrocínios apareçam para essas meninas tão talentosas. Afinal, temos a única jogadora no mundo com 6 bolas de ouro.

10 – Foi um prazer concluir mais essa entrevista, desejamos toda sorte do mundo para você! Faça suas considerações finais.

Acreditem nos seus sonhos, se a pedra for muito grande desvie, não tente chutar. Se você acredita é porque é possível realizar.