A queda do império do Leão do Norte – uma década perdida para o Sport
20 de agosto de 2019
Categoria: 4-3-3 e Futebol e Nacional

Foto: Marlon Costa

O Sport Club Do Recife vive uma das maiores crises da sua história. Ao longo de seus 114 anos, o clube recifense passou por momentos de fracassos e glórias. Fracassos como ser rebaixado da primeira divisão na lanterna do Campeonato Brasileiro em 2009. Um ano depois de uma das maiores glórias do clube, a copa do Brasil disputada contra uma das maiores equipes do continente, o Corinthians.

Mas já se passou uma década desde que esses eventos ocorreram marcando a história do Sport. De dez anos para cá, muita coisa mudou. Após uma gestão atrapalhada, o Sport foi comandado por um dos empresários mais bem-sucedidos do Recife, Gustavo Dubeux, que equilibrou as finanças do clube, plantando a semente para que pudessem caminhar com as próprias pernas e voltassem a ser uma equipe de destaque no cenário nacional. E assim foi.

No fim do seu biênio presidencial, em 2013, Dubeux deixou o Sport superavitário e com um caixa de R$ 10 milhões. Com um novo presidente, Humberto Martorelli, o clube parecia começar a colher os frutos de uma boa administração: voltou para a elite do futebol nacional, conquistando o acesso na Serie B de 2013.

Clube conquistou acesso com boa campanha na Serie B de 2013.

O ano de 2014 começou mágico para os torcedores leoninos. Dobradinha de títulos no primeiro semestre, com o Campeonato Pernambucano (41° da história) e a Copa do Nordeste (3° da história). Além dos bons números em campo, o Sport era um exemplo para os clubes nordestinos fora de campo: bom investimento nas categorias de base (Everton Felipe, Joelinton e Renê eram exemplos concretos disso), aumento no número de sócios (mais de 8 mil novos sócios no decorrer do ano) e uma boa média de público (oitava maior do Brasileirão).

A cereja do bolo foi a contratação via empréstimo do meia Diego Souza. Vindo do Metalist (Ucrânia), o jogador carioca trazia em seu currículo títulos importantes, sendo protagonista nas competições conquistadas e com premiações individuais notáveis, como já ter sido o craque do Campeonato Brasileiro.

O casamento entre o Sport e Diego foi um sucesso. Em 2014, o clube não passou sufoco próximo da zona de rebaixamento, como era acostumado, e ainda conseguiu uma vaga na Sul-Americana. No seguinte, a temporada superou a anterior. As mídias sociais dispararam em relação aos rivais e pesquisas apontavam o clube com a maior torcida do Nordeste, ultrapassando o rival regional, o Bahia. Diego Souza ainda liderou a equipe rumo à melhor campanha da história de um clube nordestino na primeira divisão do Brasileiro na era dos pontos corridos (6° colocado).

Diego Souza rapidamente fez da Ilha do Retiro sua casa (Divulgação)

Porém, em dezembro de 2015, o presidente Martorelli se reelege e inicia uma onda de tomada de decisões que prejudicariam o clube anos depois. Entre as mais destacáveis está o fato de ter assinado um novo contrato com a Rede Globo, onde antecipava receitas do direito de imagem da televisão e, caso o clube caísse de divisão, perderia os direitos conquistados no novo contrato.

Se já não bastasse isso, o ano de 2016 ainda começa com perdas importantes. O trio que marcou o ano de 2015, Marlone, André e Diego Souza, retornou aos seus clubes – todos estavam emprestados. Para amenizar as baixas, o Sport começou a contratar jogadores no mercado internacional e nacional. Trouxe peças que o futuro as transformou em fiascos como Mark Gonzales (Chileno), Túlio de Melo e Reginaldo Lénis (Colombiano) – esse com status de ser, até então, a maior contratação da história de um clube pernambucano, chegando em Recife por R$ 5 milhões. Foi o começo do fim de austeridade contábil do clube recifense.

O ano foi passando e em março, Diego Souza rompe seu contrato com o Fluminense e resolve voltar para Recife. Apesar do retorno do ídolo, o Sport coletivamente não foi bem. Graças a Diego Souza, que foi o artilheiro do Campeonato e líder de assistências da equipe, porém, a equipe permaneceu na elite do futebol brasileiro, brigando perto da zona de rebaixamento até as últimas rodadas.

Era o primeiro sinal de que o extracampo não estava no caminho correto e interferiria dentro das quatro linhas. O ano chegou ao fim, novas eleições vieram e o candidato a situação venceu: Arnaldo Barros Jr assumiu a presidência do clube com um discurso de projetar o Sport nacionalmente. Dizia que “o clube não cabia dentro de Pernambuco”.

Arnaldo Barros Jr ganhou eleição representando a situação

Para o projeto audacioso de Arnaldo, foi necessário requerer mais empréstimos gordurosos para a manutenção de um elenco milionário -a folha salarial da equipe no ano de 2017 era de aproximadamente R$ 4 milhões de reais mensais. Contratações equivocadas foram realizadas novamente e o clube ainda repatriou André, por cerca de R$ 5 milhões. Além de pagar multas contratuais para treinadores, o Sport bancava altos salários para membros do setor administrativo e mantinha todo o seu foco de investimento no futebol, negligenciando outras áreas do clube poliesportivo, continuando a gastar mais do que arrecadava, tudo em prol de um futuro nobre no cenário do futebol nacional.

Convenhamos que o projeto era ousado, mas não impossível; o Sport até chegou perto disso em 2014 e 2015. O ano de 2017 foi quase que uma cópia do anterior. A diferença é que nesse ano o clube voltou a vencer, sendo campeão pernambucano (42° título) contra o Salgueiro, clube do interior do estado.

Já no Brasileirão, a equipe lutou até a última rodada contra o rebaixamento e viu seus investimentos não corresponderem dentro de campo. Fora as campanhas pífias na Copa do Brasil desde 2009 (o que fez com que o Sport não recebesse muito dinheiro pelos seus avanços na competição), a equipe não se classificou para a Sul-Americana e resolveu sair da Copa do Nordeste, por caprichos do seu presidente.

Finalmente o ano de 2018 chegou e a conta de anos de irresponsabilidade fiscal foi cobrada. Os diversos empréstimos, falsificação de balanço, má gestão do clube administrativa e esportivamente, resultaram na saída das principais peças da equipe sem uma reposição a altura. Além disso, não dava para pegar mais empréstimos ou adiantar verbas da televisão. Também não dava para a diretoria irresponsável admitir sua culpa e enxugar os gastos do clube, pois, assim, assinaria o atestado de incompetência.

A saída de Diego Souza para o São Paulo, foi mais uma entre outras, como a de André para o Grêmio. Com um elenco mais limitado, o Sport repatriou o treinador vencedor da Copa do Brasil em 2008, Nelsinho Baptista, mas o viu sair do clube criticando arduamente a diretoria. Na época, Nelsinho foi acusado de exagero e ingratidão, mas o tempo foi o senhor da razão.

Nelsinho deixou o Sport bastante insatisfeito com a direção do clube.

Foram quatro treinadores no decorrer de uma única temporada. A bagunça da direção finalmente atingiu o campo por completo e a equipe foi rebaixada ao término do Campeonato Brasileiro de 2018. Com o rebaixamento do clube, surgiram as críticas sem pudor aos dirigentes, em especial ao presidente, Arnaldo Barros. Como consequência disso, a oposição ganhou uma eleição no Sport depois de 22 anos.

Milton Bivar foi eleito com a promessa de abrir a “caixa-preta” do clube. E assim o fez. Em 2019, após sessões do Conselho Deliberativo, foi auditado que a segunda gestão do ex-presidente Humberto Martorelli aumentou o passivo do clube de R$ 86 milhões para R$ 193 milhões em dois anos. Arnaldo Barros e Humberto Martorelli tiveram seus direitos de sócios no Sport cassados.

Depois de tudo isso, o ano de 2019 começou com muitas ressalvas. Logo de cara, atrasos de pagamentos resultaram na saída de jogadores do clube de graça. Um adeus em especial, no entanto, foi mais duro para os rubro-negros. Entre os maiores ídolos da história do Sport, Alessandro Beti Rosa ou “Magrão”, rescindiu com o clube por conta também dos débitos existentes entre ambas as partes, apesar de terem tido um acordo no começo do ano.

O ídolo Magrão deixou o clube por pendências financeiras (Foto: Marlon Costa)

Com uma dívida gigante, o Sport deposita todas as suas esperanças de se reerguer na volta do clube para a primeira divisão do futebol nacional. Esperança essa que contrasta com o medo entre os rubro-negros, pois se sabe que sem as cotas e patrocínios dignos de um clube de elite, o buraco deve ser muito mais embaixo e talvez a década perdida se torne um pouco mais longa para um dos clubes mais tradicionais do país.

Postado por Roberty Vieira 22 anos. Pernambucano. Estudante de administração e apaixonado por futebol, estatísticas e história. A melhor analise de um fato é procurar entender o seu antes e projetar o seu depois. Twitter: @robertyvsantos