A discussão sobre o VAR: existe discussão?
19 de abril de 2019
Categoria: 4-3-3 e Futebol e Internacional

 

Eram jogados 92 minutos no Etihad Stadium. Quartas de Final da Uefa Champions League. Manchester City estava sendo eliminado, enquanto o Tottenham estava se classificando com gol de Llorente marcado aos 73′. Eriksen tinha o domínio  da bola, dá um giro e resolve passar para atrás. De cabeça baixa, não percebe que o Aguero se estava no caminho e tinha campo para correr com a bola. O passe sai, Bernardo Silva, por impulso, resolve tentar interceptar o caminho da bola. Ainda sim ela resiste, busca o craque argentino. Kun domina, levanta a cabeça e acha rápido o melhor jogador do City na temporada, Raheem Sterling, que consegue um corte seco pra cima de Alderweireld e finaliza. Lloris ainda encontra a bola, mas ela decidiu estufar as redes. Epopeia. City conseguia o resultado necessário para estar nas semifinais da UCL após um jogaço com 8 gols, sendo 4 marcados nos 11 primeiros minutos. Seria o roteiro perfeito, se o VAR não comunicasse o árbitro Çakir, que anulou o gol dos Azuis. Aguero estava impedido no momento do desvio de Bernardo Silva.

E pronto. Isso já é suficiente para ressurgir a pedante discussão sobre o Arbitro de Vídeo. Principalmente no Brasil, onde o debate esportivo só se atentou a isso. O twitter virou um verdadeiro ringue, onde torcedores, jornalistas pró-VAR, jornalistas contra o VAR, e até o Felipe Neto se posicionaram sobre a interferência da tecnologia de vídeo no esporte bretão.  Desta vez, o foco da discussão foi a dita “emoção” que  supostamente o VAR  atenua. Em especial no momento do gol.

O jornalista André Rizek, em seu Twitter disse o seguinte: “Nunca achei que fosse dizer isso. Espero mudar de opinião amanhã, de novo. Mas decidi, hoje, que odeio o VAR. Que saudade de poder gritar gol (ou “merda”) quando a bola bate na rede. Depois eu vejo se não tava impedido, ou foi com a mão. O mais importante, mesmo, era gritar gol.”

André se juntou a Arnaldo Ribeiro da ESPN e Alex Escobar da SporTV/Globo, outros jornalistas de grandes emissoras que se colocam contrários ao VAR. Arnaldo, desde o primeiro momento mais contundente, também se manifestou em suas redes, além de ao vivo no Linha De Passe, Mauro Cezar Pereira no mesmo programa disse que o VAR “machuca um pouco o futebol”.

Arnaldo Ribeiro desde sempre se posiciona contra o VAR

Em contrapartida, Leonardo Bertozzi, também da ESPN declarou: “Algum amigo seu já passou vergonha hoje lamentando a anulação de um gol irregular que mudaria um classificado?”

Vitor Sérgio Rodrigues do EI também se pronunciou nas redes: “Ilegal: O que é contrário às disposições da lei; ilícito. Alguns defendem que seja assim: Ilegal; O que é contrário às disposições da lei; ilícito. Mas se for para dar emoção no futebol, rasgam-se as disposições da lei; vira lícito. Piada.”

E o assunto ganhou força pelas redes. Milhares de pessoas apaixonadas pelo esporte também deram suas respectivas opiniões. Pode-se notar as pessoas bem divididas e extremadas. Como é de praxe nesses tempos. Entre argumentos de um lado e de outro e ofensas por todos, surge uma questão: Se estamos falando de esporte, a injustiça pode ser relativizada em detrimento da emoção?

Realmente, a possibilidade de um gol ser anulado trava um pouco o ímpeto. Baliza um pouco o momento, criando a expectativa para a decisão da arbitragem de vídeo. Porém, não estaria todo gol sujeito a anulação póstuma? O árbitro pode em determinado lance, não se comunicar corretamente com o bandeira que visualizou uma possível  irregularidade , e assim anular o gol. Esse sentimento de “esperar” o juiz já existe, ou pelo menos já deveria existir.

E mais do que isso, lanço uma pergunta ao leitor: Qual emoção é mais importante para você como torcedor de futebol, a de um gol, IRREGULAR OU NÃO , marcado no final de um jogo, ou a emoção de um título, cujo qual no jogo decisivo, um gol irregular que daria o título para o outro time foi anulado com interferência do VAR? O que pesa mais? Um momento, ainda que sublime, que representa uma parte do emaranhado de emoções que um jogo de futebol pode trazer ou uma grande injustiça, que provavelmente perduraria a história, contra seu time  sendo corrigida?

A realidade é que quando estamos tratando de esporte, deve-se sempre levar em conta todo o trabalho que envolve um time em um momento decisivo. O dinheiro investido, o tempo investido… será que abrir a possibilidade de uma injustiça advinda de um erro de arbitragem estragar esse trabalho em nome da “emoção”  é um pensamento esportivo?

São duas coisas que podem causar nessa ojeriza à tecnologia: o espírito conservador que ronda todas as discussões de futebol, aquela velha galera que acredita que o jogo não pode sofrer interferência de tecnologia,  um pensamento que é superado ano após ano, a medida que as possibilidades de incrementação e aperfeiçoamento do espetáculo aparecem. Como por exemplo o dispositivo que capta se a bola entrou ou não no gol, um sucesso comprovado, testado primeiramente na copa de 2014, e aclamado na Premier League.

Outro pensamento, e este bem nocivo, é o dos “romantizadores de injustiça” que utilizam de apelos ao sentimento para defender práticas escusas. É, em linha gerais, a glamourização da marginalização do jogo. Para essas pessoas, o futebol foi movido ao patamar que têm hoje  por ser objeto de entretenimento, e por isso, as emoções causam mais impacto no telespectador que  o objeto esportivo em si. Mas esse argumento é extremamente falacioso. A melhor forma de transformar um esporte atrativo é primar pela sua transparência e competitividade. As ligas americanas nos mostram isso há pelo menos 20 anos. Nos Estados Unidos, o recurso de vídeo é utilizado por todos os esportes. E é um grande sucesso, não afetando em nada na magnitude do jogo em si, e minimizando possíveis injustiças.

Na verdade, as pessoas em geral e principalmente os formadores de opinião que atiram pedras na tecnologia, possuem a visão de que o futebol é um esporte único, acima de todos os outros,  e que sua prática deve ser resguardada de qualquer alteração radical e que seus atletas são “guardiões” de algo sagrado. Isso é uma bobagem. O futebol queira ou não é um negócio, onde milhões de dólares são investidos todos os anos, e o mundo pede uma atualização de seus métodos.

Em dado momento da discussão, algumas pessoas argumentaram que se o VAR existisse desde sempre, momentos sublimes na história do futebol seriam apagados. Como o gol de mão de Maradona. E para essas pessoas, esses momentos foram fundamentais para a formação da paixão que circunda o jogo. Foram fundamentais para a compreensão de futebol que nós temos hoje. E que acabar com isso seria em alguma instância “machucar” o desporto.

De fato, são momentos imprescindíveis para o esporte. Mas talvez os casos de injustiça superem em um bom tanto esses casos de “graça divina”. E principalmente os times com menos força e tradição são impedidos de realizarem grandes feitos. O VAR, talvez indiretamente, traz uma sensação de justiça para parte considerável do futebol mundial, que não possui o poder monetário dos grandes clubes, e que em um enfrentamento com “os grandões” teriam a possibilidade de injustiça minimizadas. A realidade é que parte  do desinteresse pelo futebol emerge exatamente na parcela de pessoas que estão insatisfeitas com os oligopólios do esporte, e como o dinheiro praticamente define quem vai disputar o protagonismo ou não.  Aproximar os mais poderosos dos mais fracos, é a melhor forma de fomentar a competitividade, assim criando mais apreço pela prática esportiva. E isso deveria ser bandeira de todos que se envolvem com o jogo.  Um mundo onde todo mundo sabe quem ganha e quem perde, não tem graça alguma.

Um dos casos clássicos que injustiças históricas poderiam ser revertidas é o incidente conhecido como “mão de gália”  de 2009  no jogo entre França  x Irlanda, playoffs das eliminatórias europeias para a copa de  2010. Em que  Henry domina a bola com a mão antes de fazer o cruzamento para Gallas classificar os Les Bleus para o mundial da África do Sul. Os irlandeses poderiam ter tido sua vaga garantida no mundial, tendo um time claramente inferior, e que lutou muito para chegar até ali. Mas os franceses foram, e tiveram a proeza de serem eliminados na primeira fase, em um grupo com México, Africa do Sul e Uruguai.

A mão de Henry classificou a França para a Copa de 2010

Outro problema dessa argumentação é que ela não apresenta nenhuma solução para “devolver a emoção”, ou a solução seria acabar com o VAR.  O arbitro de vídeo é um caminho sem volta para o futuro e qualquer retrocesso contra a tecnologia  marca também  um retrocesso importante na forma em que tratamos o jogo.

É claro que críticas devem ser feitas sim ao árbitro de vídeo. Algumas decisões são muito demoradas, algumas escolhas de lances a serem revisados são bem questionáveis e desiguais. A estrutura é diferente dependendo da liga. E muito mais coisa. O que é natural ao se tratar de uma mudança tão radical na forma em que o jogo é tocado. Mas focar o debate, sob uma perspectiva extremamente distante da razão e segurar na saia de um conservadorismo torpe, não é a melhor forma de abordar o tema na grande mídia.

A discussão embasada na emoção denota na verdade um grande espírito conservador  e uma aversão a mudança causada pela tecnologia. Mostrando estar completamente fora de uma perspectiva de futuro, em que o esporte possa ser cada vez mais justo, e assim, com certeza, atraindo mais fãs com o intuito de ser mais atrativo. O VAR pode ser sim questionado, E DEVE existir uma discussão. Mas não nessa direção, que só leva a conclusões precipitadas e evoca uma subjetividade que é desnecessária e só atrapalha na evolução do esporte. O futebol é sim maravilhoso e talvez seja um pouco diferente dos outros esportes. Mas isso não o impede de poder ser acessível a todos.

Postado por Igor Varejano 18 anos. Do interior de São Paulo. Vivo em ódio por amar o Palmeiras e o Liverpool. Futebol é o que move a humanidade. Bom, pelo menos a minha.